ENTRETENIMENTO Sábado, 05 de Outubro de 2019, 10h:45 | – A | + A

Filho único de pais nordestinos que vierem tentar a vida no Rio, o carioca Zé Ricardo, de 49 anos, cresceu no quartinho de um prédio na Delfim Moreira, no Leblon, onde o pai trabalhava como porteiro. Brincava com os filhos dos patrões, mas na hora de voltar para casa, tinha que usar a entrada de serviço.

Em seu primeiro dia de aula no colégio Bahiense, a professora anunciou que era bolsista. Do bullying passou a garoto popular graças às rodinhas de violão no recreio. Aos 13 anos, se dividia entre a escola, o trabalho de boy num banco e os shows na noite. Sua vida mudou aos 17 anos. Depois de uma vaquinha de colegas, Zé Ricardo foi comprar seu primeiro violão elétrico e deu de cara com… Moraes Moreira. Passou a tocar com o filho dele, Davi, e aí, não parou mais.

“De menino pobre, virei alguém que hoje pode escolher o que faz”, emociona-se Zé, diretor musical do Rio2C e autor de trilhas de filmes brasileiros. Hoje, ele assume a guitarra para comandar a jam session que tem virado um animado bailão pós-shows no Sunset do Rock in Rio .

Nesta conversa, Zé assume que já fez escolhas erradas no line-up do Palco Sunset (“Toda vez que tem competição entre artistas não é bom, não curto quando um quer aparecer mais que o outro”), destaca os próximos shows (“King Crimson nunca veio ao Brasil e vai mostrar um formato com três baterias, e Kevinho fará homenagem a MC Sapão”) e conta histórias curiosas como a vez em que Ben Harper ficou preso no trânsito e quase não chegou para o show.

A gente morava no mesmo prédio que o Jorge Paulo Lemann, que ia jogar tênis e deixava o blazer, cheio de dinheiro no bolso, com o meu pai. Não tínhamos grana para comprar o que eu queria e, um dia, eu disse: “Olha o dinheiro aí”. Meu pai falou sério: “Mas não é nosso!”. Tinha conduta íntegra, me criou assim. Minha mãe falava pouco e não era de abraçar. Nunca me chamou de Zé, era só Ricardo.

Um amigo me convidou para tocar no bar Radical, no Leme. Quando acabou, o Paulinho Assis Brasil, que era o dono, falou: “Zé, o dinheiro”. E eu: “Ninguém me falou que tinha que pagar para tocar, seu Paulinho”. Era o meu cachê ( risos ). Mas se eu chegasse com aquele dinheiro em casa, ia apanhar. Era o valor do salário do meu pai! No outro dia, ele levou o dinheiro lá em casa.

Para mim, o lado humano. Gosto de gente. Puxei meu pai, que é amigo de todo mundo. Me importo se as pessoas comeram, se dormiram. Gosto de juntá-las, e a recompensa são relações profundas. Faço o trabalho com tanto peito aberto que meu pai de santo disse que preciso usar minhas guias ( de Xangô e Iemanjá ) para me proteger.

Minha equipe não trabalha para mim, mas pela minha ideia. Tenho privilégio de fazer um palco artístico dentro de um festival mainstream. E meu recorte de curadoria é social. Quer saber meu posicionamento político? Olha line-up do Sunset.

Todo ano eu acho que fiz. Toda vez que o show tem competição entre artistas não é bom. Não curto quando um quer aparecer mais que o outro. A música tem que ser a essência.

Isso acontecia porque produtores americanos não confiavam nos sul-americanos. Aí, o Paulo Fellin ( ex-vice presidente artístico do RIR ) fez um show do Paul MCcartney e, quando foi ler o manual da mesa de som, tinha escrito “uma barbie negra modelo tal”. Era para ter certeza que leriam toda a lista. Agora, esse negócio de “só quero m&m amarelo” é difícil ter hoje. Quem toca Sunset se comporta diferente de quem toca no Palco Mundo.

O King Crimson nunca veio ao Brasil e vai mostrar um formato com três baterias. O “Pará Pop” terá cinco gerações da música daquele estado. Será a primeira vez do funk no Sunset. Fernanda Abreu, Ludmilla, Buchecha… E Kevinho fazendo homenagem ao MC Sapão.

Em 2015, Fernanda Abreu estava afônica e tivemos que reensaiar o show no camarim para outros músicos cobrirem a voz dela. Neste mesmo ano, Al Jarreau pediu que eu o levasse ao palco porque não queria entrar de cadeira de rodas. Fomos abraçados e saí aos prantos.

Já tive headliner não autorizando a transmissão ao vivo em cima da hora. Banquei, morrendo de medo, que se não voltasse atrás, não teria show. Ele cedeu. Em 2013, Ben Harper entrava no palco às 19h, mas às 18h15 ainda estava preso na Niemeyer. Mandei uma escolta e, 19h01, ele entrou no palco.

Emocionante foi Eramos Carlos ovacionado e chorando depois de seu show ( em 2015 ). Fez as pazes com parte de sua história já que, em 1985, tocou em dia de metal e foi vaiado. A volta de Baby e Pepeu, em 2015, foi incrível. Eu e Pedro Baby ficamos dois anos falando com um e com outro para acontecer.

Fui a nove favelas, conversei com pensadores, diretores, músicos. Não estamos fazendo assistencialismo ou projeto social. O que está ali é exatamente a arte feita na favela. Queremos mostrar que lá não tem só tiroteio. A gente só discute favela desse ângulo. Tem que bater na violência, mas também romper com esse ciclo vicioso.

Ouvi dos moradores: “A gente está aqui porque o nome do palco é favela, a gente é favelado. Todo mudo quer falar de favela na Zona Sul, mas ninguém vem aqui”. Ou a gente discute favela ou a nossa sociedade não vai para frente.

O Nós do Morro tem 30 anos de resistência, atores de lá fizeram um puta sucesso e agora não tinham dinheiro para pagar a conta de luz. Que política pública é essa? Se a gente usar a favela de bode expiatório só para merda, estamos matando a possibilidade de crescimento.

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