Assisti a um filme da diretora tcheca Věra Chytilová pela primeira vez há uns 10 anos, ao preparar um curso de teoria da montagem para jovens estudantes de cinema. Para meu deleite, este filme era o “As Pequenas Margaridas”, de 1966, considerado o carro-chefe da Nouvelle Vague Tcheca. Foi desconcertante: ali estava uma obra-prima profundamente livre, ousada e inovadora. Não parava de me perguntar porque havia demorado tanto tempo para encontrar a mais radical, experimental e abertamente feminista dentre todos os cineastas das novas ondas europeias.

“As Pequenas Margaridas” continua sendo o filme pelo qual Chytilová é mais conhecida. A sua narrativa gira em torno das aventuras picarescas de duas lindas garotas que decidem “agir mal” porque o mundo está mal. Elas conduzem uma série de “travessuras” com o único propósito de consumir e destruir o que estiver ao seu redor. Magras, vibrantes e sempre elegantes, as duas jovens lembram os manequins de moda e agem como marionetes mecânicas. Ao usar a metáfora da boneca que desperta a paixão dos homens, Chytilová expõe uma concepção patriarcal do ideal de feminilidade. Elas poderiam ser facilmente enganadas por platitudes românticas, mas, na verdade, estas garotas são vorazes e famintas e investem em homens ricos e mais velhos, que pagam caro por uma refeição extravagante na expectativa de receberem favores sexuais. Só que estas bonecas não querem sexo: elas querem comida, muita comida! E anarquicamente enganam, debocham e escapam dos homens após terem saciado sua fome. Habilmente criam diversas inversões na ordem patriarcal e misógina.

O filme é um banquete visual psicodélico que culmina com a fragmentação literal de suas bonecas. Em uma das minhas sequências favoritas, elas usam tesouras para cortar suas próprias imagens na tela, como bonecas de papel.

Neste momento, as tesouras das personagens tornam-se as tesouras do editor. Como convencionalmente a marionete é sempre manipulada por um ator oculto, o filme realiza também uma imagem bastante potente para o imaginário feminista: a imagem da marionete que se solta de suas cordas e ganha vida própria.
Celia Freitas, videoartista e editora audiovisual Foto: Reprodução

Após a invasão da Tchecoslováquia pela União Soviética, em 1968, a liberdade artística e cultural promovida pela Primavera de Praga passou a ser duramente reprimida. Na sua insolência feminina gritante, o filme “As Pequenas Margaridas” foi banido pelo governo, e Chytilová ficou impedida de fazer filmes durante vários anos. Ainda assim, foi uma das poucas cineastas que preferiu não abandonar o país e continuou a atuar em uma indústria dominada por homens sob um opressivo regime político-cultural. Em 1969, o principal expoente da Nouvelle Vague Francesa, Jean Luc Godard, chegou a acusar Chytilová de realizar “o mesmo cinema que os inimigos do povo”. Chytilová sustentava que a oposição ao seu trabalho estava enraizada na misoginia: “O verdadeiro problema está no fato de eu ser uma mulher cineasta”.

Apesar das suas potentes sátiras políticas e sociais ao patriarcado, as implicações feministas nos seus filmes são muito mais presentes na sua inventividade estética. Věra soube como ninguém representar a diferença feminina de uma maneira única, vívida e multidimensional. Talvez por isso resistisse firmemente a ser rotulada como feminista: “Eu era ousada o suficiente para querer liberdade absoluta – mesmo se isso fosse um erro”. Até a sua morte, em 2014, Chytilová criou uma profícua cinematografia com filmes libertários, vanguardistas, femininos, filosóficos, ultrajantes e subversivos.

A cultura, a religião e a política seguem produzindo seus coronéis. Mulheres potentes, transgressoras e livres são temidas pelo patriarcado por terem o poder de destruí-lo. Talvez aí estejam as pistas que explicam a pouca visibilidade dos filmes de Věra Chytilová até hoje.

Os filmes de Chytilová podem ser conferidos pelos cariocas na mostra Věra Chytilová: a grande dama do cinema tcheco, em cartaz no CCBB Rio de Janeiro até 6 de maio.

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