Há vinte anos, no rastro da onda ecológica provocada no país pela Rio-92, nascia, na Cidade de Goiás, o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), abrindo caminho para a inserção do debate sobre o meio ambiente na agenda cultural do país. O mundo apenas começava a colocar o tema na mesa das discussões econômicas e políticas. Nesta terça-feira, 5 de junho, ao ser aberto, o FICA descortina um cenário já bem diferente.

“O FICA é um festival internacional que, desde o início, se propõe a ser a vitrine das transformações no mundo, e o mundo mudou” – analisa o jornalista e ambientalista André Trigueiro. “O festival hoje não é mais, como já foi, protagonista de ideias pioneiras, que tentam dobrar o establishment e fazer a diferença. O FICA é a argamassa que sedimentou novas ideias. A história do FICA se confunde com a história do amadurecimento de novos modelos de negócios, de novos produtos, de novas tecnologias ambientais”.

Curador de conteúdo do FICA nesta edição, e um dos participantes pioneiros do festival, foi de André Trigueiro a ideia de se aproveitar a data redonda para um balanço do legado deixado ao longo do tempo. “Vinte anos é uma efeméride, é uma boa data pra ser puxar o extrato dessa semeadura”. E, para o jornalista, esse é um extrato recheado e altamente positivo, já que – ele crê – o FICA não apenas testemunhou a história da evolução ambiental no período, mas também foi protagonista dela.

“A colheita é fantástica! Ao abrir espaço, ao fomentar debates, oficinas, filmes que concorrem com essa temática, você está prestigiando um setor que começa a ser objeto de atenção, começa a ser levado a sério, começa a abrir caminho para as pessoas entenderem como as coisas acontecem lá fora e aqui no Brasil. Foi bonito ver como o FICA virou uma marca registrada, ficou carimbado no calendário cultural como um evento muito importante, o mais importante do Brasil na área do cinema ambiental”. Balanço

Ao fazer o balanço das transformações testemunhadas e protagonizadas pelo FICA, o curador se admira. “Olha só que loucura o que aconteceu de extraordinário em 20 anos, quando o assunto é meio ambiente. A gente teve o acordo do clima de Paris, o mais importante de todos os documentos que tentaram estabelecer as metas para a redução das emissões de gases estufa. A gente teve a Encíclica Laudato si, do Papa Francisco, a primeira ambiental da história da igreja. Nesse período, a gente começou a testemunhar – e isso é bonito de se ver – a multiplicação das ciclovias nas cidades brasileiras. E nós temos hoje mais de um milhão de carros elétricos puro sangue. Se falarmos dos híbridos são mais de 3 milhões. Há vinte anos, o plástico era um vilão do meio ambiente, mas hoje já estamos falando do microplástico que está sendo metabolizado nos ecossistemas marinhos!”

André relaciona também fatos negativos. “No período do FICA, a gente teve a maior tragédia ambiental da história do Brasil, que vem a ser a maior tragédia da história da humanidade envolvendo rejeito de minério, o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana (MG), que destruiu o Rio Doce”.

Na tela e fora dela Vinte e dois filmes de nove países concorrem aos R$ 280 mil em prêmios e troféus conferidos pelo 20º. FICA: sete longas-metragens, um média-metragem e 14 curtas-metragens, do Brasil (10 filmes), Portugal (3 filmes), Espanha e Itália (2 filmes, cada), Argentina, Irã, México, França/Suíça e Uruguai (1 filme, cada). O festival, promovido pela Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Goiás, vai até o próximo dia 10. Além da mostra competitiva tem nove mostras paralelas, incluindo uma retrospectiva com a exibição de filmes premiados em outras edições.

Fora da telona, o FICA também coloca o cinema e o meio ambiente em debate. A programação inclui fóruns sobre os dois temas. O de cinema, sob a consultoria do cineasta Walter Carvalho e da diretora de festivais Ilda Santiago, tem como foco a relação entre os sistemas analógico e digital no Brasil e o papel das mulheres no cinema. Estarão nas mesas os diretores José Luiz Villamarin e George Moura, as cineastas Laís Bodansky e Susana Lira e a atriz Bruna Linzmeyer.

O Fórum Ambiental , tendo André Trigueiro como mediador, coloca em debate os temas A Nova Energia, As Novas Cidades e A Nova Espiritualidade. Os debatedores convidados são o diretor do IMISCOE (International Migration, Integration and a Social Cohesion), Peter Scholten; a arquiteta Marcela Arruda; o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica, Rodrigo Sauaia; e a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica, Elbia Gannoum.

Comentários