No ar desde a última terça-feira (14) na Globo e disponível no Globoplay, a minissérie Chacrinha retrata capítulos importantes da trajetória de Abelardo Barbosa (1917-1988). Um dos maiores comunicadores da história da televisão brasileira, o apresentador irreverente na frente das câmeras tinha um temperamento difícil nos bastidores.

Em uma das brigas corriqueiras entre ele e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então mandachuva da programação da emissora, o animador quebrou equipamentos do estúdio, pediu demissão e abriu espaço para a criação do Fantástico, ainda no começo dos anos 1970.

A minissérie em quatro capítulos, que já foi exibida como filme nos cinemas em 2018, revela essa relação difícil de Chacrinha com Boni e também lembra do caso do apresentador com a cantora Clara Nunes (1942-1983).

Chacrinha e Boni eram grandes amigos fora da televisão, até que se estranharam profissionalmente. Contratado pela Globo em 1967, o Velho Guerreiro virou líder nacional de audiência em 1969, quando seu programa começou a ir ao ar ao vivo. O principal concorrente de Abelardo Barbosa era Flávio Cavalcanti (1923-1986), com seu programa na Tupi. Os dois travavam uma guerra pela audiência.

Disputavam até convidados, geralmente de gosto duvidoso e ligados ao mundo cão. No início de 1972, Boni queria melhorar o nível do programa e proibiu a exploração da desgraça alheia. Chacrinha ficou irritado e disse que o diretor queria se meter em sua atração. A partir daí, o relacionamento azedou.

No filme e na minissérie de quatro capítulos exibida pela Globo, o motivo apontado para o pedido de demissão de Chacrinha em 1972 foi Boni ter tirado o programa do ar após o apresentador roubar de Flávio Cavalcanti a convidada Cacilda de Assis, uma médium que incorpou um espírito ao vivo. Chacrinha, de fato, a colocou no ar a contragosto do chefão da Globo, mas isso aconteceu em 1971.

O verdadeiro motivo para o rompimento é que o Velho Guerreiro passou a atrasar, propositalmente, o término de seus programas, tanto às quartas quanto aos domingos, prejudicando a pontual grade da emissora.

Em 3 de dezembro de 1972, Chacrinha fazia o Buzina, normalmente, e já havia estourado o horário. Deveria terminar às 22h, eram 22h04 e ainda faltavam três atrações. Boni pediu que a atração encerrasse às 22h10. Jorge Barbosa, filho do apresentador e produtor do programa, respondeu: “Chacrinha mandou dizer que não tem previsão para terminar.

O diretor ficou extremamente irritado e acabou o programa ali mesmo. “Tirei imediatamente do ar. O Chacrinha quebrou tudo no estúdio e subiu, possesso, sem camisa, até a minha sala, gritando: ‘Vou embora, vou embora, não apareço mais aqui'”, contou Boni em seu livro.

O público não entendeu porque o programa foi interrompido abruptamente e choveram ligações para a Globo. Na quarta-feira seguinte, 6 de dezembro, Agildo Ribeiro (1932-2018) comandou a Discoteca do Chacrinha provisoriamente, enquanto se resolvia a pendenga. Já o programa do domingo, 10 de dezembro, não foi ao ar.

A imprensa fez grande estardalhaço daquilo que ficou conhecido como o “Caso Chacrinha”. O Jornal do Brasil, de 7 de dezembro, trouxe reportagem com as duas versões do episódio. O animador disse que pediu rescisão do contrato porque a atração mudou várias vezes de horário. Já a Globo alegou que o tirou do ar “porque o animador apresentou em seu programa um afeminado”.

Chacrinha foi rápido e estreou na TV Tupi alguns dias depois, enquanto a Globo entrou com um processo na Justiça por quebra de contrato. A emissora de Roberto Marinho improvisou algumas atrações para tapar os buracos na grade, como o musical Globo de Ouro e o programa Só o Amor Constrói, no estilo Arquivo Confidencial.

Chacrinha ficou alguns anos na Tupi e foi para a Band no final dos anos 1970, ficando lá até 1982, quando voltou para a Globo, a convite do próprio Boni, depois de um jantar no qual fizeram as pazes.

A briga judicial não deu em nada, terminando pouco tempo depois. “Disse ao Chacrinha que adoraria tê-lo aos sábados à tarde, com duas horas de duração. Pensei que ele não aceitaria. Mas ele topou entusiasmado e nos abraçamos chorando. Nunca mais tivemos qualquer problema. Fico muito emocionado ao lembrar do grande amigo e da genialidade dele”, falou também Boni no Livro do Boni.

O Cassino do Chacrinha estreou em 6 de março de 1982 e ficou no ar até 2 de julho de 1988. Dois dias antes, Chacrinha morreu, vítima de câncer no pulmão, e a emissora exibiu o último programa gravado para homenageá-lo.

Longe dos holofotes, um dos casos destacados pela produção é o namoro que o apresentador teve com Clara Nunes. “O romance fica no ar, é apresentado de forma sutil, porque até hoje é uma especulação. Acho que o que fica é uma relação de admiração e carinho muito grande entre os dois”, disse Laila Garin, intérprete da cantora, em entrevista ao jornal Extra em 2018, quando o filme foi lançado.

O relacionamento entre o comunicador e a artista nunca foi tratado como certo porque Chacrinha foi casado durante 41 anos com Florinda Barbosa, com quem teve três filhos.

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