No ano do #MeToo, talvez, o conjunto mais forte de interpretações femininas da década. Charlize Theron faz o melhor papel da carreira, Karine Telles e Luciana Paes, finalmente, alcançam o reconhecimento que merecem, Rachel Weisz mostra o quanto precisamos mais vezes dela fazendo bons filmes. Se ano passado foi o Goduuuuuuuuuuu, 2019 trouxe Brooklynn Prince como meu xodó mirim. Se não fosse o grande talento que é, Saoirse Ronan teria feito a personagem mais insuportável da história. Sorte a nossa. Laura Dern, Diane Kruger e Toni Collette deixam os papéis coadjuvantes para ganhar o protagonista. Por fim, Frances McDormand é o grande destaque de um filme superestimado.

Nossa, que difícil! Esse foi um grande ano para as interpretações femininas, e foi impossível resistir a Karine Telles, impecável como a mãe que passa por várias mudanças em tão pouco tempo. Sally Hawkins esteve apaixonante, enquanto Margot Robbie e Aubrey Plaza nos fizeram torcer por personagens odiáveis. Falando em torcida, a Cleo de Yalitza Aparicio e a Ally de Lady Gaga foram estreias impressionantes, enquanto Rachel Weisz e Frances McDormand adicionaram mais dois bons trabalhos às suas carreiras. Fecham a lista Salma Hayek, que tem um grande trabalho no pouco visto “Jantar Com Beatriz”, e Izabél Zuaa, que disputa com Karine e Frances o título de “mãe do ano”.

MENÇÕES HONROSAS: Saoirse Ronan, por “Lady Bird”; Magali Biff, por “Pela Janela”; Emily Blunt, por “Um Lugar Silencioso” e “O retorno de Mary Poppins”, Vicki Krieps, por “Trama Fantasma”; Laura Dern, por “O Conto”; Viola Davis, por “As Viúvas”; Toni Collette, por “Hereditário”.

2018 foi um ano ótimo de atuações femininas, inclusive foi difícil escolher apenas dez e deixar outras de fora (lembradas na lista de menções honrosas abaixo). A melhor atuação do ano foi de Karine Teles.  Em Benzinho, ela transborda energia e alegria de viver que até faltam adjetivos para definir esta interpretação magistral. Na minha lista, as surpresas reinaram. A paraguaia Ana Brun que nunca tinha atuado domina e carrega As Herdeiras nas costas como uma veterana. Por sua vez, Grace Passô, Vicky Krieps, Brooklynn Price (adorável essa garotinha) e Lady Gaga abraçaram a grande oportunidade de suas vidas para entregarem interpretações expressivas. Mesmo com vasta bagagem no cinema, Rachel Weisz e Charlize Theron tiveram em 2018 as melhores atuações de suas carreiras. Depois de Brooklyn, Saoirse Ronan continua crescendo e voando alto em Lady Bird. E é uma pena o cinema de terror não ter força, porque só isso para explicar o fato de Toni Collete não ser lembrada nas premiações. Em Hereditário, a atriz opera uma dramaticidade fortemente crível que transita muito bem no limite da angústia e do medo.

Em um mundo ideal, a essa hora a sala de Toni Collette estaria abarrotada de prêmios pelo seu trabalho em Hereditário, sem ter que passar pela barreira que, em pleno 2018/2019, ainda hesita em reconhecer filmes de terror como dignos de premiações. Enquanto não chegamos a esse mundo ideal, fica também a menção ao tour de force de Karine Teles em Benzinho, a excepcionalidade de Sally Hawkins em A Forma da Água, a revelação de Yalitza Aparicio em Roma e a impressionante estreia mirim de Brooklynn Prince, carregando Projeto Flórida.

Atuações femininas poderosas marcaram 2018. Na minha lista coloco a vencedora do Oscar, Frances McDormand, e Vicky Krieps que impressionaram em suas composições em seus trabalhos. Isabel Zuaa já tinha chamado a minha atenção em “Joaquim” e, aqui, em “As Boas Maneiras” se entrega, Tiffany Dopke não atua o filme todo, mas sua memória acompanha até o fim e assombra o seu colega de cena. Charlize Theron merecia mais reconhecimento por seu trabalho em Tully, enquanto Toni Collete surta em Hereditário. Emily Blunt faz bonito e cumpre com louvor uma tarefa que para muitos era impossível, substituir Julie Andrews, e Karine Teles em mais um ano vem para na minha lista no excepcional Benzinho. Lady Gaga me arrancou suspiros com sua voz e nariz e Yalitza Aparicio merecia todos os prêmios esse ano.

Grandes atrizes nos deram muitas emoções em 2018: Sejam os trabalhos meticulosamente construídos e emotivos de Hawkins, Krieps e Zuaa, até a força de Gaga e Robbie, foi um ano de atuações fortes. Em meio a elas, a contida Weisz deixou transparecer um mundo de emoções e Theron provou de novo que é a atriz perfeita para a roteirista Diablo Cody. Terajima diverte e comove com a sua estranha personagem; e a brilhante, brilhante Aparicio tira de letra o maior desafio para qualquer atriz ou ator: atuar com uma naturalidade tão grande que não parece estar fazendo nada. Porém, meu desempenho favorito do ano foi o de Collette, que de alguma forma consegue combinar tudo isso num trabalho só: Ela é forte, fragilizada, aterrorizada, parece real e transmite o horror da sua personagem de forma admirável. Acima de tudo, ela é o coração negro, trágico e aterrorizante de Hereditário.

Duas atrizes estreantes arrebataram o mundo do cinema de tal forma este ano que ficou difícil para intérpretes mais experientes: Brooklynn Prince, de Projeto Flórida, e Yalitza Aparício, de Roma, são achados no sentido amplo do termo. Elas refletem e ampliam as realidades que as cercam e, sem elas, nenhum dos projetos existiria em sua presente forma. Ao mesmo tempo, estrelas tarimbadas com currículos excepcionais, como Viola Davis e Natalie Portman, mantiveram a boa fase recente. Já outras, como Sally Hawkins e Trine Dyrholm, mesmo não sendo novatas, brilharam como nunca antes em papeis principais dignos de nota.

O ano não nos poupou atuações do mais alto calibre. Nessa abundância, Toni Collette é a número um. É preciso muito domínio para não perder o compasso num papel como o dela. Por outro lado, Karine Teles entrega uma das atuações mais sublimes do ano. Diane Kruger tem a performance da sua vida. Os grandes nomes Juliette Binoche, Frances McDormand e Laura Dern reafirmam e reafirmam os monstros do cinema que são. Sally Hawkins tem seu tão merecido destaque, com uma intepretação de arrancar sorrisos. Nas novidades, Isabél Zuaa e a veterana do teatro Magali Biff são dois inesperados que conquistaram sem retorno. E Charlize Theron mostra mais uma vez sua total entrega e constante evolução.

Lady Gaga já havia conquistado o mundo com suas composições, vocal e apresentações icônicas, mas vê-la como Ally mostra o quanto está preparada para o mundo artístico. Karine Telles é o grande rosto de Benzinho e o que mais te faz querer acalentar o filme. Já o trabalho corpóreo de Theron e a maneira como despe a maternidade é arrebatador. Assim, como Aparicio e os silêncios que a acompanham.

Luciana Paes ousou em um papel devorador. Precisamos de mais dela em tela. Entre ousadias e devastação, McDormand foi um dos grandes nomes do ano. Dern embarcou em uma jornada delicada e complexa a qual ela se entregou com destreza e sensibilidade. Ronan e Robbie apresentaram um pouco das personalidades contemporâneas e geraram comoção e identificação.

Merecedora do primeiro lugar, Toni Collette foi um dos pontos mais fortes do longa mesmo com vários fatores elogiáveis assim comoMcDormand e sua atuação memorável. Com igual versatilidade, Emily Blunt é digna de méritos por atuações tão distintas e igualmente bem feitas. O terceiro lugar é ocupado por Gaga e sua grata surpresa na atuação, na quinta e sexta posições, encontram-se atrizes que foram essenciais para o bom desempenho de seus longas. Com merecido destaque, Sally Hawkins não pode ser esquecida desta lista assim como Margot Robbie no papel que rendeu sua primeira indicação (justíssima) ao Oscar. Fechando a lista, Karine Teles prende a atenção do espectador e Rachel Weisz volta a mostrar toda força de sua competente atuação.

Não sei vocês, mas os trabalhos de atuação mais intrigantes e envolventes de 2018 foram, pra mim, os de intérpretes femininas.  Claro, é sempre um prazer ver Daniel Day-Lewis ou Gary Oldman em cena, mas, tirando a força nova e arrasadora de Rami Malek, nenhum dos melhores atores de 2018 enveredou por um terreno novo em seus trabalhos. Não se pode dizer o mesmo das atrizes. A convicção impressionante de Margot Robbie na recriação da vida da patinadora Tonya Harding em “Eu, Tonya”, Viola Davis erigindo uma líder de quadrilha badass em “As Viúvas”, a pouco conhecida Vicky Krieps encarando um duelo com Day-Lewis e se mostrando à altura em “Trama Fantasma”, o trabalho assustador e multifacetado de Toni Collette em “Hereditário”, Sally Hawkins, sem poder usar a voz, criando uma personagem inesquecível em “A Forma da Água”. É bom poder acusar tanta riqueza.

Duas atuações fantásticas abrem a lista: a de McDormand (“Três anúncios para um crime”) e Telles (“Benzinho”). Dentre as surpresas, figuram Lady Gaga (“Nasce uma estrela”), Yalitza Aparicio (“Roma”) e a dona e proprietária da empresa cinema independente Brooklyn Prince (“Projeto Flórida”). Filmes de Hong Sang-Soo viraram marca de alguma grande atuação de Kim Min-hee, e nesse ano a bola da vez foi “O dia depois”, embora Hupert também se destaque num papel absurdamente leve em “A câmera de Claire”. As candidatas ao Oscar 2018 Robbie (“Eu, Tônia”) e Sally Hawkins (“A forma da água”) também tão figuras obrigatórias aqui, ganhando apenas a companhia da sempre injustiçada Collette (“Hereditário”).