Foi uma das raras vezes em que as apostas coincidiram com a escolha da Academia Sueca. A polonesa Olga Tokarczuk, uma das mais bem cotadas, levou o Nobel de Literatura de 2018 —anunciado nesta quinta-feira (10), a autora venceu junto com Peter Handke.

Tokarczuk, que nasceu em 1962, lançou seu primeiro livro em 1989. O romance com o qual ela venceu o prestigioso Man Booker Prize em 2018, “Bieguni”, que virou “Flights” na tradução de Jennifer Croft para a Riverhead, foi publicado originalmente em 2007.

“Os Vagantes”, a versão brasileira assinada por Tomasz Barcinski, saiu em 2014 pelo Grupo Editorial Zit, no selo Tinta Negra, mas está fora de catálogo. A editora Todavia irá republicá-lo com nova tradução e novo título: “Viagens”. A casa também lança em novembro “Sobre os Ossos dos Mortos”.

A popularidade do Man Booker contribuiu para que “Viagens” e tornasse o livro mais conhecido da autora. Peço desculpas ao leitor da Folha pelas citações indiretas que uso aqui, todas traduções da versão em inglês.

A narradora acredita que “uma coisa em movimento sempre vai ser melhor que uma coisa em repouso”, que a “mudança vai ser sempre mais nobre que a permanência” e que “aquilo que é estático vai degenerar e declinar”, enquanto que “o que está em movimento pode durar pela eternidade”.

A passagem ajuda a definir o livro —na medida em que o esquivo “Viagens” pode ser definido. Trata-se de um romance que se recusa a se deixar capturar, precisamente porque incorpora o movimento contínuo.

Essa narradora se define como alguém que nasceu sem o suposto gene que permite criar raízes. “Eu não sei como germinar”, escreve. Como não tem essa “capacidade vegetal”, ela não pode extrair nutrientes do solo. “Minha energia vem do movimento.”

Ela acha que escrever um livro pode ser uma tarefa árdua, um mau jeito de ocupar o tempo, uma vez que se trata de uma atividade que pressupõe confinamento e solidão. Para conseguir narrar, portanto, ela manifestamente rejeita as duas coisas. É no deslocamento, que além de tudo é uma espécie de fuga de um mal incerto, e no contato com outros rostos e histórias que o livro se forma.

A narradora nunca se detém muito tempo no mesmo assunto ou na mesma cena. Não há, como ela observa, um encadeamento de causa e efeito. O livro é composto de trechos de tamanho e estilo variados. Alguns contam uma história real. Alguns vêm do presente, outros do passado.

Figuras do século 16 se misturam a comentários sobre a Wikipédia. Ao falar desta última, a narradora diz estar mais interessada em uma reunião de “tudo aquilo que nós não sabemos”: coisas que não podem ser capturadas e catalogadas, que não podem ser acessadas por ferramentas de busca.

Tudo é fugaz e sem contornos definidos. Exemplos não faltam. Como a própria Olga Tokarczuk, a narradora é formada em psicologia. Contrariando o que aprendeu na faculdade, ela não acha que tudo pode ser descrito e explicado. Ela não crê em um mundo “inerte e morto, governado por leis relativamente simples” que devem apenas ser descobertas e divulgadas. Sua tendência, diz, é a de questionar argumentos irrefutáveis. Para ela, quem necessita de uma base sólida deveria estudar fisiologia ou teologia, já que a psique é —como tudo nesse universo de Tokarczuk— um objeto de estudo muito “tênue”.

A narradora diz não que saberia como escutar um paciente sem se intrometer e contar algo dela mesma. Sem querer, ela diz, aqui, algo sobre o processo de narrar —a maneira de colocar algo de si ao observar os outros, nessa ingrata tarefa de inventariar e descrever.

Não à toa ela não gosta de museus: prefere os gabinetes de curiosidades, os Wunderkammer, “as coisas que existem nas sombras da consciência”. É o que a faz viajar: seguir os “erros” e “enganos” da criação.

A força do livro reside nessa reações que não podem ser previstas, na rejeição da velha pressuposição de que somos seres constantes. Tudo que se desvia da norma, “que é pequeno demais ou grande demais, superdesenvolvido ou incompleto”, tem espaço nesse gabinete de curiosidades.

Tokarczuk elabora tudo isso com humor e delicadeza, sem pretensão de chegar a algum lugar definido. Em uma passagem, a narradora escreve que os destinos sempre são “fantasmagóricos e incertos”. E que, “quanto mais perto nós chegamos deles, mais enigmáticos se tornam”.

Assim é “Viagens”. Quanto mais nos aproximamos do final, menos compreendemos o livro e a própria narradora. E, no entanto, maior nos parece a beleza de um conjunto que não é bem um conjunto.

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