Quando Victor Varela, de 44 anos, e María Pechi, de 32, deixaram a cidade uruguaia de Florida, em setembro de 2017, eles tinham um plano bem traçado na cabeça: conhecer todos os países da América do Sul, sem dinheiro, sem cartão de crédito e dependendo apenas das próprias pernas e de caronas como meio de transporte.

“Quando começamos a percorrer o Brasil para voltar ao Uruguai, percebemos que cada Estado brasileiro é um país, são muito diferentes entre si. Então, não poderíamos dizer que conhecíamos a América do Sul inteira se não conhecêssemos todos os estados brasileiros”, explica Victor, destacando costumes, culinária e clima próprios de cada região.

O casal se organizou, planejou uma segunda rota e voltou ao país, em setembro de 2019, dessa vez para conhecer os 6 estados que faltaram na primeira passagem: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Tocantins, Acre e Amazonas.

No fim de dezembro de 2019, Victor e María concluíram o roteiro e totalizaram mais de 60 mil quilômetros percorridos no continente. Guardaram num caderno assinaturas de membros de consulados, igrejas e prefeituras, coletadas para comprovar sua passagem pelas cidades.

Também colecionaram 27 bonés dos Corpos de Bombeiros estaduais do Brasil, já que era nos quartéis que eles normalmente conseguiam abrigo para passar a noite. Tudo devidamente registrado nas páginas que a dupla mantém no Instagram e no Facebook.

Além do abrigo noturno, alimentação, bebidas e banhos também dependiam da boa vontade dos outros, segundo os viajantes. “Acho que só assim pude ver o mundo verdadeiramente como ele é. E como as pessoas são boas”, conta María.

Eram duas as mensagens que Victor e María queriam passar ao dar a volta na América do Sul. A primeira era divulgar, a quem encontrassem no caminho, os atrativos turísticos de Florida, cidade onde vivem e onde foi proclamada a independência do Uruguai.

A segunda é que “há experiências muito maiores do que o dinheiro pode comprar”. Tosadores de pets na cidade de menos de 40 mil habitantes, eles contam ter deixado o país sem nenhum peso uruguaio no bolso. Também dizem que não carregavam cartão de crédito e que o plano era contar com outras pessoas para se alimentar, achar um lugar para dormir — ou montar a barraca que carregavam — e se locomover.

Nesse esquema, passaram pelo Paraguai, pela Bolívia, foram até o extremo-sul do continente, na cidade de Ushuaia, na Argentina, e seguiram por Chile, Peru, Equador e Colômbia, onde chegaram ao outro extremo, em Punta Gallinas. Para alcançar o farol que marca o ponto mais ao norte, contam que chegaram a passar dois dias sem comer.

Entraram no Brasil inicialmente por Roraima, mas só como passagem para as Guianas, consideradas a “decepção” da região, por ter clima, pessoas e arquitetura que “não combinam com o resto do continente”.

De volta ao Brasil depois de entrar pela cidade de Oiapoque, no Amapá, percorreram todos os estados litorâneos, além de Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal, já que uma das metas iniciais do casal era conhecer a capital de cada país.

Para percorrer toda essa distância, uma estratégia: bandeiras uruguaias à vista nas mochilas de mais de 30 kg que carregavam, para convencer caminhoneiros e motoristas que eram viajantes sem más intenções.

“Ser branco ajuda e acho também que em todos os países os estrangeiros têm mais facilidade de conseguir caronas, já que as pessoas sabem que você é um viajante querendo conhecer o país”, explica Victor, que desde os 14 anos percorre o Uruguai dessa forma.

Para o casal, o Brasil não foi o país mais fácil nem o mais difícil para a locomoção. O país onde mais sofreram foi a Colômbia, pois não tiveram êxito nas estradas. Eles tiveram que andar dezenas de quilômetros até postos de gasolina, nos quais, na base da conversa, tentavam convencer motoristas a ajudá-los.

No Uruguai, no Chile e na Argentina, encontraram mais facilidade. “Sabemos que alguns países sofrem mais com a insegurança, tem a questão de guerrilhas e é normal as pessoas ficarem receosas. Mas todo mundo que encontramos eram boas pessoas e não tivemos nenhum problema”, lembra Victor.

O casal calcula que andava, em média, 10 quilômetros por dia, até conseguir caronas ou acessar as estradas mais distantes dos centros urbanos. Em dias ruins, os dois chegavam a andar 30 quilômetros.

O caminhoneiro Cleusivan Cruz foi um dos que cruzou o caminho de Victor e María. Ele estava num posto de combustível em Castanhal, no Pará, quando conheceu o casal. Topou ajudá-los e os levou para dormir e jantar em sua casa, em Capanema, também no Pará.

Apesar de toda a experiência e das boas surpresas, os dois pensaram “incansáveis vezes” em desistir do plano e voltar a Florida. “Eu era uma pessoa da cidade, acostumada com vida confortável. Foi muito difícil, mas me descobri uma pessoa melhor, que enfrenta qualquer coisa, valorizando mais as pessoas, a cama, o teto. A gente passou fome, calor, frio”, lembra María.

“Com a viagem, mudou 100% o que eu achava. As pessoas são muito acolhedoras, alegres e receptivas, como em nenhum outro país. Gostei tanto que, quando tiver filhos e formar família, quero ir ao Brasil para que eles sejam brasileiros”, resume María.

O casal chegou perto da meia-noite na cidade e pediu abrigo em uma igreja. Com a resposta negativa do padre, armaram a barraca numa praça, onde um jovem se aproximou. “Ele tentou levar uma mochila quando estávamos distraídos. Mas percebi a presença dele e perguntei o que ele queria, disse que a gente não tinha dinheiro, nada. E aí ele foi embora”, descreve Victor.

Na primeira rota pelo Brasil, o casal percorreu literalmente “do Oiapoque ao Chuí”, expressão que ilustra os extremos Norte e Sul do país, pelo litoral — com um pequeno desvio por Minas Gerais e Goiás para chegarem ao Distrito Federal.

Na segunda passagem, foram do Uruguai até Curitiba, onde passaram algumas semanas para dar entrada em papéis que garantissem um visto de residência no Brasil. De lá, seguiram de caminhão, carro e barcos para os estados da região Amazônica. Ao todo, percorreram mais de 23 mil quilômetros no Brasil.

Para María, a diferença entre o clima quente do Norte, Nordeste e Centro Oeste e o clima frio do Sul se reflete também nas pessoas. “O clima faz as pessoas. Onde faz calor as pessoas são mais alegres receptivas, abertas, te entregam o que têm. Onde faz mais frio, são mais distantes, fechadas.”

As praias de Angra dos Reis (RJ) e Ilhabela (SP) estão entre favoritas de Victor. Os dois concordam, entretanto, que o litoral nordestino é o local para onde gostariam de voltar — e até criar uma família.

Além dos tours sul-americano e brasileiro, o casal também já percorreu os 19 departamentos uruguaios de bicicleta. E, no fim de fevereiro, partem para mais uma aventura: em duas bicicletas, vão fazer o “caminho dos Jesuítas na América do Sul”. Sairão de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, e visitarão locais históricos no Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai.

“Os sonhos das pessoas têm que ser maiores do que o medo. O dinheiro prende as pessoas. Tem que sair ao mundo para ver o que é o mundo verdadeiramente. O mundo é muito mais lindo do que imaginamos”, diz Maria.

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