Atenção, little monsters e demais fãs de Lady Gaga: conformem-se. Aceitem. Ela não vai ganhar o Oscar de Melhor Atriz no dia 24 de fevereiro por Nasce Uma Estrela. Seria uma coroação para o desempenho dela nessa refilmagem de um projeto tão icônico de Hollywood, mas não vai acontecer. Não adianta choro, não adianta torcida, porque esse Oscar já tem dona: vai ser a veterana Glenn Close por A Esposa.

O nome dela já está gravado lá na base do Oscar, é um dos troféus mais certos da noite. Podiam poupar nosso tempo e já mandar para Close pelo correio. A não ser que algo bombástico ocorra daqui até lá, tipo descobrirmos que Close é dona de uma fábrica que explorou mão-de-obra escrava no sudeste asiático ou coisa assim, Lady Gaga já pode se lamentar na cama e os fãs já podem consolá-la.

E sabem o que mais? Será merecidíssimo. Às vezes o Oscar causa situações embaraçosas para si mesmo, deixando de premiar verdadeiros tesouros do cinema, e Glenn Close é um deles. Essa é a sua sétima indicação e agora vai – nada de “conjunto da obra” para essa atriz fascinante que vem nos encantando, nos emocionando, nos assustando praticamente desde o início dos anos 1980.

Nesta comédia jornalística de Ron Howard – um dos melhores filmes do diretor – Glenn Close interpreta um tipo pelo qual ela ficou conhecida, o de mulher forte e durona. O diferencial aqui é que ela encontra, dentro da história, oportunidades para temperar isso com um pouco de neurose, humor e até uma redenção ao final, um momento que não soa falso por causa da atriz. Gosto muito desse filme, e acho prazer vê-la atuando – e engolindo – seus co-astros masculinos, Michael Keaton e Robert Duvall.

No final dos anos 1980 Glenn Close estava com tudo – era provavelmente a melhor atriz daquela época. E sua atuação como Sunny Von Bulow aqui, contrapondo-se com o misterioso e dúbio Claus vivido por Jeremy Irons – vencedor de Melhor Ator daquele ano – é sutil, cheia de interessantes detalhes, e a seu modo, tão hipnotizante quanto a do seu co-astro.

O trabalho da atriz neste drama, que finalmente lhe dará o Oscar, é uma aula de sutileza, de subtexto, de administração perfeita da repressão dos sentimentos e dos ocasionais momentos para deixa-los explodir. Geralmente o Oscar só valoriza atuações expansivas, quase sempre premiam quando dá para se ver que o ator ou a atriz estão A-T-U-A-N-D-O, e a própria Glenn Close já perdeu algumas vezes para desempenhos assim. Agora não: O trabalho dela em A Esposa é daqueles para coroar carreiras, e finalmente não poderão mais ignorá-la.

Ainda hoje o mais famoso papel da atriz, a Alex de Atração Fatal extrapolou os limites da tela: Ela virou a AIDS personificada, a encarnação dos piores temores dos homens ao darem suas escapadinhas – e neste aspecto em particular, o filme ainda não envelheceu. Mas graças à atriz, Alex sempre parecia mais real, mais triste, mais trágica do que os psicopatas masculinos do cinema. A cena dela sentada sozinha no escuro, apagando e acendendo a luz, rejeitada pelo amante vivido por Michael Douglas, é a primeira que lembro sempre que penso no filme. Ali, Glenn fez dela uma figura humana. Nas mãos de outra, ela poderia ser apenas a equivalente feminina do Jason Voorhees, seu contemporâneo. Vivida por Glenn, se tornou uma das maiores vilãs de todos os tempos, e ao mesmo tempo uma das mais… Compreensíveis.

Outra atuação antológica, a Marquesa de Merteuil de Ligações Perigosas já parece uma figura de outro mundo – e nunca o rosto único, não exatamente nem belo nem feio da atriz, foi tão bem utilizado. Mas de algum modo, por trás da fachada impassível, Glenn Close conseguiu transmitir a vida interior – ou ausência dela – dessa personagem diabólica e, assim como Alex, também estranhamente humana. Ela sempre foi uma atriz de sutilezas, de composições cuidadosas, e provavelmente foi por isso que o Oscar demorou tanto para chegar. E elas nunca foram mais poderosas e certeiras do que aqui. A cena final da Marquesa retirando sua maquiagem e olhando quase para nós, numa quase quebra da quarta parede, é o momento mais arrepiante do filme e da carreira de Glenn Close. E até me atrevo a dizer, um momento que só ela conseguiria expressar de maneira tão impactante.

Menções honrosas na telinha: Por mais que a maior glória do cinema esteja chegando para a atriz, não podemos nos esquecer das suas glórias na TV, notadamente os ótimos seriados The Shield, Damages, e o filme para TV O Leão no Inverno (2003) ao lado de Patrick Stewart.

Bem, Glenn Close nem está ruim nesse blockbuster de ação, para dizer a verdade.  Mas também parece estar ganhando um cheque ali, e quem pode culpá-la, certo? Atores também precisam pagar contas… Como a vice-presidente dos EUA, ela limita-se a olhar por uma tela e a dirigir ordens aos seus subordinados, e isso é pouco para a atriz. Além disso, o filme também é fraquinho. Mas não por causa dela, claro.

Formado em Ciências Biológicas e Jornalismo pela Faculdade Martha Falcão. Escreve sobre cinema desde 2010, após ter feito o curso Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, do crítico Pablo Villaça. Literatura, música e cinema são seus maiores interesses.

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