Desde que o consumo consciente se tornou a principal pauta do mundo da moda, repetir roupas e usar produções vintage são práticas recorrentes entre as celebridades. Com essa movimentação, showrooms especializados em acervos noventistas entraram na mira de grandes nomes da moda, como Kim e Kourtney Kardashian, Gigi Hadid e Jennifer Lopez. No entanto, não são apenas os brechós de luxo que se beneficiam com isso. Estilistas populares nos anos 1980 e 1990, como Jean Paul Gaultier, hoje assistem a suas antigas criações ressurgirem como tendência, graças à popularização do comércio de produtos usados.

A trajetória de Jean Paul Gaultier nas passarelas pode ter chegado ao fim, mas os dias de glória do estilista francês estão longe de acabar. Depois de apresentar um show com a retrospectiva de sua carreira na temporada de primavera/verão 2020 da alta-costura, era de se esperar que seus visuais mais icônicos voltassem às ruas. Porém, é uma estampa deixada de fora da apresentação que está fazendo a cabeça das estrelas.

A padronagem em questão, vista pela primeira vez na coleção de outono/inverno 1995 do designer, foi revisitada por ele recentemente, em um compilado divulgado no ano passado, mas são as peças originais que têm conquistado espaço no guarda-roupas de nomes como Kim Kardashian e Charli XCX.

Um vestido de malha lançado nos anos 1990 pode ser visto em diversas postagens no Instagram de Kim, enquanto Charli eternizou a ilustração de Gaultier no clipe da música Spicy, onde um conjunto de cropped com calça endossa a estética noventista do vídeo.

A rapper Cardi B elegeu a estampa para uma das premières do filme As Golpistas, e a atriz Vanessa Hudgens privilegiou o mesmo padrão ostentado por Kardashian. No Brit Awards 2020, que aconteceu em 18 de fevereiro, a cantora Jorja Smith também embarcou na tendência, mas agora nas reinterpretações mais vívidas, apresentadas no ano passado.

Embora creditemos o sucesso dos desenhos a Jean Paul, é importante mencionar que o designer se inspirou nas obras do artista Victor Vasarely para compor suas impressões. Um dos expoentes da OP arte, o francês nascido em 1907 é conhecido por pinturas e esculturas marcadas por ilusões de ótica e profundidade.

Em um momento no qual as curvas corporais são cada vez mais cultuadas, o sucesso de uma padronagem que acentua as formas faz bastante sentido. Outro jeito de interpretar a difusão da tendência é o anseio que os fashionistas têm demonstrado pelo futuro. Embora datados, os prints de Gaultier parecem tão avant-garde quanto eram há 25 anos.

E, por falar em avant-garde, está aí uma coisa que a indústria têxtil parece ter esquecido: de olhar para frente. Trouxeram de volta os anos 1980, a década de 1990 e agora assistimos ao retorno dos anos 1970 e, até mesmo, da Belle Époque.

Virgil Abloh, com sua reinterpretação do streetwear, até poderia ser considerado inventivo, como Jean Paul Gaultier um dia foi. Porém, as amarras comerciais inseridas nos alicerces da moda moderna impedem qualquer diretor criativo de romper com o presente. Nisso, caminhamos a meio passo, torcendo para que os estilistas voltem a enfrentar o desconhecido.

Bacharel em psicologia pela Universidade Georgetown, em Washington D.C. (EUA). É a colunista de moda do Metrópoles e acompanha a movimentação na indústria fashion nacional e internacional. Além da curadoria de Ilca, o espaço tem a colaboração dos repórteres Rebeca Ligabue, Hebert Madeira, Danillo Costa e Sabrina Pessoa. Após passar por rigoroso processo de pesquisa, apuração e troca de ideias, as matérias são publicadas diariamente às 5h30, às 12h e às 15:30h. Às terças, quintas e aos domingos, o primeiro texto postado na coluna é uma reportagem especial.

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