“Há muitos anos que não tínhamos alguém à frente do Ministério da Cultura com um discurso positivo e de assumir o cinema como algo que é estratégico e merece ser pensado a longo prazo. No concreto, como se define esta estratégia, é obvio que é um caminho que vai ter de se trilhar, e eu, como produtor, e como interessado, estou interessado em participar nessa discussão”, sublinhou Luís Urbano.

Graça Fonseca, a ministra portuguesa da Cultura, esteve no fim de semana passado em Berlim, acompanhada pela secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, onde apresentou o novo ‘cash rebate’, um programa de incentivo à produção de cinema e audiovisual de Portugal.

“Já beneficiei desses sistema para três filmes, três projetos que produzi, que estão em fase de pós-produção, mas que filmei no ano passado, todos eles coproduções internacionais: ‘Frankie’, do realizador norte-americano Ira Sachs, que é uma coprodução de França com Portugal, o ‘Tecno Boss’, de João Nicolau, uma produção maioritária portuguesa do Som e da Fúria em coprodução com França, e a primeira longa-metragem do Gonçalo Waddington, ‘Patrick’, uma coprodução com a Alemanha”, revelou o produtor à Lusa.

O Som e a Fúria começou a apostar em coproduções internacionais a partir de 2007, “de forma a fazer face à ambição crescente” dos projetos que não conseguem “esgotar as suas capacidades de financiamento em Portugal e têm necessidade de se exportar”. Para Luís Urbano o sistema de ‘cash rebate’ veio trazer “uma maior capacidade de atrair coproduções maioritárias estrangeiras, o que é bastante interessante”.

O produtor de títulos como “O Gebo e a Sombra” e “O Velho do Restelo”, de Manoel de Oliveira, “Aquele querido mês de agosto” e “Tabu”, de Miguel Gomes, premiado em Berlim, em 2012, e de “Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira, que se estreou no festival alemão, em 2016, criou recentemente uma distribuidora com o nome “Desforra Apache”.

“Temos uma empresa vocacionada para produzir, mas que acidentalmente começou a distribuir os seus filmes, ou porque não encontrou soluções de mercado em Portugal que não fossem interessantes, ou porque tinha mesmo de ser assim. Nem todos os filmes que produzimos têm ‘sales agent’, há filmes que produzimos que têm alguma ambição internacional, porém, não têm um ‘sales agent’ interessando. Então senti a necessidade de criar uma estrutura que, com o tempo, se vai especializar cada vez mais na distribuição nacional, mas também na representação internacional dos nossos títulos”, esclareceu o produtor.

Luís Urbano define como prioridade nas linhas estratégicas para a área do cinema, um “reforço na aposta da internacionalização”, realçando que, desde 2012, o setor entrou numa nova fase, que “felizmente ainda hoje se mantém, com os seus altos e baixos daquilo que são as condições de como ele é feito”.

“É preciso pensar muito bem e dar passos naquilo que é o circuito de exibição tradicional da sala, da grande tela de cinema. Por questões de mercado, temos as salas muito concentradas num número reduzido de operadores, normalmente baseadas e instaladas em centros comerciais. E esta rarefação que temos com a quantidade de salas nos centros de cidade que fecharam, tem tornado o panorama de exibição bastante negro”, frisou Luís Urbano à Lusa, acrescentando que “tem de haver uma aposta e um investimento público” para que no futuro “o cinema não morra”.