No escurinho do cinema ou sentado confortavelmente no sofá da sala, quem nunca se imaginou atravessando as impressionantes paisagens que são cenários das aventuras de “Senhor dos Anéis” e “As Crônica de Nárnia”, gravadas na Nova Zelândia? Ou não se viu correndo em companhia do lutador Rocky Balboa pelas ruas da Filadélfia até chegar às escadarias do Museu de Arte da cidade?

O cinema e as demais plataformas audiovisuais têm a capacidade não só de nos transportar para o mundo da fantasia como também de nos fazer querer conhecer os cenários reais das nossas produções preferidas. Pensando nesse potencial de promoção, o Ministério do Turismo anunciou na última semana de setembro o lançamento do “Grupo Temático de Promoção do Turismo Cinematográfico no Brasil e no Mundo”, formado por representantes de órgãos governamentais, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) e instituições ligadas ao turismo e à produção audiovisual.

O Brasil, tão diverso em paisagens naturais e patrimoniais, pode ser cenário de produção nacionais e internacionais das mais diferentes e Minas Gerais tem potencial para ser um dos expoentes dessa estratégia. O Estado abriga três biomas – Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga –, detém 60% do patrimônio histórico ainda preservado no Brasil, tem 853 municípios e uma infraestrutura viária que inclui a maior malha rodoviária federal do País e um aeroporto internacional, além de divisas com as duas maiores economias do País, São Paulo e Rio de Janeiro, apresentando, portanto, as condições básicas para receber qualquer tipo de produção. Agora, começa a se organizar para oferecer, também, as melhores condições políticas e econômicas para isso.

Uma das principais ferramentas para a atração de produções audiovisuais utilizada no mundo todo sãos as “film commissions” – organizações, normalmente estatais ou paraestatais, que se dedicam a atrair a realização de produções audiovisuais no seu local de atuação. De acordo com o diretor de fomento à produção audiovisual da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais (SEC-MG), Chiquinho Matias, o principal passo na construção de uma política pública nesse sentido foi a retomada da Minas Film Commission, há três anos. O programa, ligado à SEC-MG, tem como objetivo desburocratizar a realização de produtos audiovisuais no Estado, fazendo a interlocução entre as produções e órgãos, espaços e equipamentos sob gerência do governo estadual e, ainda, favorecer o diálogo entre a produção e as demais instâncias governamentais.

“As produções que nos procuram precisam preencher um formulário técnico, com os dados da produção e suas demandas de locação. Elas recebem uma carta-chancela emitida pela secretaria e passamos a atuar juntos aos órgãos estaduais e também municipais e federais. Nesses três anos já contribuímos com mais de 30 produções cinematográficas, séries para TV e alguns filmes comerciais”, explica Matias.

A Brasil Audiovisual Independente (Bravi) representa o segmento de produção independente de cinema e televisão no Brasil, no Grupo de Trabalho do MTur. Para o representante da Bravi em Minas e diretor da Companhia de Imagens e Sons (Cisup), Carlos Ribas, um ponto importante para a transformação de Minas Gerais em um cenário recorrente nas produções audiovisuais foi a realização do “Sexto Encontro Latino-americano de Film Commissions: Estrutural Legal e Administrativa de uma Film Commission”, dentro da programação da Minas Gerais Audiovisual Expo (MAX), realizado em Belo Horizonte, em agosto.

Geração de receita – “Quando trouxemos o Encontro de Film Commissions, acabamos sensibilizando o Ministério do Turismo. Sabemos que além da receita gerada durante as gravações, um filme ou uma obra para a TV pode ser uma grande divulgação para a cidade. Claro que o audiovisual não vai tornar o turismo a principal atividade de um lugar, mas pode ajudar muito a promovê-lo. Um bom exemplo é Lavras Novas (distrito de Ouro Preto, na região Central), que ficou nacionalmente conhecida com o filme ‘Filhas do Vento’ (Joel Zito Araújo, 2005). Ter uma film commission ajuda muito, mas as cidades podem fazer coisas simples, como abrir mão de um determinado imposto e desburocratizar as demandas por autorizações, por exemplo”, avalia Ribas.

A SEC-MG promete para breve o lançamento de um site exclusivo da Minas Film Commission, que deverá servir também como ponte entre produções, artistas e prestadores de serviços da cadeia do audiovisual. A Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais (Setur-MG) já cedeu um arquivo com mais de mil fotos de paisagens mineiras. O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) também colaborou com a cessão de um detalhado inventário sobre 120 obras históricas espalhadas pelo Estado. A política pública desenvolvida em Minas, por enquanto, não oferece nenhum tipo de facilidade fiscal.

“Esses materiais, entre outros, que estarão disponíveis, ajudam as produções a escolher locações sem precisar se deslocar ou fazendo viagens muito mais assertivas. Isso ajuda a diminuir custos e prazos. Ainda não temos nenhuma política de isenção de impostos, mas esse é um objetivo”, afirma o diretor de fomento à produção audiovisual da SEC-MG.