Indicada ao Oscar de melhor animação em duas frentes, a de longas, com “Perdi meu corpo”, e a de curtas, com “Mémorable”, o cinema francês, feliz com os resultados de seus desenhos e experiências em stop-motion, quer agora ampliar o espaço (e o prestígio) de sua produção documental, e vê em “Le Regard de Charles”, de Marc di Domenico, uma opção perfeita para lotar circuitos. Um dos longas mais disputados por distribuidores internacionais na 22ª edição do Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, iniciado na quinta, o filme traz imagens inéditas do cantor Charles Aznavour (1924-2018), explorando sua trajetória de sucesso. Em 2017, ele veio ao Brasil para um par de shows, em em São Paulo, no Espaço das Américas, e no RJ, no Vivo Rio. Na ocasião, ele conversou com o JB sobre sua longeva aposta em hits como “Que C’est Triste Venise” e “Et Pourtant”.

“Desde os anos 1950, o meu repertório sempre foi uma mistura de canções sociais com músicas românticas, construído com a certeza de que você não pode impor um hit ao público: um sucesso se cria pelo gosto e pelo afeto das plateias. Com frequência, as minhas canções que melhor foram aceitas falam de romantismo, como “She” ou “Venecia Sin Ti”, que ainda funcionam mesmo depois de 50 anos de sua composição, por aquilo que retratam: a aposta no querer. A permanência dessas músicas prova que mesmo neste mundo cínico e materialista em que vivemos os sentimentos ainda são capazes de tocar as pessoas. Não há como fugir delas”, disse o cantor, que tem sua história de luta (contra o moralismo e contra questões política da Europa com a Armênia, terra de seus ancestrais) abordadas no .doc de Domenico. “Atuei em cerca de 80 filmes, em participações diversas, com destaque para ‘Atirem no pianista’, de meu eterno amigo Truffaut. Mas, na velhice, passei a recusar o cinema, pela dificuldade de memorizar diálogos. As canções já povoam a minha cabeça”.

Neste domingo, o Rendez-vous Avec Le Cinéma Français organizou uma homenagem para uma prata da casa, o diretor Olivier Assayas, que está lançando “Cuban Network” (“Wasp Network” no Brasil e no resto do mundo) nas telas de seu país. Ele esteve ao Brasil nos últimos dois anos para promover o projeto: uma coprodução com o brasileiro Rodrigo Teixeira e sua RT Features. Estrelado por Penélope Cruz, Ana de Armas, Edgard Ramírez, Gael García Bernal e Wagner Moura, o longa é baseado no livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, de Fernando Morais, com foco nos feitos de uma célula cubana de espionagem contra o anticastrismo nos EUA. O longa vai para a grade da Netflix. “Editei textos de Olivier durante muito tempo, quando nós trabalhamos na revista ‘Cahiers du Cinéma’ e, em sua produção analítica, já era possível sentir o espírito de realizador que deu a ele notoriedade internacional a partir da minissérie ‘Carlos’, em 2010”, disse Serge Toubiana, o diretor da Unifrance, que organiza o evento. “Tenho uma sensação de que o prestígio dele lá fora é ainda maior do que a boa reputação de que desfruta aqui, por sua mirada cosmopolita sobre a contemporaneidade”.

Durante um papo com o JB, Assayas afirmou: “Estamos vivendo tempos obscurantistas em que se cultua a falta de reflexão, inclusive no cinema”, disse o realizador. “Estamos cercados por um populismo político barateador que difunde um certo desprezo à intelectualidade, ao ritual de se conversar sobre aquilo que lemos e que vemos, como se fazia nos tempos de maior prestígio da crítica e do cinema de autor. Refletir virou um verbo careta para uma sociedade que quer gratificações imediatas e diversão sem qualquer indigestão moral. Como isso temos uma massa cada vez mais deseducada de um lado e, do outro, uma massa que reage, armando-se de um sólido ferramental literário e ensaístico, mas se isola em seu saber e sua arrogância. Escrevem-se muitos e-mails, mas poucos refletem sobre o que se escreve. Vale o mesmo para o consumo desenfreado de imagens”.

Nesta segunda-feira o Rendez-vous da Unifrance chega ao fim, promovendo longas que podem lotar salas nos próximos meses, como “De Gaulle”, com Lambert Wilson na pele do estadista.

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