Em meio à parada geral por falta de combustível, a Petrobras cuida de sua imagem colando um adesivo da marca como patrocinadora de duas salas de cinema tradicionais do circuito Paulista. A partir de hoje, o Cinearte, que já foi Cine Bombril e Cine Livraria Cultura, passa a se chamar Cinearte Petrobras.

A definição definitiva foi dada pelo jornalista Zuenir Ventura como título do livro editado pela primeira vez em 1989 e relançado pela Planeta em em 2008. Ventura é o convidado desta quarta (30) para um bate-papo, às 19h30, na sala 2, antes da exibição, às 20h30, do filme que ele escolheu e que também está longe de ter finado: “Terra em Transe” (1968).

Além da erupção vulcânica de Glauber Rocha, o ciclo exibirá “Acossado” (1960), de Jean-Luc Godard (dia 31, às 19h), “A Primeira Noite de um Homem” (1968), de Mike Nichols (dia 1º, às 19h) e “No Intenso Agora” (2017), de João Moreira Salles (dia 2, às 19h).

A partir do dia 7, se caminhoneiros e outros eiros não pararem tudo, “a ideia é prolongar a mostra com mais títulos representativos do espírito 68, incluindo filmes do cinema marginal”, promete o exibidor Adhemar Oliveira, responsável pela programação do Cinearte Petrobras.

Para o público domesticado pela linearidade dos filmes e séries contemporâneos, “Terra em Transe” pode parecer insuportável. Mas a ideia do cinema de Glauber é justamente arrancar do torpor, provocar e incomodar. Além disso, a articulação dos políticos para não largar a carcaça do poder em Eldorado, país imaginado pelo diretor baiano em 1968, parece muito mais um documentário do nosso presente do que uma ficção com meio século de idade.

A linguagem instável adotada por Glauber tem entre suas tantas fontes a desobediência às regras de como fazer cinema, método avançado desde o início da década pelo “Acossado” de Godard, nome decisivo para a virada sessentoitista do cinema rumo à experimentação política.

Ao contrário do transe de Glauber e dos disparos contra o sol de Godard, é menos imediato identificar em que “A Primeira Noite de um Homem” possa ter sido revolucionário. Se a rebeldia de Ben Braddock foi assimilada a ponto de ter se tornado padrão, é a senhora Robinson que continua lá mostrando seu desejo, tornando a personagem feminina também sujeito, e não apenas objeto.

“Nosso plano é ampliar o conceito de exibição, complementando conteúdos para o espectador na forma de textos, debates, cursos e assegurar espaço para o cinema brasileiro, além de mostras de filmes com importância histórica e da produção contemporânea que traga questões para o público jovem.”

Aos domingos, as salas também devem ter apresentações musicais e pré-estreias em horários diurnos. Nos dias de semana, o Cinearte mantém seu perfil, com espaço para o cinema “menor que blockbusters”, lançamentos brasileiros e festivais, como o Varilux.