“Morto não fala” tem em sua gênese a linguagem jornalística. Baseado no conto do repórter policial Marco de Castro, ele se inspirou em tantas histórias de assassinatos que cobriu para criar a história de Stênio (Daniel de Oliveira) um plantonista do necrotério de uma grande cidade que tem um dom. Ele se comunica com os mortos, geralmente criminosos ou vítimas de crimes. Numa dessas confidências, segredos de sua própria vida são revelados e sua família corre perigo.

Em seu primeiro longa-metragem o diretor Dennison Ramalho fez o roteiro com Cláudia Jouvin usando as principais ferramentas do filme de terror, aproveitando o charme do jornalismo policial que a trama desenha. Os valores éticos são colocados em cena explicitando a crise civilizatória, a partir de histórias de cadáveres que se assemelham ao dia-a-dia do noticiário. Como um “A vida como ela é”, de Nelson Rodrigues, em versão mortos-vivos.

Dennison, que foi diretor-assistente e corroteirista de “Encarnação do Demônio”, de José Mojica Marins, o mestre do terror brasileiro Zé do Caixão, conta com uma equipe muito competente de maquiadores e de efeitos visuais para dar vida aos mortos e tornar isso uma fantasia eficiente para o público embarcar na trama, mesmo com um estranhamento inicial dos movimentos da boca dos cadáveres.

Daniel de Oliveira em mais um trabalho impecável no cinema dá a Stenio toda credibilidade que o personagem precisa numa trama fantástica, contribuindo para a imersão da plateia no suspense. Fabíula Nascimento como Odete, Bianca Comparato como Lara e Marco Ricca, no papel de Jaime, compõe esse belo quarteto de atores que eleva o patamar da produção com suas interpretações ricas em camadas dramáticas.