A monarquia absolutista que rege a lógica do samba com títulos imperiais – a madrinha elevada a rainha (Beth Carvalho), o rei (Zeca Pagodinho), a grande dama (Dona Ivone Lara) – reservou a Reinaldo o honraria de príncipe. Um “príncipe do pagode” foi o mais apropriado, naquele início dos anos 1980, quando um locutor da Rádio Manchete quis ser carinhoso com a figura de sorriso mais largo que o próprio rosto de Reinaldo Zacarias. Havia a necessidade de reconhecer o garoto carioca da comunidade de Cavalcanti, zona norte do Rio, por tudo o que acontecia a seu redor, mas nada garantia que a insígnia pegaria para sempre.

Reinaldo foi um dos mais surpreendentes sambistas pós-Cacique de Ramos, com uma trajetória contrária a tudo o que o samba ensinava desde o dia em que Vinicius de Moraes apontou a Johnny Alf a morada do ritmo em São Paulo: o cemitério da Consolação. Afinal, o que poderia ser mais contraditório? Um homem que nasce no terreno fértil do subúrbio carioca, com frequência no próprio Cacique de Ramos e trânsito entre o que viria a ser o Fundo de Quintal, parte para fazer sua carreira em São Paulo. E, uma vez na cidade, nunca seria o primeiro a ser lembrado para os programas de rádio e TV que ainda tinham as revoluções nas mãos. Reinaldo fez sua carreira assim mesmo, tornando-se um fenômeno da mídia mais legítima do gênero: as rodas de samba.

“Eu nunca vou entender como é que você pode fazer tanto sucesso, tio”, dizia a ele Arlindinho, filho de Arlindo Cruz, que via o que acontecia quando Reinaldo chegava a um samba. E foi assim por quatro décadas. Reinaldo cantou logo na chegada, em 1986, aquele que deixou como seu samba maior, Retrato Cantado de um Amor, e voltou à tona com a gravação de Agora Viu Que me Perdeu e Chora, de Arlindo Cruz, Franco e Jorge David. Vá hoje a uma roda e elas estarão lá. Aos 65 anos, Reinaldo lutava havia quatro contra um câncer no pulmão, que ele dizia desaparecer sempre que subia a um palco. Na madrugada desta segunda, 18, ele se foi.

Facebook Comments