Dentre as “verdades” que se dizem sobre o cinema amazonense – majoritariamente vindas de pessoas que não acompanham com regularidade a produção local – não é difícil escutar: “não há atores de qualidade no cinema amazonense”; “nunca vi uma atuação boa o bastante nos filmes locais”; “o filme era até ok, mas os atores estragavam tudo”; “os atores daqui não tem naturalidade, pensam que atuar é fazer careta”.

Não estou inventando essas frases, as ouvi em mesas de bar, aos cochichos durante debates de filmes, em comentários de críticas e notícias publicadas aqui mesmo no Cine Set. Ideias como essas são subjetivas, revelam gostos pessoais, além de estarem ligadas às buscas individuais que cada pessoa tem ao assistir a um filme ou ao ver um ator no vídeo. Tudo muito legítimo, claro, cada um tem direito de julgar como quiser. Mas considero tal pensamento incompleto, quando não está simplesmente equivocado mesmo, em alguns casos.

Não penso que não há atores de qualidade aqui, ou que as atuações são o que temos de mais precário na nossa produção. Não acho que há menos atores de qualidade em Manaus do que diretores, montadores, diretores de fotografia, roteiristas, ou qualquer outro profissional que o cinema demanda. Se concordarmos que todas essas funções são, em média, desempenhadas precariamente, sem que nenhuma função se destaque para mais ou para menos, a conversa muda de figura.

Os atores estão na linha de frente, eles que estão dando a cara a tapa no vídeo, emprestando suas imagens para as personagens, tornando-se representações físicas das ideias dos filmes. E se a obra não for bem resolvida, normalmente, o público se apega ao que está mais palpável, e se o ator em questão não for melhor que o resto, boa parte da conta vai para ele, vira uma espécie de símbolo de tudo que deu errado.

É óbvio que há pessoas que atuam em filmes locais que precisam tomar mais consciência do seu ofício, buscar especialização, se distanciar da equivocada ideia da ‘grelhação’ (com o perdão do termo), ou a de satisfazer o ego através de um hobby que é trabalho sério, que exige disciplina, para muita gente. Isso também existe, e é importante que não se tenha olhar paternalista a respeito.

No meu texto anterior falei sobre roteiro, mais especificamente sobre diálogos. Das incapacidades mais comuns nos roteiristas iniciantes está a falta de compreensão de desenvolvimento de personagem, e de uma elaboração narrativa que valorize as atuações mais através de ações, expressões do que palavras.

O ator em questão pode nem ter elementos suficientes para desempenhar um grande papel, mas certamente poderia não comprometer tanto. As construções narrativas dos roteiros no cinema amazonense, de modo geral, reproduzem um estilo de cinema incompatível com nossas condições financeiras e mão de obra.

Histórias com personagens de arcos dramáticos mirabolantes, diálogos pobres e ininterruptos, situações mal construídas, tramas que, de modo geral, são pretensiosas e carecem de coesão. Tudo isso é tão ou mais grave que uma atuação ruim, sabota o trabalho do ator decisivamente, fazendo com que ele esteja ali para jogar um jogo que não tem como vencer.

Há atores que, a partir dessa situação precária, embarcam de cabeça no projeto e, com a melhor das intenções, acabam potencializando todos esses defeitos, tornando tudo muito pior. Puxando da cabeça um exemplo rápido, é algo como um Nicolas Cage (guardadas todas as devidas proporções), que se torna potência em trabalhos bem executados, mas que também abraça sem freios (e discernimento, é bom lembrar) propostas ruins, dando os habituais 110% para ideias pobres, às vezes constrangedoras.

Há os que se omitem, dizem que a construção da personagem é responsabilidade dos seus intérpretes, que sua função é mais não atrapalhar do que interferir no processo do ator; outros são excessivamente presentes, supervalorizam cada gesto, olhar, projetando desdobramentos complexos em cada cena do roteiro. Mas como se dirige um ator, como se entende as características que cada um traz para o projeto e como usar isso a favor da personagem, o que se diz a um ator quando ele não chega no resultado necessário?

É preciso sim que os diretores investiguem essa área, estudem atuação, bebam de Stanislavski, Brecht, Grotowski, e outros teóricos, para terem elementos para trabalhar, para dialogar com o ator num idioma que ele compreenda. Não é na motivação, nem na tentativa de fazer parecido aos “atores de verdade” que se chega a atuações de qualidade. Assim como tudo em um filme, a responsabilidade em cima do trabalho dos atores é também do diretor, ele que assina no final, ele que tem todo o filme decupado na cabeça, e teoricamente sabe o que quer de cada elemento do filme, e deveria se cercar de referências e leituras para saber chegar no resultado esperado.

Hitchcock disse para Grace Kelly, quando esta decidiu parar de atuar, que ele faria dela uma estrela ainda maior se continuasse trabalhando em seus filmes. A princípio, essa frase soa arrogante, e aparentemente diz que a atriz nem precisa ser talentosa, pois ele transforma tudo em ouro. Mas tenho outra interpretação. Ele, por ter um domínio impressionante da linguagem, compreendia o processo frio e mecânico da gravação de um filme como poucos, que as emoções que a plateia sente são controladas milimetricamente pelo diretor, e através principalmente da montagem, pode-se transformar atuações inteiras, modificar sentidos, intenções, subtextos, através de efeitos, cortes, som, extracampo, raccords, e várias outras possibilidades. Se a decupagem valoriza as qualidades da atuação do ator, a atuação cresce decisivamente, ganha desdobramentos que vão além do trabalho do intérprete.

Segundo pesquisa recente realizada pela JLeiva, Manaus é a capital brasileira que menos vai ao teatro. Como ator de teatro, recebi com naturalidade esses dados. Aliás, todos os colegas que insistem em fazer teatro na cidade já sabem disso de cor. Fica aqui uma provocação para o leitor. Quando foi a última vez que você foi ver uma peça na cidade? Não vale a do Paulo Gustavo, do novo hit do stand up paulistano, nem do ator global secundário – que não saem por menos de R$ 60, a meia. Digo peça de diretores e atores amazonenses, que não custam mais que R$ 30, a inteira.

De novo, vamos para o campo subjetivo, cada um aprecia a arte que quiser, da maneira que bem entender. O que não entra na minha cabeça, entretanto, é que até mesmo os artistas locais, que dividem o mesmo barco, com cada vez mais furos no assoalho, não assistem aos espetáculos da cidade.

Fiz temporadas de dois espetáculos apresentando de tarde, noite, quinta, sexta, sábado, domingo, feriado, ingressos baratos, às vezes de graça, marcando as pessoas no Facebook, Instagram, Whatsapp, oferecendo facilidades para que o público não se desestimule. Com toda a tranquilidade posso dizer que conto nos dedos da mão quantos colegas diretores, roteiristas, diretores de fotografia, montadores, foram assistir ao trabalho mesmo com o bom número de apresentações que fizemos. Não é modo de falar, quase ninguém foi. Membros do Ateliê 23, o grupo que atualmente melhor representa a resistência no teatro em Manaus, poderiam fazer um texto grande aqui só falando disso.

Passando por atores de gerações anteriores, com uma estrada mais consolidada, como Ednelza Sahdo, Nonato Tavares, Socorro Langbeck, Koya Refskalefsky, Rosa Malagueta, Selma Bustamante, Arnaldo Barreto, Francisco Mendes, Gomes de Lima, Ismael Farias, Michel Guerrero, Hely Pinto, Leonel Worton, Paulo Queiroz, Eliézia de Barros. De uma geração mais nova, passando por jovens atores impulsionados pela formação na UEA, também há nomes importantes como Taciano Soares, Francis Madson, Ariane Feitosa, Denni Sales, Dimas Mendonça, Robson Ney, Ana Oliveira, Fabiano Baraúna, Richard Harts, Thais Vasconcelos, Carol Santa Ana, Isabela Catão, Eric Lima, Ítalo Rui, Gleidstone Melo, Matheus Sabbá.

Não são quaisquer nomes, não peguei sem critério para fazer número. São todos eles – fora outros que minha memória não resgatou, e por isso peço eventuais desculpas – atuantes, com tempo de palco, e principalmente, qualidade de atuação. Já me emocionei com todos esses, vi grandes atuações, construções de personagens complexas, memoráveis, e os (poucos) que foram aos espetáculos que tinham esses atores no palco sabem que não estou exagerando.

Este número de exemplos derruba a “tese” desinformada de que não há atores de qualidade em Manaus. Há sim, e há bastante tempo. Alguns já atuaram em filmes locais, em produções bem-sucedidas, outras nem tanto. Mas vários deles nunca trabalharam no vídeo, e trabalhariam caso fossem convidados, não tenho dúvida. E com uma preparação devida, roteiro e direção que saibam trabalhar suas potencialidades, certamente trarão elementos enriquecedores aos filmes amazonenses.

Importante ressaltar que essa é uma via de mão dupla. Também não vejo os colegas de teatro interessados em acompanhar os curtas-metragens de diretores amazonenses, da mesma maneira que o povo da dança, artes visuais, música, literatura. Cada um apenas no seu segmento. Ninguém é santo nessa história. Talvez se a gente se interessasse mais pela arte dos colegas, entenderia como é produtivo realizar parcerias, cria uma cena conjunta, crescer juntos. Assim fica mais fácil conseguir exposição, plateia, patrocínio, dinheiro, reconhecimento. É assim que se dialoga com o poder público, com a iniciativa privada. Infelizmente seguimos com cada um olhando pra si, achando que não vale a pena se dignar a assistir ao trabalho do outro. 

Por mais que tenhamos atores de qualidade, é sempre importante colocar em questão as diferenças que existem entre a atuação para teatro, que é a escola formadora da maioria das pessoas que decidem trabalhar com atuação em Manaus, e a atuação para o vídeo. O pensamento de que tudo é atuação, o trabalho do ator é atuar, logo o processo é semelhante, está longe de ser aplicado na prática.

O processo de construção da personagem, as referências que o ator acessa, a pesquisa, e tudo que está relacionado ao método de compreensão da psicologia da personagem, contexto histórico, social da obra, etc. permanece fundamental (dependendo do método escolhido, é claro). A questão é como isso reverbera no corpo, na expressão, na fala. O teatro, em termos gerais, exige presença cênica, e expansão nos gestos e falas, afinal as pessoas que estão da quarta fileira pra trás precisam pegar as mesmas informações que o público que está na primeira, portanto pensar em economia pra esses termos soaria como um contrassenso, embora haja exceções. A câmera é capaz de captar as emoções mais discretas e sutis de um ator, e ter domínio das menores expressões, buscando uma economia e precisão de gestos é requisito fundamental para o ator no vídeo, coisa que no teatro tem função muito menor.

Há atores que transitam por esses universos com naturalidade, como se soubessem intuitivamente as diferenças de cada meio, e quais são as potencialidades que ele possui em seu repertório que melhor funcionam para cada linguagem. Mas estes são raros. Afinal de contas, é realmente difícil, demanda trabalho, tempo, desprender-se das ferramentas que foram aprendidas durante toda uma formação para o palco, para fazer quase o inverso, o mínimo, o controle da micro expressão, chegar a compreensão de que um rosto em cena olhando para o nada já pode ser alguma coisa, desde que o diretor saiba o que fazer na montagem.

Assim como quase tudo envolvendo cultura em Manaus, falta formação especializada para a atuação para o vídeo. O problema é que cursos nessa área são caros, e, de modo geral, são oferecidos fora da cidade. Soma-se a isso o déficit na formação, e temos um cenário em que poucos atores locais possuem essa percepção mais aguçada entre as diferenças na representação.

O senso comum nos diz que não somos tão talentosos, e que sempre que tivermos a chance de ter um orçamento maior é recomendável chamar atores de fora para “garantir” o filme, sem nem dar chance aos atores daqui. Se entendermos, porém, que, no final das contas, a necessidade de evolução é em todas as funções, e não apenas no que é mais fácil de apontar o dedo, preconceitos podem ser derrubados, e quem sabe poderemos tomar atitudes para transformar o precário em algo de qualidade, com nossos próprios rostos, sotaques, timbres e melanina oleosa na tela.

Diego Bauer é diretor, ator, roteirista, curador e produtor cultural. É um dos sócios da Artrupe Produções, e atua nas áreas de cinema e teatro. É um dos diretores da série Boto, premiada no Prodav 05/2015. Dirigiu 3 curtas-metragens e um videoclipe. Em 2018 foi curador e produtor do I Festival Olhar do Norte. Atuou em 2 espetáculos de teatro, apresentando-se em Manaus, Itacoatiara, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Escreve sobre cinema no Cine Set desde 2013.