Com quase 30 anos de exibição, Os Simpsons ocupa uma parte significativa da cultura pop. E não é preciso dizer que a série conquistou uma porção de controvérsias no passado. No entanto, graças ao episódio mais recente, “No Good Read Goes Unpunished”, a série conseguiu retomar uma situação já delicada e torná-la ainda pior. E é tudo graças ao nosso proprietário favorito, dono do Kwik-E Mart, Apu Nahasapeemapetilon.

Dessa vez, a polêmica surgiu quando a série finalmente reconheceu o documentário lançado em 2017, chamado O Problema com Apu. A produção traça o impacto da cultura pop do personagem, ressaltando que, enquanto Apu quebrou barreiras críticas sobre representar personagens sul-asiáticos na TV, ele provavelmente fez mais mal do que bem. Apu é um personagem que reforça os estereótipos negativos sobre os indianos-americanos. O documentário, por sua vez, traz entrevistas com celebridades como Aziz Ansari, Kal Penn e Maulik Pancholy, que contam histórias sobre serem intimidados e provocados por pessoas para as quais Apu era o único ponto de referência sobre como as pessoas do sul da Ásia falam ou se comportam.

O Problema com Apu oferece muito conteúdo para pensar. Isso obriga os fãs de Os Simpsons de longa a data a reavaliar um personagem icônico e questiona se a série pode ou deveria seguir um caminho melhor. Na época, a voz original de Apu, Hank Azaria, e outros envolvidos com o programa pareciam receptivos às críticas levantadas pelo documentário. Mas o momento no último episódio da série sugere totalmente o contrário. Lisa se dirigiu diretamente ao público e disse: “Algo que começou há décadas e foi aplaudido e inofensivo agora está politicamente incorreto. O que você pode fazer?” Enquanto ela falava, o quadro mudou para uma foto de Apu com o familiar slogan “Don’t have a cow” (expressão que significa “não perca a cabeça”).

Francamente, teria sido melhor se a série ignorasse o documentário no lugar de entregar uma resposta tão simplista. O diálogo de Lisa e a foto de Apu criam a impressão de que os escritores do programa não estão muito preocupados com a controvérsia de Apu e seu respectivo estereótipo. Eles estão descartando o questionamento com a desculpa de que ninguém teve problema com Apu até então, o que claramente não é verdade. O Problema com Apu deixa claro que muitas pessoas têm lidado com as consequências do personagem há décadas.

Pior do que a piada mesquinha em si é que Lisa, de todos os personagens, foi a escolhida para entregá-la. Desde o início, Lisa tem sido a consciência da família, sempre foi a mais preocupada com os vários males do mundo, enquanto seu pai é um dos personagens mais hilários da TV. Na verdade, foi o próprio Apu que formou um forte vínculo com Lisa no clássico episódio de 1995, “Lisa the Vegetarian”, enquanto ele ajudava Lisa a abraçar uma nova existência sem carne e sem culpa. Essa foi uma das únicas vezes em que a série tratou Apu como um personagem tridimensional, totalmente realizado e não apenas como uma caricatura. Então, colocar a mensagem nas costas de Lisa é uma reviravolta simplesmente cruel.

Para ser justo com Matt Groening e a equipe de Os Simpsons, não há soluções fáceis para a situação de Apu. Como o crítico Justin Charity apontou em 2017, O Problema com Apu é pesado em críticas, mas leve em sugestões sobre como realmente melhorar o personagem. E não é como se Apu fosse o único da série que comercializa estereótipos culturais negativos. Alguns podem argumentar que ele não é pior do que personagens como Luigi Risotto, Tony Gordo, Homem Abelha ou Cletus Spuckler.

Mas para Os Simpsons, simplesmente abdicar de qualquer responsabilidade pelo impacto cultural de Apu e rejeitar as preocupações levantadas no documentário é inaceitável. A série tem problemas suficientes, porque permanece relevante após 29 temporadas. Se o programa não puder continuar evoluindo e se tornar uma versão melhor de si mesmo, talvez tenha chegado a hora de terminar.