Muito de Technoboss – uma comédia de tons absurdos do diretor português João Nicolau, com estreia nesta quinta-feira, 12 – é sobre a ausência de comiseração que o filme direciona para seu personagem principal, Luís Rovisco (a estreia de Miguel Lobo Antunes, 70 anos, no cinema). Divorciado e à beira da aposentadoria (ou da reforma, como dizem os portugueses), Rovisco poderia ser um personagem melancólico, mas o roteiro e a direção incluem na sua história tantos elementos únicos que o filme se transforma em uma crônica de amor e compaixão.

O filme estreou em 2019 no Festival de Locarno, na competição oficial, passou pelo DocLisboa, pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, pelo Festival de Sevilha, onde venceu o prêmio do Júri, e pelo 21.º Festival do Rio. A distribuição no Brasil é da Vitrine Filmes.

Com dificuldades para lembrar-se de entregar relatórios da empresa para a qual trabalhou a vida toda (uma fictícia SegurVale – Sistemas Integrados de Controle de Circulação), Rovisco dirige (conduz) entre regiões de Portugal, cantando canções do heavy metal à salsa espanhola, ao volante ou não. Um clima de musical se instala, mas o humor natural de Lobo Antunes (jurista e produtor cultural aposentado, aqui em seu primeiro filme e sua primeira atuação na vida) se mistura ao do personagem, nunca retratado como um pobre coitado.

Outros elementos dão forma ao filme: Rovisco sofre com a morte de seu gato companheiro, Napoleão, se complica com avanços tecnológicos diversos, lida com uma dor no joelho e com um filho com casamento confuso, mas também encontra afeto com o neto e com o chefe amigo, o britânico Peter Vale (que nunca aparece na tela, embora esteja em diversas cenas do filme). Mas sua missão é mesmo alcançar Lucinda (Luísa Cruz), recepcionista de um hotel que ele atende com frequência, um amor de anos atrás perdido no tempo e que agora ele fará de tudo para recuperar.

Lobo Antunes (irmão de Antonio, o célebre escritor) também se aposentou recentemente, em 2017, e foi depois de o diretor João Nicolau vê-lo dançar em uma festa que o convite para participar do casting chegou. “Quando estava no processo de casting, incluímos muitos atores profissionais e cantores, mas eu não estava totalmente satisfeito”, explica o diretor, por telefone. Amigo e colega do filho de Lobo Antunes, testemunhou Miguel em uma festa, e a cena dele dançando ficou em sua cabeça. “Foi mais uma imagem, não consigo nem traduzir em palavras”, diz o diretor. “Procurei buscá-la em alguns momentos do filme. Era como um copo na mão a gingar-se um bocadinho, e a maneira que olhava”, arriscou.

Em São Paulo para apresentar o filme na Mostra, em outubro, o ator novato demonstrou na vida real simpatia similar à do personagem, embora seja menos carrancudo.

“Foi muito difícil, mas esse filme salvou a minha vida”, disse. “Não tinha experiência nenhuma de ator. Mas João é muito amigo de meu filho e eu gosto muito dos filmes dele. Ele é quem arriscava mais, porque se o ator fizesse um mau papel, o filme vinha para debaixo.”

Para o diretor, uma das preocupações foi justamente evitar o olhar de “comiseração” para um homem mais velho. “Quis situar o filme no presente do personagem”, explica. “Digamos que a trama principal é o que ele está vivendo, não é um retrato sobre envelhecimento, é claro que isso está lá também, mas há outros elementos: vida doméstica, vida amorosa, uma vida interior que mostra que não está bem com ele próprio.”

A ideia era, portanto, observar: “Para mim, mais do que fazer ressaltar alguma característica da idade, me interessava como aquele personagem específico reagia àquelas situações. Fomos descobrindo no trabalho.”

As primeiras resenhas do filme na imprensa europeia comentaram semelhanças no humor do personagem com as atuações de Jacques Tati (1907-1982), mímico e ator francês, mas também é possível apontar tom do filme como um todo mais inspirado pelo cineasta finlandês Aki Kaurismäki e pelo ator e comediante Larry David (Segura a Onda, a série do americano autor de Seinfeld, está no ar atualmente na HBO na 11.ª temporada).

Além das músicas, que permeiam o filme e lhe emprestam frescor e bom humor, outro aspecto salta aos olhos: em algumas cenas, um cenário é montado com banners e tecidos, dentro de estúdio, acrescentando ali outra camada do humor surreal. Uma solução criativa para um problema logístico e financeiro: filmar as viagens em uma estrada real seria um impedimento definitivo.

“Tínhamos sim um orçamento reduzido, mas achei que o personagem já tinha um corpo suficiente para o colocar num outro de patamar de realidade”, explica o diretor. “O que foi uma solução de produção sumária acabou por mostrar ao longo do filme aspectos e um olhar sobre o personagem em um outro contexto. Foi uma ferramenta. Gosto muito de trabalhar nessas áreas limítrofes.”

Se Technoboss não se alinha diretamente à linha do humor português de filmes como o amalucado Diamantino, o filme faz escolhas ousadas o suficiente para divertir e emocionar cinéfilos de cá e de lá do Atlântico.

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