“Dilson de Souza, artisticamente Biluca, se não é o descobridor do inusitado instrumento, é, pelo menos o primeiro solista profissional de folha de ficus. Era um garoto de nove anos quando percebeu a possibilidade desse curioso processo de tocar música. Tinha o hábito de andar sempre com alguma coisa na boca, mastigando. Geralmente era um pedaço de palha, mas, um dia, meteu entre os lábios uma folha de laranjeira e, casualmente, emitiu uma nota musical. O som agradável despertou-lhe a curiosidade e tentou reproduzi-lo, obtendo outros. Para que a aprendizagem se transformasse em técnica, levou anos com os lábios, a língua e a boca ardidos, defeito doloroso que apresentava a folha de laranjeira.

A descoberta das vantagens da folha de ficus também foi casual. Biluca se encontrava já no Rio (Êle é de Barra do Piraí) quando lhe deu aquela vontade de tocar. Na rua só havia ficus e foi do que ele se utilizou, verificando que a nova espécie de folha era mais maleável e não queimava a coca. Imediatamente decidiu mudar a “marca” do instrumento.

Dilson, que trabalhara em farmácia e era desenhista de uma firma construtora, decidiu tentar o rádio e fazer uma experiÊncia com seu invulgar instrumento. No dia 7 de dezembro de 1952 apresentou-se no “Calouros em Desfile” de Ary Barroso, solando o choro de Jacob “Vale Tudo”. Assombrou o público e levou o primeiro prÊmio. Mais: Ary contratou-o para tomar parte na revista “Quem inventou a mulata?”. encenada na “Boite Night and Day. Em seguida, foi para o Casablanca , contratado por Carlos Machado para o “show” “Esta vida é um carnaval”.

Biluca descobriu sua nova profissão e não perdeu tempo: iniciou uma excursão que se prolongou por um ano, aproximadamente, apresentando-se em emissoras, teatros, cinemas, espetáculos em clubes, percorrendo todo o Brasil exceto o Espírito Santo.

De volta conseguiu seu primeiro contrato para gravar, a convite da RCA Victor. Acompanhado de conjunto melódico, pôe em disco “Granada”, de Agustin LAra e “Carinhoso”, de Pixinguinha, gravação feita exatamente no deia 9 de setembro de 1954. Inicialmente recebido como curiosidade, o disco foi se impondo por suas qualidades artísticas e prossegue ainda com boa vendagem. Quando Biluca for inteiramente descoberto pelos discófilos, venderá muito mais.

O segundo disco, realizado em meados de maio, para lançamento no mês corrente, reúne “Vale Tudo”, choro de Jacob, e a melodia de Dimitri Tionkin “Um fFo de Esperança” (The High and The Might), também gravado com acompanhamento de conjunto melódico. Pretende gravar a seguir duas melodias suas, feitas de parceria com Glice Pereira Lima, que se intitulam “O Segredo de Amar” um fox e “Descrente”, bolero.

Biluca revelou-nos algumas particularidades curiosas sobre seu “instrumento”: as folhas de ficus usadas para execução, em condições de tocar, são conservadas em um estojo com água e não permanecem frescas e duras, (condição essencial para obter um som perfeito) por mais de dez horas. O máximo que já conseguiu tocar numa só folha foram oito melodias, quatro em cada extremidade. Ao contrário do que se imagina, Biluca toca de preferência com a folha aberta sobre a língua, posição que permite melhor execução, embora lhe seja possível também solar com a folha enrolada ou dobrada em duas. Para tocar, não tem necessidade das mãos, usa somente a boca. A “caixa” de seu instrumento é uma latinha pouco maior que a folha.

Dilson tem estudos primários de música e toca violão e cavaquinho. Fez duas descobertas recentes: a primeira é que pode obter da folha de ficus sons semelhantes à gaita de boca e ao piston com surdina e pretende usá-los em suas próximas gravações. A segunda é que também pode ser cantor profissional, fato que veio a descobrir em Manaus por ocasião do último carnaval, quando se apresentou na Rádio Difusora do Amazonas, cantando em dupla com Glice Pereira Lima, passista de frevo, cantora e compositora. (Ela e Biluca já têm duas composições em parceria) que muito o ajudou nessa temporada.”
(Transcrição ipsis literis da Revista do Disco, páginas 26 e 27, ano de 1955).

Biluca (folha de ficus) – CARINHOSO – Pixinguinha.
Disco RCA Victor 80-1380-B.
Gravação de 9 de setembro de 1954 e lançamento em novembro do mesmo ano.
Arquivo Nirez.
Coisas que o tempo levou.
luciano hortencio.