O produtor Luís Urbano, através de sua empresa em Lisboa, de nome mais que instigante “O Som e a Fúria” além de agitador cultural e workaholic, percebe o cinema como imprescindível fator social e político. Mesmo depois dos inúmeros prémios em festivais de categoria A (Berlim, Cannes e Locarno, só para citar alguns), ainda se comporta como operário incansável pela qualidade do cinema português, além de incentivar realizadoras como Salomé Lamas e projetos futuros com Ira Sachs e a brasileira Laís Bodanzky.

Luís conversou, em exclusivo, com o Cinema Sétima Arte sobre o desenvolvimento do cinema de autor português dos últimos anos, sobre a política cultural do governo passado, sobre a situação política do Brasil, revelou-se otimista e anunciou os seus próximos projetos.

LU: Claro que o discurso de Salaviza contribuiu bastante, assim como o texto que eu e o Miguel (Gomes) escrevemos e que foi publicado no jornal “Público”, no qual dizíamos que iríamos a Berlim apresentar “Tabu” e que não trazíamos, na comitiva, ninguém do governo português, na época em transição. (o governo de Passos Coelho).

Nota da redação: em 2015, as esquerdas chegaram ao poder através da coligação de esquerda inédita encabeçada pelo Partido Socialista (PS), liderado por António Costa, que conta também com o Bloco de Esquerda (BE), o Partido Comunista de Portugal (PCP) e o Partido Ecologista Os Verdes (PEV).

Nos primeiros anos do novo governo, não sentimos mudança na atitude. Não se queria tomar posicionamento entre um tipo de cinema e outro, também estavam sem entender que todo o processo do cinema português e a sua presença ao nível classe A não era questão para, apenas, celebrar, mas para também aproveitar e dar mais força ainda no seu fomento através da criação de novos instrumentos. Agora, com Graça Fonseca, a nova Ministra da Cultura, estamos a perceber alguns sinais de que as coisas estão a melhorar.

LU: Precisamos de criar dinâmicas. Ou seja, ver uma lógica de estratégia de médio prazo e focarmo-nos na atratividade para angariar investimentos estrangeiros para Portugal muito para além da área do turismo. Temos de conciliar as duas coisas.

FL: Há dois anos fez uma grande mobilização, formulou uma carta assinada por muitos realizadores nacionais e internacionais para protestar contra a constelação dos grémios de júris que decidem sobre o fomento de projetos. (Ler carta aqui.) Está satisfeito com a atual situação do júri?

LU: Ainda não estamos totalmente satisfeitos. Essa situação tem de ser revista no próprio decreto da Lei do Cinema. Há uma emenda a ser apresentada ao Parlamento Português para resolver, finalmente, essa situação dos jurados. Eu diria que isto está bem encaminhado.

FL: Quando estive como membro do júri do recente festival “Caminhos” em Coimbra, um colega do júri mencionou que a nova geração de realizadores portugueses pega na câmara e começa a filmar. Será assim tão simples? A quantas anda o cinema de autor português?

LU: Está a andar com força. Há quem faça de forma mais simples, há quem faça de forma mais estruturada, como o caso das minhas produções (O Som e a Fúria), que são filmes mais pesados, envolvem estruturas e logísticas maiores. Quase ao mesmo tempo, produzi quatro filmes, duas coproduções.

FL: Tem uma relação muito forte com o cinema brasileiro. No filme de Helvécio Marins (Querência), que está a ser exibido na mostra “Fórum” da Berlinale, aparece nos créditos o seu nome e o da Som e a Fúria. Qual foi exatamente a sua contribuição?

LU: Eu e o Helvécio temos uma relação muito antiga e uma relação muito boa com a produtora dele. A minha contribuição nesse projeto foi o meu know-how, a minha perspetiva de como estava o trabalho de montagem. Convidei-o para montar o filme em Lisboa, no meu escritório, e sugeri o Telmo Churro como montador. Foi só isso. Não sou produtor associado nem produtor. Ajudei num momento de transição do próprio Helvécio de ir do Brasil para Portugal e passar mais tempo lá.

FL: Uma das primeiras medidas do novo governo de extrema-direita do Brasil foi extinguir o Ministério da Cultura de um país de proporção continental. Vê perigo agora que os brasileiros estão a ver a classe artística como inimiga? Haverá risco de haver uma quebra na tradicional e intensa parceria entre Brasil e Portugal?

LU: Será uma pena se isso acontecer. A produção cinematográfica brasileira está a passar por um momento de fulgor que acho que nunca aconteceu antes. Em termos de quantidade, em termos de novos autores, temas e diversidade. A ANCINE é um órgão de fomento que não depende tanto do Ministério da Cultura. Espero que continue com a força que tem tido nos últimos anos. Não seria “apenas” o Brasil que perderia caso houvesse uma estratégia de querer acabar com a produção audiovisual no país. O mundo inteiro perderia com isso! O Brasil está nos grandes festivais, é uma presença constante e não é uma presença em que são sempre os mesmos. É muito diversificada.

Projetos de Luís Urbano em pós-produção:“Pedro”, de Lais Bodanzky“Frankie”, de Ira Sachs“Patrick”, de Gonçalo Wallington//www.augenschein-filmproduktion.de/de/filme/detail/patrick.html“Technical Loss”, de João Nicolau