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Na trama divida em dois atos, Clara (Isabél Zuaa) é uma moradora da periferia de São Paulo contratada por Ana (Marjorie Estiano) para auxiliá-la durante sua gestação e ser babá do futuro bebê. Ana é de uma família rica de Goiás, amante de sertanejo universitário, que não fala sobre o pai de seu bebê. A relação entre as duas se estreita no decorrer da gestação ao mesmo tempo que coisas perturbadores passam a acontecer em madrugadas de lua cheia.

“A ideia do filme veio de um sonho antigo que contei para a Juliana [Rojas], no qual duas mulheres apareciam em um lugar isolado e lá cuidavam de uma criança monstruosa”, conta Marco Dutra ao HuffPost Brasil. A descrição do sonho do diretor dá apenas sinais da elaborada conjuntura que o espectador acompanha na segunda parte da história, quando a gravidez de Ana e seu apetite por carne ficam insustentáveis.

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Por fim, o que vem ao mundo é, sim, um ser monstruoso: uma espécie de lobisomem, um dos mais tradicionais personagens do folclore brasileiro. Ao se deparar com o ser indefeso — a quem Ana deu o nome de Joel —, Clara decide criá-lo e, acima de tudo, protegê-lo da maneira mais digna na casa onde mora. “Era um filme de fantasia desde o início e a história acabou se tornando sobre a formação de uma família estranha e sobre o laços de afeto entre as pessoas dessa família”, diz Dutra, que decidiu junto com a parceira de direção abordar a figura do Lobisomem devido à questão do “contraste entre instinto e comportamento” que ele representa.

A cidade de São Paulo é também uma personagem de As Boas Maneiras, contribuindo para a trama com suas próprias contradições. Se na primeira parte o espectador vê apenas a casa de Ana e os arredores de uma região privilegiada, na segunda, se depara com dia a dia de Clara numa casa menor, de vizinhos mais próximos e com a escola da Prefeitura onde o pequeno Joel estuda, ao lado de filhos de imigrantes e refugiados. “Tentamos trazer a presença da cidade de São Paulo, as contradições e as questões sociais e geográficas para a história”, confirma Juliana.

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Outro aspecto que chama atenção na fábula de horror é a qualidade de seus efeitos visuais. As Boas Maneiras é uma coprodução Brasil-França, o que possibilitou o uso de tecnologias de ponta e combinação de técnicas na apresentação do pequeno lobisomem. “A sequência do parto, por exemplo, foi feita quase com animatrônica e efeitos mecânicos. Já o Joel com 7 anos é uma mistura de animação digital e planos com detalhes de partes do corpo, como mãos e orelhas, que são reais”, explica Dutra. A versão colorida e reluzente do céu de São Paulo foi alcançada com a ajuda de matte painting, uma técnica de computação gráfica que combina imagem filmada e paisagem pintada.

As Boas Maneiras é o segundo filme dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra. O primeiro, Trabalhar Cansa (2011), marcou a estreia de ambos na direção de um longa-metragem. A parceira começou no curso de cinema da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Pode-se dizer que a fábula de horror que se passa em São Paulo deu certo. O filme fez sucesso em 2017 no Festival de Locarno, na Suíça, onde conquistou o prêmio especial do júri; e também no Festival do Rio, onde foi eleito Melhor Longa de Ficção segundo o júri e levou também os prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante (Marjorie Estiano), Fotografia (Rui Poças) e o Felix – destinado a obras com temática LGBT.

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O sucesso de As Boas Maneiras é exemplo de que há espaço no cinema nacional para novas narrativas e realização de obras com identidade genuinamente brasileira. Mas ainda existem sérias dificuldades a serem superaras até que essas histórias venham à tona.

“Além da dificuldade de distribuição, que atinge todos os filmes nacionais, o cinema de horror brasileiro também enfrenta o preconceito”, explica Juliana. “Ainda existe uma ideia de que é um cinema mais trash ou menor do que os outros gêneros”, lamenta a cineasta, que também acredita numa mudança de cenário. “A gente tem no Brasil muitos fãs fiéis do gênero de horror e fantástico. Existem, inclusive, festivais dedicados a esses gêneros.”

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