Bob Iger, o chefão da Disney, acabou de assumir o que muita gente concorda: houve um erro estratégico na quantidade de filmes Star Wars lançados nos últimos anos. O problema, segundo o executivo, foi “oferecer muita coisa e ir muito rápido”, o que seria a explicação para o filme solo de Han Solo não ter ido tão bem pelo mundo — ou em idioma Star Wars, ter flopado como uma Estrela da Morte em construção. Como resultado disso, a Disney deve dar uma desacelarada no ritmo de novidades e lançamentos da mais popular franquia da história do cinema.

Pode ser que seja verdade. Talvez o excesso de filmes possa representar o início de uma saturação entre o público cativo. Conheço muitos fãs que não se deram ao trabalho de ver Han Solo no cinema. Imagino que a recepção morna ao spin-off tenha raíz na decepção que o oitavo episódio, Os Últimos Jedi, causou nessas pessoas. Eu não tiro a razão deles — há inovações e licenças ali que vão bastante além do que muitos esperam de Star Wars. Eu pessoalmente gosto bastante e o considero um dos melhores da saga, justamente por esses motivos (veja meu review no site-parceiro IGN Brasil).

Aparentemente, há mais fãs por aí que concordam comigo. Esta pesquisa no site oficial de Star Wars coloca o Episódio VIII em terceiro na preferência, atrás apenas do Episódio V e do Episódio III. Coincidência ou não, esses três filmes são os mais emocionantes e sangrentos de cada trilogia. O que me leva a entender que quem ama Star Wars gosta mesmo é do drama. Mas isso não vem ao caso aqui.

O fato é que a declaração do presidente da Disney soa totalmente sincera, um raro mea culpa no mundo sempre infalível de Hollywood. Ela comprova que a corporação sentiu o baque financeiro e vai escolher melhor em quais projetos investir dinheiro. Há também aí uma preocupação genuína com o valor da marca, em não deixar Star Wars perder a aura de grandeza e raridade que sempre ostentou até os anos recentes.

Sim, porque talvez você não se lembre de um tempo muito, muito distante em que Star Wars era algo tão grande quanto raro. A primeira geração de fãs, entre a qual me incluo, foi cativada com apenas três filmes em um espaço de seis anos — e conseguiu permanecer interessada mesmo após mais de uma década e meia sem um capítulo novo. A segunda leva de fãs foi cooptada com a segunda trilogia, de 1999 a 2005, mas além dos seis filmes, já havia um universo expandido bem maior a ser explorado, que incluia videogames, desenhos animados, quadrinhos e livros. Nunca foi tão fácil se tornar um aficionado pela fantasia criada por George Lucas.

Sob o recente comando da Disney, a nova fase de Star Wars entrou em ritmo de velocidade da luz, rendendo um filme por ano desde 2015 e criando terreno para um punhado de outros mais. Hoje, o público que consome a franquia é maior do que jamais foi. São três gerações de fãs que coexistem e acumulam não só experiências diferentes, como também expectativas diversas sobre seu universo ficcional favorito. A tarefa de agradar todo mundo é bem mais complicada. Eu diria que é praticamente impossível que Episódio IX traga um final de saga que agrade a imensa maioria. Mas vamos confiar na visão e bom gosto de  J.J.Abrams.

Refletindo como fã de longa data, eu me posiciono no grupo que recebe de bom grado essa abundância de Star War nas telas. Não me incomodo com inovações exageradas, quebras de paradigma ou com uma história pouco consistente de vez em quando. Já passei muito tempo sem ver um novo Star Wars para reclamar do privilégio de visitar novos cantinhos dessa galáxia ano após ano. Que venham mais filmes Star Wars — inclusive os ruins, até esses eu quero ver.

Mas você, se for um apaixonado por Star Wars, tem todo o direito de discordar. Porque felizmente não existe um jeito correto de ser fã. Cada um consome a cultura pop do jeito que lhe cabe e tem vontade. É perfeitamente aceitável se sentir decepcionado com os rumos que Star Wars está tomando (se é que está mudando mesmo!).Tudo bem não gostar de ver Leia voando pelo espaço, das escolhas polêmicas do velho Luke Skywalker ou de achar o jovem Han Solo um herói bem sem graça. 

E também é perfeitamente aceitável se sentir empolgado a cada novidade anunciada. Torcer para que o filme de Obi-Wan aconteça logo, e o de Boba Fett também. Achar que a história de Han Solo mereceria uma sequência, só para ver aquele vilão reaparecer. Ficar no mínimo curioso pela nova trilogia de filmes que está nas mãos de Rian Johnson, o diretor de Episódio VIII. E se empolgar com antecedência com os futuros desdobramentos da saga envolvendo os criadores de Game of Thrones.

Pablo Miyazawa é colunista semanal do AdoroCinema e consome cultura pop desde que nasceu, há 40 anos, de Star Wars a Atari, de Turma da Mônica a Twin Peaks, de Batman a Pato Donald. Como jornalista, editou produtos de entretenimento como Rolling Stone, IGN, Herói, EGM e Nintendo World.