Andrea, que tinha apenas 13 anos na época, lembra que, depois de ouvir a notícia da queda do Muro de Berlim, veio um desejo incontrolável de pegar um trem para a capital alemã e viver aquele momento histórico.

O muro da vergonha, como era conhecido em grande parte do Ocidente, ou a proteção antifascista, como era chamado pelo governo da República Democrática Alemã (RDA), é possivelmente o símbolo mais conhecido da divisão do país, que após a reunificação se tornou uma potência econômica europeia.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha e sua capital, Berlim, foram divididas em quatro zonas, cada uma controlada por uma das potências vencedores da disputa: URSS, Reino Unido, França e Estados Unidos.

Mais tarde, as potências ocidentais decidiram integrar suas respectivas áreas e, em 1949, nasceu a República Federal da Alemanha a oeste, enquanto a leste despontava a RDA, que daria início mais tarde à construção de um muro em Berlim, dividindo fisicamente cidade em duas.

Em uma piscina de Reinbek, subúrbio de Hamburgo, a cerca de 40 minutos do centro da cidade, Christine Ludwig, nascida e criada nos arredores de Leipzig, no leste da Alemanha, conta que decidiu se mudar para o oeste cinco anos após a queda do muro.

Desde a reunificação do país, cerca de 3,7 milhões de alemães deixaram o leste; alguns com o objetivo de reencontrar familiares, mas a maioria se mudou em busca de oportunidades profissionais, econômicas e sociais oferecidas pelas grandes metrópoles localizadas na antiga Alemanha Ocidental. Este número representa quase um quarto da população da antiga República Democrática Alemã.

Com quase 200 mil migrantes, Hamburgo se destaca como destino. Nenhuma outra localidade recebeu tantas pessoas da Alemanha Oriental quanto esta cidade industrial que abriga o maior porto do país, o terceiro da Europa e um dos mais importantes do mundo.

“Dois dias depois, eu já tinha conseguido um emprego em um Pizza Hut local. E há 15 anos trabalho na cozinha desse balneário. O povo do leste é muito trabalhador”, diz ela, com um sorriso no rosto, enquanto serve um pretzel a um cliente.

“Quando cheguei a Hamburgo, eu já tinha uma ideia de como seria a vida aqui, tinha visitado a cidade algumas vezes. Sabia de todas as coisas boas que estavam esperando por mim, mas ninguém nunca me contou sobre as coisas ruins”, admite com os olhos cheios d’água.

Além das desigualdades econômicas e sociais, Dalia Marin, professora de economia da Universidade de Munique e pesquisadora do Centro de Pesquisa em Economia e Política (CEPR), chama a atenção para uma diferença “mental” entre os alemães orientais e ocidentais.

“Após a reunificação, a Alemanha Oriental perdeu sua competitividade no mercado de exportação para os países da Europa Oriental, devido às reformas feitas pelo governo na época que instituiu salários mais altos, sem um incentivo para aumentar a produtividade. Isso fez muitas empresas falirem e, como resultado, os alemães orientais sentiram que não tinham espaço em uma economia de mercado.”

“O crescimento observado no início foi desencadeado por dois fatores: primeiro, o setor público da Alemanha Oriental aumentou e atingiu o mesmo nível da Alemanha Ocidental – os salários também aumentaram exponencialmente; e segundo, todas as pessoas que deixaram o Oriente. Ambas ações elevaram a renda per capita da antiga RDA “, explica a economista.

“Eles tinham um estilo de vida muito diferente do nosso. Meus colegas ocidentais moravam sozinhos em apartamentos próprios, eu perguntava a eles: ‘Como vocês conseguem pagar?, e eles simplesmente respondiam: ‘Ah, é dos meus pais’. Então, eu ficava pensando: como é possível ter mais de uma propriedade? Nunca tinha conhecido na minha vida alguém que tivesse dois imóveis, nem em Meissen, nem em Dresden.”

Embora a lacuna econômica tenha diminuído desde a reunificação, ainda há disparidades entre as regiões que faziam parte da Alemanha Ocidental e aquelas que integravam a RDA: a renda mensal média de um trabalhador no oeste é de 3,3 mil euros, enquanto no leste é 2,7 mil euros.

Segundo o ranking das maiores empresas de capital aberto do mundo, publicado pela revista Forbes neste ano, 47 das 50 maiores empresas alemãs têm sua sede na Alemanha Ocidental. Apenas três delas se encontram no leste; mas em Berlim, a capital.

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica de Munique, cerca de 13,6 milhões de pessoas vivem atualmente no antigo território da República Democrática Alemã, o mesmo número de habitantes que havia há 114 anos.

Naquela época, a Alemanha Ocidental tinha 32,6 milhões de habitantes, mas, ao contrário do leste do país, sua população mais que dobrou – e estima-se que chegará a 68,3 milhões no fim deste ano.

“Muitas pessoas vão para o oeste em busca de melhores empregos. Aqui no leste há muito trabalho, mas a maioria de encanador, caminhoneiro, cozinheiro etc. Se você quer um bom trabalho como arquiteto ou jornalista, você tem mais oportunidades no oeste”, diz Danielle Schönfeld em um café em Dresden, uma das cidades mais importantes do leste do país.

“Aqui há qualidade de vida, temos um bom sistema de transporte público, é tranquilo e relativamente barato, mas se você deseja desenvolver uma carreira profissional bem-sucedida, é melhor ir para o outro lado.”

Schönfeld sempre quis ser jornalista, mas hoje ela trabalha como coach para mudar vidas, um trabalho que ela classifica como normal, com um salário normal. Ela trabalha cerca de 21 horas por semana e ganha 1,2 mil euros.

Apesar das visíveis disparidades econômicas no país, Christian Hirte, comissário do governo para assuntos do leste, acredita que o plano das autoridades de fundir as economias da Alemanha Oriental e Ocidental tem sido bem-sucedido.

“Tivemos um começo muito difícil nos anos 1990. 50% das pessoas no leste perderam seus empregos porque o setor em que trabalhavam não foi capaz de competir em uma economia de mercado. Mas o governo pode exibir muitas conquistas, por exemplo, atualmente a população do leste tem uma expectativa de vida mais alta que a da antiga República Democrática.”

Hirte destaca que a RDA construiu o muro porque muitos jovens com educação e motivação, assim como muitas empresas, se mudaram do leste para o oeste. E quando o muro caiu, milhões de pessoas continuaram a tentar migrar em busca de uma vida melhor.

Peter Krause, cientista social do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica de Berlim, concorda que houve avanços na reestruturação da força de trabalho no leste, mas reconhece que ainda existe muita tensão.

“Não quero dizer que está tudo bem, ainda temos grandes problemas, especialmente relacionados ao nível de renda”, diz ele, que nasceu e foi criado na região de Baden-Württemberg, no oeste da Alemanha.

Na verdade, os alemães ocidentais também dominam as altas esferas educacionais do país. Todos os reitores e reitoras de universidades alemãs nasceram na República Federal, dado que surpreende tanto cidadãos quanto estrangeiros.

“Se você conversar com os alemães do leste, vai perceber que eles não sentem que têm as mesmas oportunidades que no oeste do país. Suas condições de vida são um pouco piores e seus salários também.”

“No AfD, temos propostas claras: nos livrar do euro, da burocracia da União Europeia e, acima de tudo, queremos frear a imigração em massa que trouxe pobreza para a Alemanha”, afirmou Pazderski à BBC News Mundo.

“Desde 2017, recebemos mais de 2 milhões de imigrantes que, em sua maioria, se aproveitam do nosso generoso sistema social, o que significa que não sobra muito para os alemães. As pessoas veem como a criminalidade aumentou e no que cidades como Colônia e Düsseldorf se transformaram. Os alemães do leste assistem ao noticiário e dizem: ‘Não queremos isso aqui’. É por isso que votam na gente”.

Contrariando essa afirmação, um relatório do Departamento Federal de Investigação Criminal da Alemanha, publicado no início deste ano, mostra que a taxa de criminalidade alemã continua caindo. Em 2018, o país registrou 5,56 milhões de crimes, uma redução de 3,6% em relação ao ano anterior.

Segundo o Departamento Federal de Estatísticas da Alemanha, o percentual da população de origem estrangeira atingiu 25,5% em 2018, enquanto no leste esse número é de apenas 6,8%, se excluirmos Berlim.

Por quatro anos, a saxã manteve um relacionamento amoroso com um refugiado sírio – ela explica como sentiu na própria pele a xenofobia e a islamofobia que existe em Dresden: “Sempre olhavam para ele como se fosse um terrorista.”

Dalia Marin acredita que as disparidades não vão melhorar até que os políticos entendam que a única maneira de fazer a região prosperar é oferecendo incentivos fiscais às empresas para que se estabeleçam no leste.

Schönfeld avalia, por sua vez, que as autoridades estavam ocupadas demais tentando reconstruir fachadas e, por mais de 20 anos, não perceberam que, por trás delas, ainda havia diferenças econômicas e sociais a serem resolvidas.

O fato é que quase três décadas depois, a famosa promessa feita pelo ex-chanceler Helmut Kohl em 1990 – de “paisagens florescentes” no leste alemão após a reunificação com o oeste – ainda não foi cumprida.

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