Após quatro anos obtendo acréscimo na quantidade de pessoas que frequentam as salas de cinema, o mercado audiovisual brasileiro viu o total de ingressos vendidos reduzir de 184 para 181 milhões aproximadamente, entre 2016 e 2017. A queda no número de frequentadores, segundo especialistas ouvidos pelo O POVO, é fruto de fatores de diversas ordens: violência nos centros urbanos, preço dos ingressos, consumo de filmes e séries em plataformas streaming nas residências. Os dados são do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), órgão vinculado à Agência Nacional do Cinema (Ancine), e foram discutidos durante a Minas Gerais Audiovisual Expo (MAX), evento que propõe debates sobre a indústria audiovisual.

Para conseguir levar o público para as salas de cinema – explica Clarissa Lobo, gerente de produção da H2O Filmes, durante palestra na MAX – é necessário oferecer som e imagem diferenciados. “Mostrando para o espectador que ele precisa ver o filme na tela, mostrando o quanto aquela beleza precisa ser apreciada na tela”, pontua. Os dados da OCA também apontam que o país teve um número relevante de lançamentos em 2017. Foram 463 produções, sendo 160 nacionais e 303 estrangeiras. Mas, mesmo com o crescimento nas opções, o público diminuiu.

Um filme, na opinião de Clarissa, precisa ser oferecido para o espectador como “um evento, uma experiência, um momento coletivo”. É nessa perspectiva que Selma Lícia, estudante de Psicologia, continua a frequentar as salas de cinema de Fortaleza semanalmente. “A experiência da sala faz toda a diferença. Quando começo a falar de cinema e alguém fala de Netflix ou que viu um filme no sofá, eu digo logo que estou falando é de cinema!”, brinca Selma, que considera a quinta-feira, quando acontecem os lançamentos, o melhor dia da semana. Em décadas passadas, acredita a estudante, o acesso aos bens culturais era complicado. “Acho que os mais jovens não viveram a época de ir alugar filmes na locadora, de ter videocassete. Assistir um filme envolvia etapas”, pontua.

Para Selma, a redução no público dos cinemas é um sintoma do imediatismo dos nossos tempos. “As pessoas abrem mão das experiências. Isso não acontece apenas com o cinema, mas com outras artes também. Tudo está na palma da mão e as pessoas se dispersam em razão da facilidade”, explica. De fato, é inegável o crescimento das plataformas que oferecem séries, filmes e produções exclusivas – tudo com a facilidade do espectador assistir na hora desejada e onde quiser.

Mas, para alguns, nada substitui o prazer das luzes sendo lentamente apagadas, dos trailers surgindo na grande tela e do filme começando minutos depois. É o caso de Glauber Ferreira Brandão Filho, 23 anos, estudante de Cinema e Audiovisual, que vai ao cinema semanalmente. Apesar de consumir audiovisual via streaming, ele não dispensa a experiência de som e imagem nas telonas. “Quem vai ao cinema vai pela experiência. O streaming muitas vezes é assistir o filme e passar adiante. O filme no cinema marca de alguma maneira”, pontua Glauber.

Igor Amim, sócio diretor da CoCriativa Conteúdos Audiovisuais, reforça que o distanciamento do público das salas não acontece apenas em virtude do streaming – mas, também, por fatores socioculturais. As questões passam pelo elevado preço dos ingressos – que, em 2017, ficaram na média de R$ 15 no País; pela fragmentação da audiência, pois o público não é padronizado; e pela insegurança dos centros urbanos, que amedronta a população e a enclausura em casa.

“Existe uma série de variáveis que estão dificultando, que não é puramente a possibilidade do público ter o vídeo em casa. Mas a segurança, os preços dos ingressos, os filmes e a diversidade que o público quer ter”, diz Igor Amim. Na opinião dele, apesar da inegável importância da qualidade de som e imagem para atrair o público, essa dimensão não é a única importante. “Não adianta ter um filme tecnológico e com som moderno, se não tem uma boa história. O movimento da narrativa, o roteiro, os personagens e a direção, tudo isso, vai casar com a produção técnica. É um grande sistema complexo a ser desenvolvido, que vai da questão técnica até as questões estéticas e poéticas”, pontua Igor Amim.

Clarissa Lobo, da H2O Filmes, explica que, além da qualidade de som e imagem, as salas de cinema oferecem o momento coletivo. “As pessoas riem com as risadas umas das outras quando estão vendo filmes de comédia, as pessoas se assustam com os sustos das outras quando estão vendo filmes de terror. Isso agrega valor. Um espectador se contagia com a reação do outro”, pontua a gerente. Clarissa também acredita na importância de ter todos os gêneros (comédia, romance, ação, suspense etc) disponíveis. A variedade de oferta para o espectador, diz, é necessária para não saturar o mercado.

A mudança no mercado do audiovisual nacional – acredita Igor Amim, da CoCriativa Conteúdos Audiovisuais – é responsabilidade de todos os agentes da cadeia produtiva: do poder público, que poderia tornar os processos mais eficientes e menos burocráticos; das distribuidoras, que precisam criar formas inovadoras e criativas de mobilizar o público; das exibidoras, que precisam entender a importância das produções audiovisuais feitas no Brasil; e do próprio espectador, que, em algumas idas ao cinema, pode priorizar as produções brasileiras.