“Sem música, a vida seria um erro”, escreveu o filósofo e compositor Friedrich Nietzsche. O ensaísta Jacques de Bourbon-Busset afirmou: “Tudo é música. Uma pintura, uma paisagem, um livro, uma viagem vale apenas se a sua música puder ser ouvida”. Essas frases foram lembradas pelo excelente cirurgião cardíaco-pediátrico e músico francês Pascal Vouhé na sua palestra do Congresso da Associação Europeia de Cirurgia, em 2011, na Suíça.

A finalidade da “ciência” cirúrgica é aparentemente simples: restaurar a anatomia ou a fisiologia de quem se submete a um procedimento cirúrgico, utilizando-se das melhores informações — evidências científicas. Mas não se pode esquecer a dimensão humanista da medicina — empatia e compaixão —, muito semelhante à da música que nos sensibiliza.

Mas, afinal, ouvir música na sala de operações é útil ou prejudicial às cirurgias? Há estudos que demonstram que o ruído nas salas de cirurgia pode exceder cem decibéis, mais alto do que numa rua movimentada. Para alguns, a música poderia ser vista como um acréscimo ao ruído, porém muitos juram que a melodia escolhida consensualmente pela equipe acalma e melhora o seu desempenho.

Leopold Auenbrugger, que descreveu a percussão do tórax, e René Laënnec, inventor do estetoscópio, eram médicos brilhantes, além de compositores e músicos excelentes, o que lhes auxiliou a criarem invenções tão revolucionárias à época a ponto de gerarem intensos debates para serem aceitas.

Numa semana particularmente difícil, cuidando de doentes graves e participando de um enorme debate sobre telemedicina, relaxei ouvindo a “Abertura 1812”, de Tchaikovsky. Essa sinfonia foi composta para celebrar os 70 anos da vitória russa sobre Napoleão, considerado até então imbatível, e o primeiro aniversário da coroação do Tzar Alexandre III. Na sua parte final, o magistral compositor russo alternou acordes de “La Marseillaise”, o hino da França, com canções do folclore russo, entremeadas nos acordes finais com tiros de canhão, dessa forma subjugando o hino francês e festejando a vitória russa.

Com uma ardente discussão sobre telemedicina acontecendo neste momento, convido os debatedores assistirem “O lago dos cisnes”, reconhecida como uma das mais famosos peças do balé mundial e também composto por Tchaikovsky. Sua história e música poderão ajudar a encontrar, sem feitiços, um caminho mais adequado e harmônico, no qual a informática ajude a medicina e não a torne mais um negócio de informática.

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