SÃO PAULO – Para quem dirigiu o primeiro longa-metragem da carreira com R$ 60 mil, ter R$ 2,1 milhões para fazer o quinto é quase como comandar uma superprodução. Conhecido por filmes de terror toscos que encantam os fãs do gênero, como “Mangue negro” (2008), “A noite do chupa-cabras” (2011) e “Mar negro” (2013), o cineasta capixaba Rodrigo Aragão tem agora, finalmente, um orçamento que ultrapassa a barreira do milhão. Depois de aprender sozinho a dirigir e a fazer efeitos especiais práticos para baratear suas produções, ele prepara o que considera seu primeiro épico, “Cemitério das almas perdidas”, que será rodado entre agosto e setembro.

Com orçamento obtido por meio de editais e do Fundo Setorial do Audiovisual, “Cemitério das almas perdidas” contará como o mítico e cabalístico livro de São Cipriano chegou ao Brasil. Segundo Aragão, o filme terá reconstituição de época, com cenas mostrando a chegada dos jesuítas ao país a bordo de caravelas, e muitos efeitos especiais.

— Há muita concentração no eixo Rio-São Paulo — diz, sobre a produção de cinema atual. — É preciso dar chance para esses novos profissionais e fazer um intercâmbio com os técnicos de outras partes do país. O cinema também é isso.

O elenco ainda não está definido. A não ser pela participação, sempre garantida, da filha do cineasta, Carol, de 19 anos. Ela está em todos os filmes que ele fez, seja como extra seja como uma das protagonistas. A jovem é a cobaia preferida do pai nos testes de maquiagem e efeitos especiais. Não raro termina com o rosto coberto de escaras nojentas ou levando um tiro na testa.

Este ano foi especialmente produtivo para Aragão. Primeiro, ele atuou como técnico de efeitos especiais em “O doutrinador”, superprodução de R$ 8 milhões inspirada numa história em quadrinhos brasileira e prevista para estrear em 2019. Depois, lançou sua mais recente realização, “Mata negra”, no Fantaspoa, festival de cinema fantástico de Porto Alegre. A produção foi a primeira de sua carreira a contar com dinheiro de edital de fomento. Custou R$ 630 mil e, outra novidade, teve até a participação de atores famosos, como Jackson Antunes. Na trama, que conta com personagens de seu primeiro filme, “Mangue negro”, uma garota encontra o livro de São Cipriano (olha ele aí de novo) e o usa para ressuscitar o grande amor da vida dela — com consequências desastrosas.

O diretor está colhendo hoje os frutos de um investimento pessoal no cinema que começou no início dos anos 2000, quando voltou de uma temporada de quatro anos em Salvador. Na capital baiana, ele montou e gerenciou uma “casa de terror”, o Mausoléum. Trem fantasma rudimentar em que os visitantes percorrem um trajeto no qual levam sustos, o local recebeu, segundo cálculos do cineasta, mais de 30 mil visitantes.

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