Documentário sobre crianças ativistas abre festival de cinema brasileiro em Hollywood

Enquanto um adolescente no Quênia, na África, estimula o olhar fotográfico e ensina as crianças de sua comunidade a operar câmeras, uma garota canadense usa a voz com propriedade para defender o meio ambiente e os direitos indígenas antes mesmo de atingir a maioridade.

Ambos – assim como duas adolescentes sírias que se tornaram responsáveis pela educação de 50 crianças em um campo de refugiados no Líbano – são alguns dos personagens do documentário “Child of Nature” (Filho da Natureza, em  tradução livre). A coprodução brasileira e canadense, que ainda não tem data para chegar às telonas, foi a escolhida para abrir o 12º LABRFF (Los Angeles Brazilian Film Festival), neste domingo (13).

Dirigido e produzido por Marcos Negrão e com produção executiva de Miguel Krigsner, o longa-metragem é narrado por uma jovem jornalista indiana. A obra reúne histórias inspiradoras de crianças e adolescentes preocupados com justiça social, direitos humanos e meio ambiente.

O resultado, que também apresenta ativistas das Filipinas, Índia e Alemanha, é mais do que um olhar cru sobre jovens que almejam soluções para os problemas que os cercam. Trata-se de uma reflexão sobre os impactos dos descuidos do passado, atrelados a soluções promovidas por quem mais os sente no presente e deseja vislumbrar um futuro mais justo.

A palavra que define o filme, segundo o próprio diretor, é “esperança” – a começar pela jornada da equipe, que rodou o mundo duas vezes e gravou em 15 países, ao longo de três anos. A missão deu luz a 24 curta-metragens, entre eles os cinco selecionados para formar o longa de 90 minutos.

A ideia, conta Negrão, veio da necessidade de fazer um filme que trouxesse uma nova visão de mundo. “A gente entendeu que quem carrega essa nova maneira de sentir o mundo é a geração mais nova, as crianças”, revela. A surpresa foi encontrar crianças que já criam ações e organizações. “Então o filme virou um processo colaborativo entre nós, da equipe, e eles”, afirma.

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O cineasta destaca, ainda, as particularidades do olhar dos mais novos. “As crianças têm uma visão encantada do mundo. Elas não veem as diferenças entre as raças, as nacionalidades e as culturas, para elas somos todos irmãos”, garante. “Elas têm a visão de uma família global”, diz o diretor.

De acordo com Negrão, as protagonistas compartilham outra questão além do ativismo: “Elas têm o coração puro e agem pelo sentimento, não pela razão. Essas crianças trabalham pela empatia, pela colaboração e pelo respeito ao próximo”, afirma. Essa essência, por sua vez, também conduz a carreira do cineasta, que teve o documentário “A Terra da Lua Partida” (2010) reconhecido em mais de 25 premiações, incluindo festivais de Amsterdã e Roma.

O conceito de derrubar muros e construir pontes é o que amarra as historias de “Child of Nature”. “A gente vê as nações se unindo e essas colaborações acontecendo de forma orgânica”, comenta o Negrão. E é também através do audiovisual, levando o espectador para comunidades tão distintas, mas ao mesmo tempo tão semelhantes no empenho por mudanças, que ele espera ajudar a ecoar ainda mais tais vozes. “Nunca houve um momento tão propício. A informação está rolando e essa nova geração sabe que precisa fazer algo A respeito”, completa.

Centenas de cineastas e artistas brasileiros e de outros países lotaram a sala do cinema Harmony Gold, em Los Angeles, para prestigiar a exibição de “Child of Nature” como parte do LABRFF. Para a cofundadora do festival, Meire Fernandes, o filme foi escolhido por promover discussões sobre o comportamento do ser humano e a situação da sociedade. “Eu acho que muitas pessoas estão em um buraco tão profundo de egoísmo e falta de autoconhecimento e a mensagem desse filme pode ser muito tocante e inspiradora”, sugere.

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O LABRFF – Festival de Cinema Brasileiro de Los Angeles – foi fundado em 2008 e já exibiu mais de 680 títulos. Sem recursos públicos, o projeto ganha vida através de economia criativa, permutas e com a ajuda de apoiadores financeiros. Meire avalia que as produções nacionais passaram a ser mais valorizadas e ganharam novas oportunidades no mercado nos últimos 12 anos. “Antes você via filmes sendo feitos no Brasil, mas que acabavam não  tendo muita distribuição. Isso está  mudando bastante com as opções de streaming”, afirma.

Além de se tornar uma vitrine para produções brasileiras em Hollywood, o LABRFF já premiou mais de 250 profissionais. O evento, que já homenageou as carreiras de artistas como Tuna Dwek e José de Abreu, este ano homenageou a atriz Marcélia Cartaxo. A paraibana acumula quatro Candangos no Festival de Brasília e outros grandes prêmios, como o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim por “A Hora da Estrela” (1985) e o Kikito de Melhor Atriz, no Festival de Cinema de Gramado, pela interpretação de sua personagem em “Pacarrete”.