Nos últimos 10 anos, o mundo da moda passou por grandes transformações. Vivenciamos uma década de inclusão, de uma nova consciência sustentável, além do surgimento das mídias sociais, como o Instagram. De repente, celebridades davam dicas de moda e falavam diretamente com o público consumidor. Assistimos o surgimento do fenômeno Kardashian-West, o declínio da Victoria’s Secret e usufruímos dos avanços tecnológicos para ganharmos mais voz. Tudo isso inspirou um novo pensamento fashion regado de collabs e novas formas de design. Em um período em que a busca por diversidade e pela responsabilidade social foram maiores do que a necessidade de comprar, o cliente investiu em peças cada vez mais exclusivas, que prezam pelo conforto e ultrapassam o conceito de gênero.

O Millennial Pink é a principal tendência da última década. Muito mais um statement do que uma cor em si, o tom transcende o conceito de que o rosa é só para garotas. Nesse contexto, incorpora muitas das questões de identidade de gênero e se torna a cor da atualidade conversando diretamente com a fluidez que a sociedade buscava.

Apostar no pigmento virou moda. Afinal, significava estar aberto ao novo e ciente das mudanças culturais e relevantes. A cor era revolucionária: mais andrógena do que o rosa anterior, foi abraçada tanto por estilistas como fotógrafos e designers de interiores. Não era um tom de rosa especifico. Carregando tons de bege e cinza, combinava com o verde da natureza, era nostálgica e, para completar, funcionava muito bem nos filtros do Instagram.

Na história da moda, as cores sempre tiveram um lugar importante. Retratam todo o espírito de uma época: questões de classe, a política, hábitos de consumo além de formas de autoexpressão. Pensando nisso, pode-se dizer que o sucesso do millennial pink não foi por acaso. Ele surgiu do público, das ruas e, principalmente, do poder de comunicação de uma tonalidade.

Ela surgiu em 2015 como uma metamorfose do Rose Quartz – nomeado pela Pantone como a cor do ano, mas um girly demais para a identidade andrógena, latente entre os millennials.  O nome surgiu em 2016, com um artigo do The Cut declarando aquele rosa que variava entre pêssego e o salmão como a cor do milênio.

Quando o assunto é a moda na última década, o retorno do estilo noventista se destaca. Gargantilhas, fofoletes (scrunchies), óculos pequenos, vestidos no estilo lingerie, o grunge, a logomania e dad sneakers, além das polêmicas pochetes, estão entre as principais trends que marcam a nova geração. Personalidades da gen Z — Kendal Jenner, Hailey Baldwin, Caroline Daur e as irmãs Hadid — ditaram hits das temporadas: peças vintage e outros clássicos dos anos 1990, como calças baggy, mom jeans e conjuntinhos de moletom.

A nostalgia fashion não é novidade. A cada 20, 30 anos, o velho se renova. Talvez porque os estilistas da atualidade tenham crescido há duas ou três décadas e, provavelmente se inspiram na própria infância – seja no closet dos pais ou em personalidades que se destacaram na época. No entanto, considerando que os últimos 10 anos foram de transformação, a influência da geração X sobre a atualidade, demonstra ainda mais relevância. Os anos 1990 inspiraram não apenas os millennials como também a geração Z e conversa diretamente com algumas conquistas fashion como a diversidade, a sustentabilidade e inclusive a febre do sportwear.

Além disso, grifes como Prada, Calvin Klein e Burberry apostaram em bucket hats. Donatella surpreendeu a todos quando convocou top models como Naomi Campbell, Cindy Crawford e Carla Bruni para a passarela da Versace. Outras grifes, como a Supreme e a Champion, ressurgiram e caíram no gosto dos novos compradores.

De todas os resgates noventistas, no entanto, nenhum teve tanto sucesso quanto a logomania. Clássicas estampas da Fendi, Louis Vuitton, Gucci, Versace e Burberry estampavam bolsas, vestidos, calças, camisetas e outros acessórios como pochetes, tênis e meias.

É possível deduzir que o apego aos anos 1990 tenha a ver com fato de que as mudanças dos últimos 30 anos foram tão grandes que permanecemos presos aquela época em que tudo era menor e até mesmo mais simples. Estamos na transição: entre o antes, quando não existia tecnologia, e o agora – mergulhados nos avanços digitais.

Vestir-se bem, sentir-se bem e, ainda assim, passar despercebido é a ideia da subcultura fashion denominada normcore. Foi inspirada tanto por Jerry Seinfeld, personagem sucesso nos anos 1990, que se vestia diariamente com calça jeans, camiseta e tênis no estilo dad sneakers, quanto no uniforme do criador da Apple Steve Jobs e sua camisa gola rolê by Issey Miyake, calça da Levi’s e clássico tênis cinza da New Balance.

Como conceito, foi definido pelo mood despretensioso que busca uma aparência o mais perto possível do considerado “normal”. Surgiu como uma contra cultura, por volta de 2014.

O termo foi desenvolvido pela K-Hole, agência de trend forecasting, em 2013. Com sede em Nova York, a empresa criada por Greg Fong, Sean Monahan, Emily Segal, Chris Sherron e Dena Yago, lançou o artigo Youth Mode: A Report on Freedom.

A pesquisa descreve o normcore como uma atitude fashion que surge em reação aos excessos da indústria e o lançamento desenfreado de novas tendências. O intuito é reforçar que há estilo nos looks comuns do dia a dia.

O normore inclui vestir peças como calças jeans, camiseta branca, moletom e tênis. A paleta de cores inclui cinza, bege, preto e branco. Foi incorporado por aquelas pessoas que não querem se distinguir das outras com base na forma de se vestir.

A casualização está na autenticidade em fugir das imposições que surgem nas passarelas ou em plataformas de autopromoção, como o Instagram. Ser normcore significa rejeitar tendências se vestindo de forma completamente mundana.

É sobre a escolha de não ser alternativo e tão pouco procurar diferenças para afirmar a individualidade. A ideia por trás do normcore consiste em ser livre o suficiente para não precisar ser diferente.

Mas não se engane. Nada disso significa que os normcore se vistam mal.  O style é simples em aparência, mas não menos chique ou elegante. A diferença? Os adeptos se vestem conscientemente, com um toque de ironia, apostando em roupas de qualidade, mas ao mesmo tempo funcionais e comuns.

O pós-modernismo é a era que reagiu aos excessos. A sobreposição, a individualidade e a desconstrução ganharam força. Enquanto a modernidade pode ser definida em termos de produção, o pós fala do consumo e a capacidade de adaptação. A desestrutura também gerou uma afinidade com a moda unissex. 

O estilo pode ser interpretado como resultado do fast fashion e o que seria feito com as sobras da indústria têxtil. Com o excesso de produção de roupas, mentes criativas reinventaram as formas apostando na descontração, reconstrução e até mesmo no maximalismo. A moda ganhou um olhar ainda mais artístico e do pós-modernismo surgiram duas expressões:  bricolagem e pastiche.

Em um mundo de exagero, a ideia da bricolagem é usar o que se tem para formar algo novo, ou customizar. Não existe um molde ou uma definição única para a mesma coisa. Também conhecido como Do It Yoursef (Faça Você Mesmo, em tradução livre), o conceito mexe com a criatividade de cada um.

Pastiche, por outro lado, fala da adaptabilidade. Significa nada mais do que fazer referência à algo já existente: Yves Saint Laurent com uma coleção com estampas do artista Modrian, ou a Dolce & Gabbana quando lançou peças com imagens de quadros renascentistas. Recentemente, a Off-White se inspirou em Leonardo da Vinci, em uma collab com o Louvre.

A postmodernity também desafia estruturas previamente estabelecidas. Comme des Garçons, Alexander McQueen, Yohji Yamamoto, e Vivienne Westwood estão entre os nomes que representam a estética.

A categoria em si não é novidade. Os esportes influenciam a forma de nos vestirmos há décadas e é provável que o athleisure seja a principal tendência do século. Atualmente, a indústria de peças de grife com pegada sportswear chega a valer U$ 44 bilhões, nos Estados Unidos, de acordo com o NPD Group.

Até meados da ultima década, houve um declínio generalizado quanto às formalidades dentro do universo fashion. Desde que os tênis, casacos de moletom e calças legging dominaram o estilo das ruas, das passarelas e também o closet das celebridades, a pegada esportiva vem redefinindo a moda e revolucionando o mercado de luxo.

Em menos de 10 anos, o athleisure ganhou vida própria, estendeu-se a todos os gêneros e, hoje, praticamente não existe distinção entre roupas de academia e o estilo do do dia a dia. Existem opções de preços variados.

Vendidos a preços inacessíveis e em quantidades limitadas, alguns produtos corriqueiros se revelaram os novos “itens desejo”. Vimos surgir os hypebeast (cultura da ostentação) e assistimos a moda abrir espaço para a tendência mais confortável de todos os tempos. Mas por quê?

A influência do esporte na moda norte-americana existe desde o final do século 19. Ainda em 1892, a U.S. Rubber Company, fábrica de borracha nos Estados Unidos, começou a produzir tênis com sola de borracha. O publico alvo eram os atletas. Paralelamente, universidades investiam cada vez mais nos esportes e nos atletas. Consequentemente, alguns alunos assistiam às aulas vestindo trajes esportivos.

Outro fato curioso tem a ver com a história dos shorts masculinos. Inicialmente considerado uma vestimenta relacionada exclusivamente ao esporte, em 1930 um grupo de alunos da universidade Dartmouth College organizou um protesto pelos shorts e instigou outros homens na luta pelo prazer de deixar as pernas livres.

Suéteres também surgiram da vestimenta universitária e atlética do final do século 19. Para as mulheres, não foi diferente. Entre espartilhos e outros acessórios que dificultaram a história fashion feminina. Com o surgimento da bicicleta, nos anos 1890,  houve a necessidade de um item substitutos das saias. A principio fizeram réplicas dos uniformes norte-americanos de hóquei feminino: saias mais curtas e blusas abotoadas.

Vale destacar: a camisa polo surgiu como uniforme dos jogadores de tênis. Lacoste era profissional do esporte e lançou camisas de manga curta que pudessem desabotoar no pescoço. Foi um necessidade identificada por ele e acabou lançando moda. Era apelidado de crocodilo nas quadras e por isso o jacaré é o símbolo da marca. Mais tarde, Ralph Lauren reformulou a ideia e fez o logotipo do jogador de polo para a marca homônima.

O surgimento do Instagram, em 2010, está diretamente relacionado a este fenômeno. Desde que estilistas, personalidades da música e do esporte puderam mostrar o dia a dia deles nas redes sociais, passaram a inspirar diretamente os consumidores. Atletas do basquete como LeBron James e Carmelo Anthony, por exemplo, exibiam modelos de tênis exclusivos e casacos de grife em seus perfis elevando cada vez mais o status destes itens.

Paralelamente, calças leggings viraram um fenômeno que abriu espaço para algo ainda mais inusitado: a bermuda de ciclista. Usadas com blazers oversized e sutiãs à mostra, tornou-se item indispensável para influencers como Kim Kardashian, Hailey Bieber, Emily Ratajkowski e Bella Hadid. Mas foi princesa Diana a precursora do estilo, ainda nos anos 1990.

Não demorou para que grandes grifes percebecem a busca do público por produções confortáveis, mas não menos exclusivas e luxuosas. Aproveitando a onda, estilistas como Virgil Abloh, na Louis Vuitton, e Demna Gvasalia, da Balenciaga, investiram pesado na ideia. Enquanto calças legging e bermudas eram destaque nas passarelas de grifes renomadas, os dois estilistas elevaram peças de moletom e tênis esportivos a um novo status.

Novas marcas e parcerias se lançaram em cima deste novo conceito, incluindo Ivy Park, de Beyoncé; Off-White by Abloh; Vetements, de Gvasalia; e Puma x Fenty, por Rihanna. Outros designers investiram em parcerias de luxo esportivo como Prada x Adidas e Dior x Nike.

Kanye West e Kim Kardashian, por exemplo, estão entres os maiores responsáveis pela explosão da tendência na última década. Mergulharam de cabeça na moda lounge wear. O casal carregou a tendência em uma pegada minimalista. O styling fez tanto sucesso que resultou no lançamento da linha Skims por Kim. Já Kanye investiu na Yeezy.

Enquanto a logomania, o athleisure e a casualidade lideraram a década em termos de estilo, a própria indústria da moda sofreu profundas mudanças culturais nos últimos 10 anos. A inclusão, a diversidade e a sustentabilidade estão aí para provar e só tendem a crescer.

Além disso, o desejo pela novidade abriu inúmeras portas que incluem a pavimentação do caminho para a moda não-binária, que promete ser a maior tendência da próxima década. Vamos acompanhar!

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