Se Danilo tivesse um estilo de vida como o de seu intérprete, Chay Suede, Thelma (Adriana Esteves), certamente, teria um enfarte. Imagina ver o filho tão superprotegido pilotando uma moto, praticando boxe e com o corpo cheio de tatuagens! O ator sorri e, balançando a cabeça, concorda que a personagem de “Amor de mãe” cortaria tais ideias do rapaz logo pela raiz.

— Isso seria impensável para Thelma. Já eu ando de moto desde os 15 anos. Tinha uma mobilete para ir à escola. Não gosto muito de carro nem dirijo direito. Comprei um grande para caber as coisas da neném (sua filha Maria, com pouco mais de um mês). Cheguei de moto ao ensaio de fotos (este que ilustra a reportagem), por isso estava com capacete, é o meu mesmo. Treino boxe já tem um tempinho e adoro, é um esporte completo. Desde pequeno, assistia com meu pai (Roobertchay) a lutas pela televisão. E tatuagem são 13 ao todo. Fiz a primeira com 18 anos e fui fazendo, fazendo… — conta o ator, de 27 anos.

— Eu ia comprar pão sozinho desde os 7 anos, atravessava o bairro a pé, comprava e voltava. Meu irmão, com 8, pegava ônibus para a escola, atravessava Vitória, uma cidade que não é de interior. Minha mãe sempre confiou muito na criação que deu para gente. Ela nunca me prendeu, sempre me motivou a fazer as coisas que eu queria fazer, a ser o que queria ser… Nunca me protegeu demais. A gente sempre foi independente e nunca deixou de amá-la e respeitá-la profundamente.

— Nunca aceitou que a gente desse uma resposta atravessada, jamais falei um “que saco!”. Ela era muito jovem, tinha 19 anos quando eu nasci, mas era muito sábia e consciente de sua função como mãe. Não consigo conceber uma criança respondendo à mãe. Nem eu nem meus irmãos fizemos isso — garante ele, que nunca ficou de castigo: — Levava umas coças mesmo (risos). Eram umas cocinhas de leve, de chinelo, sandália que voava de vez em quando, tapa na bunda… Meus pais não aplicavam castigo, porque a gente era bonzinho. A briga era a seguinte: ficava implicando com meu irmão. Quando ele me batia, eu revidava. Como eu era o mais velho, não podia ter batido nele. Aí os dois apanhavam. Mas não tinha castigo… Porque a gente não fazia muita coisa errada, e éramos muito sinceros, não mentíamos de jeito algum.

— Fui muito amado. Tem um amigo que fala: “Quem foi muito amado não tem bad trip, porque sabe que sempre tem para onde ir, mesmo numa situação de ansiedade extrema”. Eu recebi toda a base de amor e talvez um pouco mais do que a necessária para aprender a viver e me relacionar. A minha criação foi uma delícia, as minhas memórias de infância são todas de beijos, agarros… Sempre ficamos grudados fisicamente. Mesmo adolescente, com 15, 16 anos, andava de mãos dadas com meu pai no shopping. A gente sempre disse muito “eu te amo”.

— Meu pai se casou de novo e teve três filhos. Minha mãe também teve mais uma filha. Mas hoje é uma família só, gigante, que se ama loucamente. A minha irmã, filha da minha mãe, também chama meus irmãos por parte de pai de irmãos. Na festa de 50 anos dele, minha mãe estava pregando balão na parede para fazer surpresa. É amor puro e simples de família, mais clichê impossível — orgulha-se o ator, que acha fundamental não ser sozinho: — Os filhos únicos que me perdoem, mas irmão é essencial, é a melhor coisa que existe. Os meus… Eu sinto como se fossem eu, meu coração, meu sangue, meu tudo. Irmão faz toda diferença.

— Ela projeta uma criança frágil presa numa casa pegando fogo. E está sempre tentado salvar. Isso faz com que não perceba que é simplesmente contar, que ele vai lidar com a doença da mãe e ajudá-la. O momento em que poderia ficar abalado e se sentir sozinho, entrar em pânico, já passou. Essa situação não a deixa enxergar a realidade dele hoje. Por isso ela não se abre, não é questão de protegê-lo demais, é uma distopia da realidade.

— A grande coisa que Camila fez foi enxergá-lo. Prestou atenção nele, no que sentia, em suas qualidades. E também viu o que ele precisava melhorar. Assim, ele pôde se ver também e perceber: “É, de repente, sou um cara legal. Posso fazer uma namorada feliz, me casar, conquistar alguma coisa sem medo, sem a ajuda ou o empecilho da minha mãe” — analisa o ator, que é só elogios a Adriana Esteves, que foi sua amante em “Segundo sol”: — É muito bom estar com ela de novo, agora, em outro patamar. A gente aproveitou o carinho, o afeto, a intimidade, a liberdade e a amizade que construímos na outra novela para Danilo e Thelma. Sem falar que ela é um gênio, uma das melhores atrizes do Brasil.

— As pessoas me acham muito diferente do personagem por conta da coisa básica da aparência, dos óculos, das roupas. E todo mundo me pede coxinha (risos). Por onde eu passo, falam que ficam passando vontade com a coxinha do Danilo.

— Em Vitória, tem uma coxinha na Praia do Canto que é um clássico. Até hoje, quando vou lá, paro e como. Às vezes, era programa de domingo, comer coxinha, tomar refrigerante e comprar revistinha “Recreio” na banca. Quando me mudei para São Paulo, fiquei fã da coxinha do Veloso, que é um negócio de outro mundo. Me pegava três, quatro vezes na semana comendo. Amo!

Ao mesmo tempo em que se considera bom de garfo, Chay não se faz de rogado sobre seus dotes culinários. Sua moqueca de camarão com peixe e a de banana da terra são seus carros-chefe. Sem ingredientes contadinhos, o ator conta que tem muita pimenta e “quilos” de coentro. E credita o gosto para cozinhar a sua mulher, Laura Neiva, de 26 anos, com quem está casado há um ano, após seis de namoro. Os olhos brilham ao falar dela, por quem se apaixonou de forma poética.

— A primeira vez em que vi Laurinha foi na tela do cinema, no filme “E, aí comeu?”. Eu era novo, nunca tinha visto aquele rosto e fiquei louco, apaixonado, com a sensação de estar vendo uma estrela. Ela, por muito tempo, foi uma coisa um pouco distante. Até que nos conhecemos, ficamos amigos e, quando começamos a ficar, eu, muito emocionado, fazia música em hora que não era para fazer. Laura, então, não estava entendendo muito, pensava: “Que cara tenso, estranho… Conheci agora e ele fazendo música para mim?” (risos) — diverte-se.

— Ao conhecê-la, pensei: “Se ela quiser casar, eu caso agora, se quiser ter filho, tenho agora, faço qualquer coisa, é só ela falar”. Esse sentimento aumentou muito porque ela me ensinou tantas coisas… A ser um homem muito melhor do que tinha sido até então, a ser um parceiro mais bacana, a cozinhar. Tinha um paladar infantil, gostava de comer hambúrguer, arroz, feijão, farofa, batata frita, massa… Laurinha abriu um universo de comidas. Parte da família dela é árabe, elas cozinham muito bem, e hoje eu como absolutamente tudo, só não como amendoim — pondera.

— Sempre fui louco para ser pai. Queria ter tido filho com Laura no nosso primeiro mês juntos, mas ela me travou. Quando a gente resolveu se casar, ela queria festa. Já eu imaginava uma coisa pequena. Se tivesse seguido minha ideia, iria me arrepender, porque festa de casamento é a coisa mais legal que existe, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Então, disse a ela que faríamos do jeito dela, mas teria que casar sem o DIU. Laurinha disse que já estava pensando nisso. Dois meses depois, ela engravidou — conta com o maior sorrisão.

Curiosamente, o artista estava prestes a ver a filha nascer, quando gravou as cenas do aborto de Camila. O ator não esconde que ficou mexido, apesar de, diferentemente de Danilo, ter se preparado para a situação, caso ocorresse.

— Minha mãe perdeu um neném antes de mim, perdeu outro depois do meu irmão e antes da minha irmã. A minha madrasta perdeu dois entre os três que ela teve. Convivi com abortos espontâneos também de uma tia, de primas… Todos nos primeiros três meses. Claro que a gente nunca quer que aconteça, mas eu me preparei, existia na minha cabeça essa possibilidade. Quando fiz todas essas cenas do aborto, Maria ainda não tinha nascido. Isso me impactou, talvez tenha tido um peso a mais porque a chegada dela estava próxima — analisa.

Com um carreira em franca ascensão, Chay, que não almejava ser ator, ainda acha absurdo ser capaz de dar conta de tantas missões. Mas seu pai nunca duvidou, a ponto de fazer uma profecia quando o filho estava em dúvida quanto a se inscrever para “Ídolos”, reality da Record, em 2010.

— “Meu filho, se você aparecer na televisão, se a câmera passar por você um segundo, não é por ser bonitinho, nada disso, você nunca mais vai parar de fazer televisão”. Soou meio profético, mas meu pai estava certo o tempo todo. Ele viu algo que eu não consiguia ver. E percebo que este é o meu lugar.

Facebook Comments