Tente contar a história do teatro brasileiro sem mencionar o nome da atriz Fernanda Montenegro, que completa 90 anos no próximo dia 16. É impossível, não? São décadas e décadas de trabalho! Além de ser considerada a rainha dos palcos, ela também tem o nome gravado na teledramaturgia, no cinema e ganhou projeção durante as rádios-novelas, entre as décadas de 1940 e 1950. 

Que trajetória! E ainda tem mais, calma: ela faz parte ainda da história do cinema e televisão. Por isso, escrever qualquer palavra sobre essa atriz pode ser uma tarefa um tanto quanto inglória ao jornalista que estiver incumbido de tal tarefa. Fernanda possui em sua carreira momentos importantes demais, e o risco de deixá-los fora é grande. 

Veja bem: a atriz atuou no longa-metragem “Eles Não Usam Black-Tie”, de 1981, cujo texto foi adaptado pelo cineasta Leon Hirszman (1937-1987) da peça de teatro do dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006)? Isso sem falar em sua participação no filme “O Que É Isso Companheiro”, em 1997, obra considerada uma das responsáveis pela retomada do cinema brasileiro na década de 1990.

Essa história riquíssima poderá ser conferida pelo público a partir de hoje, às 22h, no Canal Brasil, com exibição de filmes em que a atriz atuou e brilhou, e passaram a ser patrimônios da cultura brasileira. Fernanda será homenageada no especial “Fernanda Montenegro – 90 anos”, que terá abertura com o longa-metragem “Central do Brasil”, de Walter Salles, lançado em 1998. 

Para efeito de contextualização, o filme colocou a atriz na disputa pelo Oscar, mas ela não levou o prêmio para a casa. De toda maneira, faturou o Urso de Prata em Berlim – um dos eventos mais importantes de cinema do mundo – e o ouro do mesmo festival. Todos, é óbvio, pela atuação sensacional no longa de Walter Salles, hoje um clássico da produção cinematográfica brasileira. 

Em Cannes, no entanto, quem foi laureada acabou sendo a filha, Fernanda Torres, pela fita “Eu Sei Que Vou Te Amar”, de Arnaldo Jabor, lançada em 1986. Oito longas e um curta foram suficiente para nos mostrar o imenso talento de Fernanda Montenegro nas telonas. Talento, aliás, que parece ser de sangue nesta família. 

Natural de uma família portuguesa, Fernanda Montenegro, na verdade, nasceu Arlette Pinheiro Esteves da Silva, em 1929. Veio do subúrbio do Rio de Janeiro e, desde a infância, tinha como passatempo ir ao cinema, onde criou seu ‘refúgio imaginário’. 

Embora tenha tido grandes momentos na história do cinema brasileiro, Fernanda Montenegro também ficou eternizada na teledramaturgia. Fez personagens como Charlotte de Alcântara Pereira Barreto, em “Guerra dos Sexos”, no ano de 1983. 

Além disso, atuou em “Sassaricando”, de 1988, e “O Dono do Mundo”, exibida em 1991. Na década passada, caiu no gosto do público ao interpretar a vilã Beatriz Falcão, mais conhecida como ‘Bia Falcão’, no folhetim “Belíssima”, que foi ao ar em 2005. 

A homenagem realizada pelo Canal Brasil, que irá ao ar sempre às terças e quartas-feiras de outubro, acontece em um momento em que a dama do cinema brasileiro sofreu agressão verbal, sendo chamada de ‘sórdida’ por uma figura que faz parte do governo federal. 

Mesmo com todo esse currículo e uma história invejável no mundo das artes, ela optou por permanecer em silêncio. A classe artística, contudo, e até mesmo alguns integrantes da política, saíram em sua defesa. No último domingo, durante lançamento do livro de memórias “Prólogo, Ato e Epílogo” no Theatro Municipal, em São Paulo, disse apenas que nenhum sistema vai calar os artistas.

No evento, Fernanda sequer citou o diretor da Fundo Nacional das Artes (Funarte), Roberto Alvim, que a ofendeu em postagem nas redes sociais feitas há duas semanas. Em reação a uma imagem em que a atriz posou para a revista “Quatro Cinco Um” rodeada de livros queimados, Alvim afirmou que tinha “desprezo” pela rainha das artes e que ela era “sórdida”. 

Considerado pela crítica um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, “Central do Brasil” conta a história de Dora (Fernanda Montenegro), uma professora profundamente ressentida que ganha a vida escrevendo cartas para pessoas analfabetas. Fernanda foi indicada ao Oscar pela sua atuação. 

Dirigido por Jayme Monjardim, Esse longa-metragem foi adaptado do romance do escritor Érico Veríssimo. A obra mostra o cerco ao soldado e aborda ainda a formação da identidade da cultura gaúcha. Fernanda interpreta Bibiana. 

O filme, que foi adaptado de algumas crônicas de Nelson Rodrigues, conta a história de três adultérios. Dirigido por Claudio Torres, Arthur Fontes e José Henrique Fonseca, em 1998, o longa mostra um jovem tímido que teve a primeira relação sexual com uma fogosa mulher casada. 

Clássico do cinema nacional. Baseado na obra homônima de Ariano Suassuna, foi dirigido por Guel Arraes, retrata as aventuras de João Grilo e Chicó, que perpassam pela igreja e pelos cangaceiros. Fernanda interpreta a compadecida. 

Corroteirista de “Central do Brasil”, Bernstein escreve e dirige a história de Regina, aposentada que vive em Copacabana e passa seu tempo espionando os vizinhos através do binóculo. O filme possui alguns resquícios de Alfred Hitchcock. 

Originalmente escritor por Nelson Rodrigues, essa longa tem uma pegada tem autêntica. Além disso, o diretor Amir Haddad e os atores se reúnem em torno de uma mesa para discutir as escolhas do dramaturgo em relação a sua obra. Fernanda, como de costume, é decisiva e fala sobre o Nelson que ela conheceu. 

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