Vencedor de dois Globos de Ouro e indicado em 10 categorias do Oscar, 1917 chama atenção para um conflito pouco explorado pelo cinema. A Primeira Guerra Mundial se tornou o palco da obra autoral do diretor britânico Sam Mendes, que usou o drama da ficção cinematográfica para retratar o sofrimento de milhões de soldados que participaram do conflito e viveram nas trincheiras.

Para o roteiro de 1917, Sam Mendes se inspirou nas histórias contadas por seu avô, Alfred Hubert Mendes, escritor de ascendência portuguesa que serviu o exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial. Além disso, o cineasta se debruçou sobre uma vasta pesquisa com cartas, livros, diários e testemunhos de outras pessoas que vivenciaram conflito. Mas os personagens do filme indicado ao Oscar são, em si, fictícios – e a missão de Blake e Schofield, os protagosnistas, nunca chegou a acontecer.

Apesar de não ter relação alguma com a narrativa, o dia em que a história do filme começa marca a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. Em fevereiro, o país já havia rompido laços diplomáticas com a Alemanha, que foi autora de ataques submarinos e interferências no México contra os norte-americanos. Em 6 de abril de 1917, os Estados Unidos entram oficialmente em guerra contra os alemães e, em 26 de junho, os primeiros soldados norte-americanos chegam à França. Em dezembro, os Estados Unidos ainda declaram guerra ao Império Austro-Húngaro.

A indústria bélica europeia se desenvolveu bastante ao longo da Belle Époque, que antecedeu a Primeira Guerra Mundial. Entre os países que mais investiram em armamentos, a Alemanha se destacou em batalhas marítimas, com submarinos capazes de lançar torpedos; à céu aberto, com bombardeios de gases venenosos; e em terra firme, com o uso de lança-chamas e metralhadoras, por exemplo.

Além disso, como o filme mostra, os alemães eram conhecidos por criar armadilhas e destruir equipamentos assim que deixavam seus postos, para que os inimigos não conseguissem utilizá-los ao chegar ao local.

Outras novidades também foram “lançadas” no conflito por outros países, como os tanques de guerra britânicos e as granadas de gás não letal francesas. O resultado de tudo isso foram cerca de 20 milhões de mortos e 21 milhões de feridos, entre militares e civis.

Os ratos são elementos quase onipresentes nas cenas de plano-sequência de 1917. Não é para menos. Os soldados da Primiera Guerra Mundial tiveram que conviver com milhões desses animais, que eram atraídos pelos cadáveres enterrados nas trincheiras.

Com o tempo, os soldados foram desenvolvendo métodos para lidar com a infestação. Atirar estava fora de cogitação, já que era considerado um desperdício de munição. O uso de baionetas era bastante comum. Uma das formas mais eficazes era a caça de ratos por gatos ou, principalmente, terriers, que eram maiores, mais rápidos e mais fortes do que os felinos. Assim como os roedores, cachorros também aparecem em cenas em 1917.

Inclusive, a maioria das raças de terrier foi criada no Reino Unido e na Irlanda para controle de populações de ratos, coelhos e raposas sobre e sob o solo. A própria palavra terrier deriva do latim “terra”.

No filme, os mensageiros Blake e Schofield precisam encontrar o segundo batalhão do Regimento Devonshire para avisá-los sobre a emboscada alemã. O regimento britânico de fato existiu e lutou na Frente Ocidental da Primeira Guerra Mundial.

Inicialmente, em época de paz, ele contava apenas com dois batalhões de tempo integral, um reserva e quatro de força territorial. Já durante o conflito, o regimento chegou a ter 25 batalhões. Tanto o primeiro quanto o segundo deles, que estavam em Jersey e no Cairo, respectivamente, desembarcaram na França no ínico de 1914.

Hoje, na comuna francesa de Mametz, é possível encontrar um cemitério de soldados que fizeram parte do Devonshire e a famosa lápide: “Os Devonshires defenderam esta trincheira, os Devonshires ainda o fazem.”

A operação alemã realizada na primavera de 1917 foi uma das principais inspirações de Mendes para o enredo do filme. Nela, a Alemanha retira suas tropas das trincheiras e recua  em direção à Linha Hindenburg, uma nova fortaleza onde os alemães poderiam se preparar para operações ofensivas. Sendo assim, apesar da confusão entre os alidados, os alemães não haviam recuado, apenas se movido para um lugar mais estratégico, que seria destruído apenas em setembro de 1918.

Em seu filme, Sam Mendes usou a operação para mostrar a incerteza e as intrigas entre os diferentes batalhões e posições do exército sobre as estratégias de guerra.

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