Engana-se quem pensa que um festival de cinema é lugar apenas para um público intelectual e cult. De fato, essa quebra de expectativas fica ainda mais evidente no CineOP: enquanto é certo que a mostra se destina aos muito teóricos debates sobre preservação e restauração cinematográficas, a programação do evento, inteiramente gratuita, também inclui atividades para o público em geral da cidade mineira, indo desde exibições de filmes ao vivo na Praça Tiradentes, passando por oficinas diversificadas até uma sessão especial com gostinho de cinema do primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo.

Contra paixão nacional não se luta e, por isso mesmo, os curadores ouropretanos decidiram abraçar a estreia da Seleção no torneio, este ano sediado na Rússia. Assim, ao passo em que a fria manhã de domingo abrigou palestras que deram continuidade àquela que parece ser a principal questão do CineOP – a problemática do conceito de “história única” do cinema, dos perigos de uma narrativa historiográfica que elimina a memória de obras marginais, amadoras e/ou que foram produzidas fora do sudeste brasileiro -, a tarde trouxe um respiro com ares de sesta empolgada para o aquecimento para o jogo do Brasil.

Jovial por causa da inúmera presença de universitários que aqui habitam, Ouro Preto já via suas ruas serem cuidadosamente preparadas com bandeiras e flâmulas verdes e amarelas desde as primeiras horas de sábado, cortesia das várias repúblicas estudantis espalhadas pelas famosas e íngremes ladeiras de paralelepípedo ouropretanas. Caminhar até o Centro de Convenções local, tradicional sede do CineOP, era portanto atravessar diretamente toda a empolgação da cidade pela estreia de Neymar e cia. contra a Suíça.

Para recepcionar a multidão que viria a invadir o galpão Mariana, principal palco de espetáculos do Centro de Convenções local, um grupo de palhaços e artistas apresentaram o espetáculo futebolístico PPFC (Perna de Pau Futebol Clube), que como o nome já aponta, trouxe os performers sobre próteses enormes para disputar um divertido jogo circense. Para as crianças, mais especificamente, a intervenção artística foi um verdadeiro deleite, servindo como bom número de abertura para o evento principal das quatro linhas.

Uma vez dentro do galpão, a atmosfera mudou por completo. Ficaram do lado de fora a paciência e a calma das tardes de domingo e imediatamente entrou em campo a explosão da torcida, extremamente apaixonada pela seleção brasileira, que empurrou o time através do telão. Heterogênea, a audiência era composta pelos jovens universitários locais, tanto veteranos, quanto os bixos (calouros); hipsters em geral; senhoras que adentraram um estado de êxtase inesperado com o belíssimo gol de Phillippe Coutinho – ou Luciano Coutinho, segundo as idosas e animadas torcedoras -; crianças hiperativas; intelectuais do cinema – que não abandonaram os debates sobre a preservação fílmica, especialmente após o desanimador gol de empate da Suíça -; os seguranças do local, exibindo sorrisos tímidos a cada jogada da seleção, mas contendo o entusiasmo; e outros representantes da diversificada população ouropretana.

Bill Morrison, documentarista e realizador do aclamado Dawson City – Tempo Congelado, também marcou presença – como gringo da vez, só faltou mesmo a caipirinha na mão e o samba no pé dançado sem jeito, com os dois dedos indicadores para o alto à la carnaval do Rio de Janeiro. Em um canto do galpão, um grupo de hermanas mateiras com suas inseparáveis cuias de chimarrão e, próximo delas, um monge, com hábito e tudo. Do outro, críticos de cinema instantaneamente transformados em críticos de futebol, das substituições promovidas por Tite e da aparente cegueira da arbitragem e até mesmo um inusitado torcedor portando a camisa da seleção sob uma faixa onde se lia “coxinha arrependido”: uma panela na mão e uma bandana “Fora Temer” na cabeça completaram a indumentária; e, por fim, ainda sobrou espaço para uma carente cadelinha de rua, com fome suficiente para eliminar todas as pipocas que caíram no chão.

Este curioso mosaico, reforçado pela irreverente Maria Gladys, grande homenageada do CineOP deste ano, reuniu todos os contrastes de Ouro Preto – e talvez do Brasil, no fim das contas – em um só galpão, dicotomias que também são elementos formadores da própria mostra em si. A multidão presente no Centro de Convenções representou, assim, uma síntese dessa cidade tão sincrética, fundada sobre divisões eternas entre o passado – em 2018, Ouro Preto comemora seu aniversário de 80 anos do tombamento como patrimônio histórico – e o presente; entre a população idosa e os universitários; e também entre a tradicional arte sacra de Aleijadinho e o experimentalismo das obras presentes na mostra de cinema.

Ao que tudo indica, só mesmo a Seleção Brasileira para unir tantas tribos sob o mesmo teto – ainda mais nestes tempos polarizados e mesmo com o gosto amargo do empate no final do jogo. Mas se depender da torcida de Ouro Preto, o hexa já é nosso; basta que a equipe faça por onde.

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