“Fazer arte dessa lida / É a sorte inventar / É cantar a morte e a vida / É sorrir e é chorar”, resume Ana Costa nos versos do aliciante refrão do baião Nas estradas do Nordeste.

Lançado há 18 anos por Socorro Lira no álbum Cantigas (2001), o baião abre belo disco em tributo a Lira, cantora e compositora nascida em 1974 na cidade paraibana de Brejo da Cruz (PB), no calor do sertão nordestino.

Ainda à espera do merecido reconhecimento popular, Lira vem pavimentando heroico caminho seguido pelas trilhas e brechas do mercado independente que movimenta a música do Brasil.

Gravado sob direção artística de Mariana Baltar, o álbum Entre versos de Socorro Lira – Na Lira da canção cumpre a missão de reiterar a beleza do cancioneiro da artista ao alinhar 13 composições da lavra poética dessa valente nordestina nas vozes cariocas de Ana Costa, Dorina e Lu Oliveira (cantora fluminense residente na cidade do Rio de Janeiro).

Fora da habitual roda do samba, o trio de intérpretes se afina sob a direção musical do violonista Luiz Flavio Alcofra. Deslocado para o solo nordestino, o canto de Ana Costa, em especial, atinge ponto de excelência nesse disco.

A emissão límpida da voz grave de Ana Costa nos registros da cantiga Saga de retirante (2001) e da guarânia Arrebol (2003) acentua a delicadeza poética e melódica do cancioneiro de Lira mais enraizado nas tradições musicais de um Nordeste que arde sob o sol do sertão, ávido de esperança.

A inclemência do sol sertanejo é poetizada na vastidão dos versos do maracatu Corcunda (2008), reavivado no tributo a partir do contraste entre os graves de Ana Costa e o timbre agudo da voz de Lu Oliveira no primeiro dos três duetos deste disco idealizado por Maury Cattermol.

Solista segura, Lu Oliveira dá voz afinada à canção Um sentimento (2007) e à abolerada canção O desejo (2015), músicas menos imponentes no conjunto da obra reapresentada no tributo, além de interpretar Martelo de duas pancadas (2007), tema que dá certo tom brejeiro ao álbum por diluir a dureza com doçura.

Lu Oliveira se encontra com Dorina, no segundo dueto do disco, para suavizar a pisada do maracatu cearense Intersecção (2008) em gravação que faz sobressair o tom nordestino do tributo no chamado do acordeom de Gabriel Geszti.

As cantoras Ana Costa, Dorina e Lu Oliveira se juntam para cantar o ‘Poema didáctico’ no arremate do tributo a Socorro Lira — Foto: Tyno Cruz / Divulgação

Cantora respeitada pelos bambas do samba, Dorina surpreende ao girar a chave do canto para dar o devido tom camerístico à canção Delicado (2013) com o toque do piano do mesmo Gabriel Geszti.

A leveza do canto de Dorina é mantida no Remendo de pano feio (2013), música que ajusta a costura nordestina do disco. O bordado fino da canção Gema (Socorro Lira e Roberto Adami Tranjan, 2015) alinhava o terceiro solo de Dorina no tributo, preparando o clima para o derradeiro dueto do álbum.

Trata-se do encontro que junta as vozes de Dorina e Ana Costa na cantiga Da coisa linda (2013) em gravação que culmina com citação da canção Você (Heckel Tavares e Nair Mesquita, 1928), mais conhecida com o título Nas penas do tiê.

No arremate deste singelo tratado sobre a delicadeza da vida sertaneja, as três cantoras se juntam, se revezando nos versos do Poema didáctico (Socorro Lira sobre versos de Mia Couto, 2014) em gravação sublinhada pelo toque do violino de Emmanuele Baldini.

Entre os versos poéticos de Socorro Lira, as cantoras Ana Costa, Dorina e Lu Oliveira dão belas vozes às ardências, desejos e esperanças de um sertão que, mesmo situado geograficamente no Nordeste, simboliza o mundo neste tributo que, fiel à obra de Socorro Lira, faz arte da lida. (Cotação: * * * *)