Fazer filmes com atores não profissionais é algo que os cineastas experimentam há muito tempo. “Roma”, de Alfonso Cuarón, é o exemplo mais atual, com a atriz amadora Yalitza Aparício, professora, que está indicada ao Oscar de melhor atriz. A associação de críticos dos Estados Unidos premiou recentemente o longa “The Rider”, da diretora Chloé Zhao, como melhor filme de 2018. Na tela, ela coloca atores não profissionais.

Ao longo da história do cinema, são muitos os diretores que já optaram por filmar amadores. O italiano Vittorio de Sica, com seu “Ladrões de Bicicleta”, de 1948, emocionou o mundo e estimulou atuações memoráveis de atores amadores. O norte-americano Charles Burnett, nos anos 70, experimentou as criações coletivas, com seus colegas de universidade, e lançou “O Matador de Ovelhas” (1978), escalando amigos simplesmente por falta de verba para a realização do filme de outra forma.

Aqui, no Brasil, Fernando Meirelles dirigiu “Cidade de Deus” com atores amadores da comunidade carioca, entre eles Leandro Firmino, o Zé Pequeno. Recentemente, o mineiro André Novais Oliveira teve seu filme “Temporada” premiado no Festival de Brasília. O longa, filmado em Contagem, traz atores profissionais como Grace Passô e outros não profissionais.

Hélio Ricardo (Hélio) e Juliana Abreu (Jaque) trabalharam na vida real com o cineasta como agentes do combate a endemias, profissão que desempenham na ficção. Russão, outro personagem, nem mudou seu apelido. O agitador cultural, conhecido em Contagem, ganhou prêmio de melhor ator coadjuvante por seu Russão da ficção no Festival de Brasília.

“A Filmes de Plástico (coletivo de cinema criado na periferia) tem feito experiências deste tipo desde o início, em 2009”, conta Oliveira. “Foi uma forma meio natural de realizar nossos projetos”. Ele cita que o primeiro curta da produtora, “Filme de Sábado”, de Gabriel Martins, traz no elenco o ator André Prata contracenando com o sócio da produtora Maurílio Martins. “De certa forma, acho que essa se tornou uma marca da Filmes de Plástico”, diz Oliveira.

Além dos três atores amadores, o cineasta escalou também sua família para “Temporada”. Estão na tela sua mãe, seu pai e seu irmão. Os familiares também estiveram presentes em dois trabalhos anteriores de Oliveira: “Ela Volta na Quinta” e “Quintal”. “Como ‘Ela Volta na Quinta’ era um projeto bem autobiográfico, deu vontade de chamar minha família para atuar”, conta Oliveira. No começo, os pais estranharam, mas depois ficaram exaltados. “Mas no set foi tudo tranquilo. Depois, eles fizeram outros filmes e até ganharam prêmios”, conta o cineasta, que acredita nessa mistura de profissionais e amadores. “Não tem muita regra, mas tem atores não profissionais que chegam num nível de atuação muito bom”.

Para o cineasta baiano David Aynan, esse recurso de filmar amigos e familiares é bem característico do cinema negro, feito com pouco recurso, mas com muita vontade de contar histórias. “Ousmane Sembène (1923-2007), lá na África, fez cinema dessa forma”, diz Aynan. “Sem recursos, ele pegava pessoas próximas e filmava”.

Aynan tem como referência para sua arte o cineasta Charles Burnett. “Ele filma na quebrada dele e filma esses amigos, atores não profissionais”, diz. “Essa precariedade está ligada ao nosso processo. Como não temos acesso aos meios de produção de forma ampla, como grande parte da população branca e, porque o cinema é essa coisa burguesa, a gente entra nesse modelo de organização pela necessidade muito mais do que pela vontade”, afirma o cineasta.

“Então, isso se impõe na estética, na forma de filmar, de produzir. Mas, quando a gente faz e vê que fica legal, acaba sendo um método. Acho interessante esse movimento, os coletivos, e se isso virar uma tendência eu acho maravilhoso, pois é um jeito de fazer um cinema autoral, forte, que se contrapõe ao que está posto”, defende. “Se tornar tendência, eu acho massa!”

Vencedor da Mostra Aurora, na 22.ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o longa “Vermelha” traz uma trama simples, que ganha sabor especial com diálogos inusitados e interpretação natural, de gente simples, em situações que divertem e emocionam. Na tela está a família do cineasta Getúlio Ribeiro, o que dá uma atmosfera única a essa obra que nasceu um curta – com verba de curta, vinda da Lei Goyazes de Incentivo à Cultura – e se tornou um longa, dada a riqueza do material captado pelas lentes de Ribeiro.

“Foi um filme feito baseado nessa relação de intimidade, e, enquanto fui filmando, a história foi crescendo”, conta Ribeiro, que pensou na obra quando estava longe em um trabalho, e bateu a saudade da família. O cineasta, de 27 anos, usou diálogos espontâneos dos familiares para construir sua trama. Seu pai, personagem principal, está à vontade em frente à câmera que percorre sua casa. Em Tiradentes, ele celebrou a conquista do filho e, por consequência, da família toda.