PASADENA — “A rainha da cocaína” se parece com “Narcos” no tema (é sobre uma grande traficante internacional de drogas), na ambientação (a trama se passa na Colômbia) e até na narração, a cargo de um policial americano da DEA. Mas Catherine Zeta-Jones, protagonista do telefilme dirigido pelo mexicano Guillermo Navarro, vencedor do Oscar pela fotografia de “O labirinto do Fauno” (2006), que estreia no próximo dia 11, às 22h, no Lifetime, já estava de olho na história de Griselda Blanco há muito tempo. Ela queria encarnar a “madrinha” do Cartel de Medellín, assassinada em 2012, muito antes de Wagner Moura estrear na pele de Pablo Escobar, seu equivalente masculino, na série produzida por José Padilha para a Netflix.

Aos 48 anos, quase duas décadas depois de estrelar “Traffic”, de Steven Soderbergh, filme ganhador de quatro Oscars e pelo qual foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz, Catherine volta ao tema das drogas por conta própria. Após assistir ao documentário “Cocaine cowboys”, de 2006, há cerca de quatro anos, ela decidiu ir atrás das histórias sobre uma das mulheres mais poderosas do eixo Colômbia-Estados Unidos.

— Ela não aparece no documentário, mas todos aqueles homens, alguns deles ainda na cadeia, falavam sobre “la madrina”, essa mulher. Todos a temiam e a respeitavam profundamente. Era uma mulher poderosíssima num mundo sombrio, perigoso e dominado por homens. Então resolvi ir atrás dessa história, que nunca havia sido contada na TV ou no cinema — lembra a atriz galesa, vencedora de um Oscar e um Tony que, diferentemente de Wagner Moura, não vai enfrentar a ira dos colombianos por conta de seu sotaque, já que o filme usa a paisagem de Miami como licença poética para ser todo falado em inglês.

— Foi libertador aparecer tão diferente na tela. Geneticamente eu jamais me pareceria com a Griselda Blanco real, mas eu não queria interpretar uma caricatura, eu queria interpretá-la de dentro para fora… meu sotaque, minha linguagem corporal, o jeito que ela falava. A atitude dela era muito mais importante que usar ou não rímel e batom nas gravações. Mas eu vi fotos oficiais dela de quando esteve na prisão. E ela estava cheia de cílios postiços, unhas vermelhas compridas, batom vermelho, roupas coloridas. Griselda Blanco era uma estrela de cinema estrelando o filme da própria vida — conta a atriz que, justamente por conta da aparência, frequentemente interpreta personagens latinas, caso da Elena, de “A máscara do Zorro”, filme que a revelou para o mundo, 20 anos atrás.

Até chegar à “Rainha da cocaína” (ou “Cocaine godmother”, no original), Catherine leu e dispensou três roteiros antes de fechar com o Lifetime. Ela, que esteve na TV recentemente na primeira temporada de “Feud”, de Ryan Murphy, volta totalmente despida de vaidade, praticamente irreconhecível no papel de uma das maiores traficantes de cocaína da história.

— O que mais me encantou nesse papel é que ele não é o que se espera de uma mulher em um filme sobre drogas, em que elas normalmente são a esposa desconhecida ou a vítima infeliz. Em “Traffic”, minha personagem teve essa reviravolta maravilhosa em que ela virou uma espécie de Michael Corleone de “O poderoso chefão”, quando assumiu o negócio da família. Interpretar Griselda me deu a oportunidade de entrar debaixo da pele dela, cavar mais fundo, descobrir mais sobre esse personagem cheio de camadas que é o oposto de tudo o que eu acredito moralmente.

No longa para a TV, Catherine contracena com Juan Pablo Espinosa, uma espécie de Wagner Moura (viu só?) da Colômbia. Após ficar famoso estrelando filmes e novelas locais, o ator decidiu investir na carreira internacional, e se mudou para os Estados Unidos. Chegando lá, conseguiu um pequeno papel na primeira temporada de… “Narcos”.

— Sou colombiano e acho que ouvi essas histórias um milhão de vezes. Cresci vendo as notícias. Sei tudo sobre Pablo Escobar, Griselda e os cartéis de drogas — conta Espinosa. — Nesse filme, a história de Griselda Blanco é contada do modo que deveria ser: pela perspectiva feminina. Catherine foi muito verdadeira em sua interpretação. Antes de começar a gravar, estava intrigado, “como Catherine, que é galesa, vai interpretar uma colombiana?” Mas ela parece uma colombiana, ela tinha que ser latina. Ela estava ótima em “Zorro”. E ela estava sempre preocupada com o sotaque.

Catherine, que define o período de gravações como “as melhores quatro semanas” de sua vida, disse ter recuperado o tesão por atuar. Casada há 18 anos com o ator Michael Douglas, com quem tem dois filhos — que, assim como os pais, sonham com Hollywood —, a atriz buscava um papel que a tirasse de casa.

— Eu me joguei nesse projeto e acho que contagiei a equipe e o elenco, porque amava ir trabalhar todos os dias. E esse nem sempre é o caso. Por alguns anos, perdi o jeito para a coisa, me perguntava qual a necessidade disso tudo. Eu amo ser mãe. Amo ser esposa. Tive uma carreira muito boa até aqui. Então eu queria investir em qualidade. Já não queria aceitar mais aqueles trabalhos do tipo “Ei, Catherine, apenas apareça por uns dias que nós lhe pagaremos uma fortuna”. Isso nunca funcionou para mim. Eu estava perdendo o brilho nos olhos. E pensar que saí de casa, no País de Gales, aos 9 anos, para fazer teatro em Londres, e não sentia nada assim há anos.

— Como atriz, quero interpretar todos os tipos de mulheres. Não quero me encaixar num molde de biscoitos, sabe? Tem gente que tenta te forçar a isso, mas evito. É sempre interessante interpretar força e fraqueza ao mesmo tempo. Eu não quis representá-la como “ah, ela não era tão má”, “ela fez isso pelas crianças”, tentar justificar as atitudes dela. Não tento justificar por que Griselda virou Griselda, em um mundo masculino, gerenciando um cartel, fazendo coisas desprezíveis. Ela veio de Medellín, que era um lugar bem ruim. Mas há milhares e milhares de homens e mulheres que são de lá, tiveram as mesmas condições e não entraram para o tráfico como ela. Por isso, busquei as falhas de Griselda, porque não queria que as pessoas gostassem dela. Eu não gosto dela. Ela não era uma pessoa gostável. Mas há a vulnerabilidade, e gostei de trabalhar isso.