Há muito que o jazz português aguardava o álbum de estreia do saxofonista Ricardo Toscano. À frente do seu quarteto milagroso, fundado na tradição norte-americana, não há decepção possível. Ricardo Toscano Quarteto é já um disco essencial para a História do jazz destas terras.

“Então, meu, onde é que tens andado? Não te tenho visto.” Ricardo Toscano tem andado por Portugal. A palmilhar palcos deste país com o seu quarteto – às vezes também em Espanha ou Itália –, a deixar a música gerada pelos quatro fermentar e crescer para lá do que seria imaginável em gente que ronda os 25 anos. A desbastar o caminho para aquele que é o álbum de estreia mais aguardado do jazz português em muito, muitíssimo tempo. E a expectativa bem se justifica. Desde há cinco, seis anos que o nome do saxofonista circula pelo meio jazzístico nacional com o cunho de uma revelação em veloz, velocíssima ascensão. O justo burburinho que foi gerando à sua volta – e do seu quarteto, de que fazem parte Romeu Tristão (contrabaixo), João Pedro Coelho (piano) e João Lopes Pereira (bateria) – causou ondas de impacto tão fortes que, em 2015, esgotou em duas datas consecutivas o pequeno auditório da Culturgest, com a sala mais pequena do Centro Cultural de Belém a conhecer a mesma corrida aos bilhetes passado um ano.

E foi desde esse momento que começou a ferver uma certa ansiedade colectiva pelo disco de estreia do quarteto. Só que Ricardo Toscano, numa atitude de quem não só a soprar no saxofone parece ostentar uma idade muito superior à constante no cartão do cidadão, travou a fundo essa crescente expectativa. Em vez de apressar a edição, preferiu esperar. Não por um qualquer sinal divino, nem tão-pouco adiando com receio o confronto com o momento em que teria de se haver com essas esperanças que lhe atiravam para o colo sem que ele as pedisse, mas apenas porque sabia que ainda não tinha chegado a hora. E prova disso é o álbum que os quatro gravaram há cerca de ano e meio, que andou a passear na mochila e nos ouvidos durante uns tempos, até se render à conclusão que não servia ainda a sua própria medida de exigência. “Soava bem”, admite ao Ípsilon, “mas o som não era o ideal e a música não estava com o drive que conseguimos agora nesta gravação.”

Quer isto dizer que no jazz, numa música de relação umbilical com a improvisação, não basta ter o reportório e os músicos perfeitos. É preciso que uma gravação não se apequene perante aquilo que o grupo sabe que pode fazer, é preciso preencher na totalidade essa ideia potencial e, se possível, transbordá-la. Sobretudo quando, no caso do Ricardo Toscano Quarteto, se travava e trata não apenas do documento que inaugura a vida discográfica da formação, mas também de um registo que não podia nem pode ficar aquém de uma linguagem colectiva que já tinha sido testada e sublimada dezenas de vezes em palco.

E foi bom esperar. Porque, entretanto, há um ano Ricardo Toscano teve a primeira parte de uma epifania em prestações quando regressou a Nova Iorque, a cidade em que vive o jazz profundamente enraizado na tradição norte-americana que é a espinha dorsal da música do saxofonista, para imergir duas semanas na cena local. Algo se passou nesse período – reforçado por uma segunda visita, alargada para um mês e já na companhia dos restantes membros do quarteto, passado meio ano – que atirou o músico para um outro patamar musical e espiritual. Toscano não é capaz de precisar aquilo que aprendeu nesse período, em que rumava todas as noites para o Smalls, pequeno templo do jazz localizado em Greenwich Village, onde se habituou a conviver diariamente com músicos como o recém-falecido trompetista Roy Hargrove. “Aprendi mesmo muito lá, mas não sei explicar exactamente o quê”, diz. “Se calhar não aprendi, mas compreendi. E cada vez compreendo mais aquilo.”

Foi para estar junto de Roy Hargrove que Toscano se tornou assíduo do Smalls durante as duas semanas de Novembro de 2017 em Nova Iorque, por considerar que o trompetista “era o verdadeiro espírito do jazz neste momento”. A descida às catacumbas da cena nova-iorquina prendia-se, precisamente, com essa necessidade de tocar e respirar esse espírito do jazz no lugar que lhe é próprio. Hargrove “era aquele músico que podia estar a tocar no Carnegie Hall ou no Lincoln Center com os grandes nomes, altas salas cheias e esgotadas, mas depois estava todas as noites na jam do Smalls a tocar com toda a gente que aparecesse” – numa atitude que o português compara àqueles guitarristas que encontra nas casas de fado, sempre prontos a partilhar conhecimento e a ensinar os tradicionais a quem queira aprendê-los. “Na forma de o Roy fazer isso, com aquela entrega, percebia-se que não existe nunca o ‘tocar a brincar’. Da mesma maneira que nos ensaios da banda do Wynton Marsalis aquilo é sempre sério. Estar perto dele significava aprender com uma pessoa que aprendeu com as pessoas que inventaram isto.”

Toscano havia depois de voltar a Nova Iorque em Abril, frequentando os mesmos lugares de antes, sendo então questionado pelos músicos locais: “Então, meu, por onde é que tens andado?” Para os músicos americanos, que o tinham visto diariamente no Smalls ao longo de um par de semanas, era como se ele fosse mais um músico “da cena”, entre iguais, que apenas se tinha eclipsado por uns tempos.

A experiência de Novembro estava ainda bem viva em Ricardo Toscano quando, em Março deste ano, fez nova tentativa de registar a sua música no Auditório de Espinho, com a importante contribuição de Mário Barreiro na captação de um registo que tem por referência o jazz clássico que é a verdadeira paixão do saxofonista. Daí a importância de Hargrove ou de Wayne Shorter, outro dos seus heróis, músicos ligados ao hard bop como veículo primordial de expressão. Shorter, antes de mais, porque passou pelos Jazz Messengers de Art Blakey e integrou o segundo quinteto de Miles Davis – uma das duas formações de absoluta veneração para o português, sendo a outra o quarteto clássico de John Coltrane (cuja formação de saxofone, piano, contrabaixo e bateria, embora vulgar, é replicada no Ricardo Toscano Quarteto). Não esconde, de resto, a origem de Lament, um dos originais que inclui no seu álbum de estreia, com Coltrane presente na definição daquele espaço musical: “É uma homenagem à minha banda preferida, a coisa mais linda do mundo. É a cena a andar e a malta a swingar a sério. Está tudo bem ali.”

The sorcerer, por outro lado, o único tema cuja autoria não pertence a Toscano, é um original de Herbie Hancock, dedicado a Miles Davis e gravado, precisamente, pelo segundo quinteto do trompetista em 1967, num álbum intitulado Sorcerer. Quanto a filiação, estamos conversados. Toscano deixa as pistas todas para quem estiver interessado em segui-las.

Sendo o único tema de outro músico que chega ao CD lançado pela Clean Feed, Sorcerer esteve, na verdade, bastante bem acompanhado na sessão de gravação em Espinho. Ao longo de um dia e meio, o quarteto registou 17 temas, quase todos ao primeiro take. Na sua maioria, standards – apenas seis composições de Toscano, só uma tendo sido excluída do alinhamento final. Esse equilíbrio foi decidido a bem da “integridade artística” e em diálogo com a editora, privilegiando a afirmação de uma marca autoral em detrimento da revisitação – por mais legítima que seja – do património dos clássicos. “Havia duas opções como primeiro disco: a cena cheesy, comercial, à americana para tentar vender para festivais, e que passava por colocar três standards (como nós temos) e um título estilo Introducing ou Presenting, tipicamente anos 90; ou então este disco que sou mais eu, é mais aquilo que sinto, são temas meus e um fecho de ciclo. Se lançasse um disco de standards ia ficar com a sensação de que estava a tentar provar qualquer coisa a alguém. Assim, sinto que é o início de um trilho, uma direcção, um som em que mesmo quando tocarmos um standard não vamos soar a quarteto de Nova Iorque no clube tal – vamos soar a nós.”

Essa ausência dos temas formadores do quarteto não será, na verdade, tanto uma ausência quanto uma presença fantasma. E isto porque é impossível não sentir que a matriz sonora deste grupo é amparada por todos esses colossos que vão de Coltrane a Miles, de Shorter a Cannonball, numa linha que Toscano admite ter parentesco com aquela em que se movem músicos como Ambrose Akinmusire.

A partilha desse vocabulário clássico estava bastante presente quando, em 2013, ao receber um telefonema do músico e programador Carlos Martins, responsável por um fim-de-semana no Hot Clube incluído na Lisbon Week, Toscano foi desafiado a montar um quarteto com músicos da mesma geração. “Somos quatro pessoas que gostamos da mesma coisa, temos o mesmo percurso”, explica. E isso, nas suas palavras, equivale a “aprender o jazz do início e não saltar mega etapas para tentar fazer qualquer outra coisa”. “Viemos do mesmo sítio, da mesma cultura e partilhamos esta paixão pelo mesmo estilo de música, o que faz com que nos estimulássemos uns aos outros para aprender.” Esse estímulo tem passado, até agora, por todas as semanas aprenderem e tocarem temas novos, juntando sempre standards novos ao seu reportório. “Quando um não aprende, apertamos com ele, fazemos bullying uns aos outros”, exagera, reportando-se a um sentido de responsabilidade colectivo. Tal como identificam nos seus heróis, apesar de serem os quatro “muito dados à festa” – o que pode incluir missões de resgate de um telemóvel nas águas da marina de Ancona ou fugas irreflectidas aos carabinieri (nada de grave, esclareça-se) –, quanto tocam juntos nunca é a brincar. O jazz, para eles, é um assunto sério.

Esta via que para muitos pode parecer passadista ou saudosista é, afinal, a simples adopção de uma linguagem que estabelece o seu ponto de partida mais atrás do que é habitual numa espantosa geração do jazz português surgida depois daqueles que primeiro se profissionalizaram – como Carlos Martins, Zé Eduardo, Mário Laginha, Maria João, João Paulo Esteves da Silva ou Bernardo Sassetti (quase todos eles, aliás, já fazem parte do percurso de Toscano). Se hoje é muito mais visível e profícua uma adesão aos desafios levantados pela música improvisada – caminhos nos quais o saxofonista se vai estrear este mês, a 28 e 29 de Novembro, no Bar Irreal, primeiro a solo e depois ao lado de Gabriel Ferrandini, Miguel Mira e Rodrigo Pinheiro (elementos do Motio Trio e do RED Trio), juntando caminhos que raras vezes se cruzam –, Ricardo assume que talvez haja no seu quarteto a missão de “trazer esta estética para o nosso panorama e manter isto vivo”. “E ao mesmo tempo”, fundamental acrescento, “dentro disso fazermos a nossa cena.”

A “cena” de Toscano, Pereira, Tristão e Coelho é especialmente deslumbrante porque soa a ontem e a hoje, não esconde uma intensa ligação com o passado ao mesmo tempo que não se demite de pensar a música para além de qualquer constrangimento temporal. Soa tão antiga, pelo conforto de nos encontrarmos diante de uma combinação de elementos reconhecível e familiar desde os anos 50/60, quanto nova – característica que o músico resume no argumento de que são temas seus “que nunca ninguém ouviu”. Mas não é tão simples quanto isso. Basta ouvir o monumental solo de Toscano no tema de abertura, Almería, para se perceber que por mais que possa haver uma recombinação dos seus heróis naquilo que toca – 23% Coltrane, 15% Miles, 5% Parker e 6% Cannonball ou qualquer outra palermice que totalize 49% – a maioria absoluta daquilo que lhe sai do saxofone alto é pertença apenas dele. Daí que Ricardo Toscano Quarteto se oiça como um disco sem tempo – que, no entanto, vai bem lá atrás buscar uma elegância musical que poucas vezes terá emergido no jazz português.

“Honestamente”, confessa, “não sei se o disco soa velho ou se soa novo, não sei mesmo. Sei que a música que gravámos é uma consequência daquilo que já fizemos até agora e sei que é honesto. E adoro ouvir os sítios onde sei que falho, porque gosto de falhar. Quando falho quer dizer que estou a tentar – e se estou a tentar estou vulnerável a não conseguir. É isso que me dá vontade de arriscar outra vez.”

A justaposição dessa vulnerabilidade e desse perigo, essa dança com as notas frente ao abismo, “isso é o jazz”, acredita Ricardo Toscano. É isso que escutamos, uma vez mais, em Almería, numa demonstração de qualidade tímbrica e assertividade discursiva estonteantes. E é essa relação com os limites que o leva a pegar no saxofone uma e outra vez, a estudar incessantemente e a preparar-se para ser capaz de responder a qualquer situação com que possa confrontar-se em palco. “Estudo coisas muito impressionantes fisicamente para estar preparado se o músico com quem estou a tocar me mandar para ali”, admite, “mas isso é uma consequência dele, não vou tentar chegar àquele sítio sozinho.” E isto porque, apesar de uma técnica prodigiosa, Toscano acredita que virtuoso “é o Wayne Shorter que dá uma nota e consegue passar tudo quanto quer expressar nessa nota”. É também por aí que Ricardo Toscano Quarteto afirma a sua elegância: aquilo que ouvimos são seis temas guiados por uma musicalidade altamente sedutora e envolvente, mas pouco preocupada em deixar alguém boquiaberto com exibicionismos técnicos.

O álbum, com lançamento esta sexta-feira, arranca com uma cadência noir, de andamento nebuloso, uma paisagem que começou a ser pensada a partir da linha de baixo, “meio africana e meio tribal”, descreve Toscano, sobre a qual se vai desenvolvendo uma sonoridade que o músico imagina importada do flamenco – ou não tivesse o tema surgido numa mini-digressão espanhola e sido baptizado com o nome de uma cidade andaluz (Almería). Contrabaixo e bateria vão alimentando um ambiente de transe, enquanto o saxofone alto de Toscano os sobrevoa com uma sonoridade febril, tentando evadir-se de um espaço que nunca chega realmente a abandonar. O modo contemplativo de Song of hope ou a “facadinha com torcida” do desgosto amoroso em Grito mudo fornecem outros dos “assuntos” que Ricardo elege para discutir com o quarteto, retrabalhando-os para que a discussão não redunde sempre nos mesmos argumentos.

Se há qualquer resquício de fado que Toscano admite vir à superfície em Lament, Grito mudo convoca uma outra referência primordial – e bastante menos óbvia – para o saxofonista. Naquele que será, porventura, o seu tema preferido ou, pelo menos, aquele em que reconhece ter a sua personalidade transposta com maior clareza para a música, Toscano identifica “um drama e uma intensidade” que imagina poder ter colhido em Wagner. “Tenho o meu wagnerzinho dentro de mim”, ri-se, para logo em seguida confessar que se sente totalmente implicado na música de Tristão e Isolda. Tanto assim, aliás, que o quarteto gravou uma ária de Wagner para um programa da RTP2 que há-de ser exibido em breve.

Agora, com este magnífico disco de estreia nas ruas, Ricardo Toscano aguarda para perceber o que poderá vir a significar em termos de penetração em mercados exteriores. Mas sempre sem alimentar sonhos demasiado altos. Se as portas de clubes e festivais na Europa se abrirem, essa será seguramente uma motivação extra para “trabalhar e produzir mais, tocar melhor, ir aos concertos e destruir aquilo no melhor sentido possível”. Algures no próximo ano, imagina, poderá planear uma nova viagem até Nova Iorque, a fim de se banhar de novo no espírito do jazz que admira, renovar a inspiração e, quem sabe, subir mais um degrau no seu desenvolvimento pessoal enquanto músico. Mas, por enquanto, não conta embarcar com bilhete apenas de ida. Não se imagina a ter poupanças que pudessem esticar-se por mais de seis meses e, pelos seus cálculos, demoraria pelo menos um ano e meio a estabelecer-se minimamente na competitiva e exigente cena local.

E depois demoraria a encontrar um grupo de músicos com quem a comunicação fosse tão fácil e estimulante quanto o seu quarteto, ao mesmo tempo que, aqui, em Portugal, sabe bem qual é a direcção que quer seguir. Para essa direcção se poder manter límpida, e não se ver enfiada debaixo de camadas mais prioritárias como aquelas que dizem respeito à sobrevivência numa cidade que facilmente suga a energia dos seus habitantes, Ricardo Toscano precisa de tempo. Tempo para conseguir ouvir-se.