Se olharmos para qualquer cartaz de cinema, parece que há sempre qualquer coisa a mexer fora das salas de estreia. Programações regulares fora do circuito comercial (como as regulares actividades de cine-clubes por todo o país, os “Filminhos à Solta” para miúdos da Zero em Comportamento ou os ciclos do Instituto Alemão), extensões de festivais que assim se prolongam no tempo (como o Porto/Post/Doc com Há Filmes na Baixa! no Passos Manuel ou o Doclisboa com o 6.doc no Ideal)… A oferta existe, mesmo que nem sempre esteja muito visível.

Mas a verdade é que não existiam dados estatísticos sobre este tipo de exibição não tradicional, definida como “não comercial” — ou seja, todo o tipo de sessões regulares organizadas fora do circuito tradicional de distribuição por cine-clubes, associações culturais, festivais, mostras…

Foi para obviar a isso que a socióloga e colaboradora do PORDATA Luísa Barbosa, no âmbito da sua tese de mestrado na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, decidiu lançar luz sobre este circuito paralelo. “A ideia era que a própria tese apresentasse os resultados desse estudo,” diz ao PÚBLICO, ao telefone, entre risos. “O processo revelou-se muito mais complexo!”.

De tal modo que o “trabalho de campo” iniciado em 2013 só agora, em 2018, começa finalmente a ser tornado público. O centro nevrálgico do estudo A Exibição Não-Comercial de Cinema em Portugal, coordenado por Luísa e por Helena Santos, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa, encontra-se num site lançado no início do mês de Junho. No endereço http://exibicaonaocomercialdecinema.weebly.com estão para já visíveis os primeiros resultados — preliminares e mais generalizados — do inquérito feito a meio milhar de entidades nacionais, repartidos entre aqueles que promovem a “exibição contínua de cinema” e “a exibição mais pontual de festivais competitivos e mostras”. Os dados, recolhidos entre Dezembro de 2015 e Maio de 2016, reportam-se aos três anos entre 2012 e 2014, mas esse desfasamento — inevitável devido à morosidade inerente a qualquer tratamento estatístico — não é um problema para Luísa Barbosa. “Creio que a situação não mudou muito, está mais ou menos estável. O número exacto de entidades é que pode variar.”

O estudo foi realizado com a ajuda do ICA, que apoia algumas destas entidades ao abrigo de uma definição de “rede alternativa de cinema”. Mas os resultados revelam que, na verdade, não existe uma “rede” organizada e articulada; antes uma série de entidades individuais dispersas, muito concentradas nas regiões de Lisboa e Porto. O que torna a surpresa maior é que a rede de cine-teatros existente seria a infra-estrutura ideal para programações deste género mas está sub-utilizada. “O país está relativamente bem equipado,” anui Luísa, “mas em muitos destes cine-teatros não há uma preocupação com a programação de cinema. Era importante que se começasse a desenvolver um circuito que funcionasse nestes equipamentos, e que [ao mesmo tempo] o estado olhasse para a questão geográfica.” Isto porque “a geografia do circuito reproduz as assimetrias que Portugal já apresenta ao nível da cultura e das artes.”

Os resultados do estudo confirmam, na verdade, o esvaziamento das regiões do interior — a maioria dos concelhos de Portugal, por exemplo, não tem cinema, nem mesmo salas comerciais — e a concentração deste tipo de sessões em Lisboa e no Porto. “Não esperávamos que houvesse tanta concentração, e nesse aspecto foi uma desilusão,” confessa a investigadora. “Mas não deixa de ser interessante verificar que a experiência dessa exibição configura diferentes contextos de relação, em alguns casos como cinema ‘local’ ou ‘de bairro’.”

Outra surpresa é o facto de muitas das entidades sondadas pelo estudo — maioritariamente associações e cooperativas — não se dedicarem exclusivamente à exibição de cinema. “Em alguns casos nem sequer é a actividade principal,” diz Luísa. “São entidades polivalentes, que desenvolvem de tudo um pouco”. E para um circuito que supostamente pretende divulgar cinema clássico e alternativo, a exibição não-comercial está completamente dependente da oferta das distribuidoras. “Essa foi uma das maiores surpresas,” explica a socióloga. “Numa primeira análise, grande parte do cinema exibido é recente e contemporâneo, [o que] está ligado às dificuldades de acesso à distribuição alternativa. E como estas entidades não funcionam em rede, não existe poder negocial com o mercado: marcar um filme que possa passar num número ‘x’ de cine-clubes é diferente de ser cada um a contactar a distribuidora.” Ainda assim, Luísa aponta (com satisfação) que o circuito presta especial atenção a documentários, curtas-metragens e cinema de animação.

Os resultados agora disponibilizados são ainda preliminares: “não queremos ficar muito mais tempo à espera, e por isso toda a informação vai ser apresentada no site à medida que os resultados forem sendo concluídos.” A divulgação faseada será acompanhada por comunicações e artigos académicos. “Contamos ter no final do ano grande parte dos resultados trabalhados,” diz Luísa Barbosa. E a ideia é que o site possa, futuramente, transformar-se numa “base de dados” aberta a todos sobre a exibição de cinema fora dos circuitos comerciais.

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