Primeiro longa nacional da Mostra competitiva do Olhar de Cinema, ‘Fabiana’ é um pequeno achado. A diretora Bruna Laboissière, acostumada a pegar carona nas estradas, desde sua Goiás natal, deparou-se um dia com Fabiana na direção de um caminhão de carga. Com 56 anos de idade, mulher trans, um amor em cada porto, Fabiana é uma personagem ímpar em meio a um ambiente tão masculino.

A diretora do longa propõe, então, documentar o cotidiano dessa mulher a partir do seu trabalho. Ali na boleia do caminhão, com câmera e equipamento de som, Bruna é também uma personagem que interage com Fabiana e demais pessoas, e o filme se constrói como um road movie em que, mais do nunca, o percurso é mais importante do que a chegada, vide o ofício de Fabiana.

O filme claramente descarta um olhar que pudesse ser calcado no exotismo daquela figura que trafega pelo ambiente das estradas. Faz isso especialmente investindo numa espécie de cartografia dos desejos e contatos amorosos que Fabiana mantém com outras mulheres, ela que viaja de ponta a ponta do Brasil.

Uma parte desses contatos é feita via telefone celular – ela conversa com amigos até mesmo pelo rádio transmissor –, modo de matar as saudades e vencer a distância. Ao acompanhar Fabiana em suas viagens, o filme acaba se deparando com essa rede afetiva que ela constrói ao seu redor, transparecendo visivelmente diante da câmera a pessoa amorosa que é.

Assim, o traço da observação do cotidiano – uma proposição inicial do filme pela forma de cinema-verdade com que o documentário se coloca diante daquela personagem – se amplia para um jogo constante de busca por uma realização afetiva que Fabiana parece perseguir, meio que ao sabor do tempo e das constantes viagens.

Um desses contatos parece especial pela maneira com que entendemos haver ali uma relação mais sólida. Priscila surge no filme primeiro como uma interlocutora ao telefone. E, sem revelar muito, basta dizer que ela terá participação maior no decorrer do filme.

“Fabiana” é marcado muito facilmente por uma intimidade compartilhada entre realizadora e protagonista. Há uma cumplicidade entre elas muito similar ao que acontece entre a cineasta e o personagem em “Jonas é o Circo sem Lona”, filme baiano de Paula Gomes.

Dentro da mostra competitiva de curtas-metragens, curioso perceber que os dois representantes brasileiros são dirigidos por mulheres, ambas baianas. “Maré”, de Amaranta Cesar, e “Carne”, de Mariana Jaspe (ela que vive atualmente no Rio de Janeiro), foram apresentados na mesma sessão, apesar das claras diferenças entre os dois trabalhos.

Amaranta aporta do Vale do Iguape, região do Recôncavo baiano, lugar que ela conhece bem e faz de “Maré” uma espécie de encontro com as mulheres dessa comunidade quilombola, construindo a partir dali um fio de ficção que se confunde muito com uma proposta documental.

No fundo, essa operação tem muito de uma vontade de revelar e dar a ver a força ancestral dessas mulheres, seja na operação do trabalho que garante o sustento – na labuta pelo mangue ou na produção do dendê – como também em torno da religiosidade afro-brasileira que marca o cotidiano delas com muita onipresença.

O filme é um gesto muito bonito de compartilhamento de afetos e vivências marcados pela união daquelas mulheres. Quando duas garotas se perdem no mangue, começa uma verdadeira busca e vigília a partir de uma rede muito forte de adesão entre as mulheres locais. Mais do que uma espírito de comunidade, há ali uma energia ancestral que se fortalece na união.

Em um pólo totalmente oposto, mas ainda assim interessado numa relação de afetos, Mariana Jaspe entra de cabeça no cinema de gênero e usa da atmosfera do horror para colocar em questão os conflitos amorosos e emocionais entre dois personagens negros. O filme começa com a discussão do casal numa piscina até o aparecimento de uma misteriosa e assustadora criatura que assume o corpo de uma menininha.

“Carne” busca suscitar uma série de questões que vão além do simples exercício de gênero. É bem claro e muito bem composto o trabalho tanto de caracterização dessa entidade bizarra, assim como o desenho de som a potencializar o clima de tensão e medo.

Porém, antes disso, estão postas questões como o fato da mulher se sentir usada pelo rapaz, um típico malandro a fim de aproveitar o momento de intimidade, enquanto ela busca um tipo de relação mais profundo. Talvez falte ao filme investir mais nessas questões já que a atração pelo gênero fala mais alto.