Filmes em realidade virtual ainda são de difícil acesso, quase restritos a festivais

Não é exatamente fácil ser cinéfilo de realidade virtual. Passar mais de duas horas numa sala de cinema vendo um filme em tela plana é trivial. O mesmo tempo usando óculos de VR, porém, deixa qualquer um zonzo.

Mas mesmo se o objetivo for ficar grogue, o espectador enfrenta outro entrave: o acesso a esses títulos. Essa nova linguagem, porém, começa a frequentar os festivais  de cinema.

A Mostra de Cinema de São Paulo traz neste ano 19 curtas em realidade virtual, que serão exibidos gratuitamente no Cinesesc até 30 de outubro. Deles, cinco rodarão em itinerâncias pelos CEUs.

O destaque é para “A Linha”, de Ricardo Laganaro, premiado em setembro no Festival de Veneza. A animação, originalmente em inglês, é narrada por Rodrigo Santoro e conta uma história de amor que se passa em São Paulo nos anos 1940. A versão em português, ainda inédita, é narrada pela atriz Simone Kliass, a voz oficial do aeroporto de Guarulhos.

O outro 100% nacional da lista é “Fogo na Floresta”, de Tadeu Jungle, narrado por Fernanda Torres, colunista da Folha. O documentário em 360° acompanha uma aldeia indígena no Mato Grosso.

Há ainda mais um brasileiro, “Crianças Não Brincam de Guerra”, coprodução com Uganda e Estados Unidos. O filme em 360° é narrado em inglês, apesar de ser dirigido pelo brasileiro Fabiano Mixo, e conta a história de uma menina em meio à guerra em Uganda.

A animação com traços de game “Um Outro Sonho” traz a história de um casal lésbico que foge do Egito. “Ayahuasca” tenta reproduzir a experiência de tomar o chá do título. Em “11.11.18”, o espectador se torna um soldado em uma trincheira da Primeira Guerra. “Gymnasia” tenta assustar o espectador com bonecões horripilantes. No otimista “Segundo Passo”, o espectador embarca em uma missão espacial e finca uma bandeira das Nações Unidas em Marte.

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Há também infantis, como o chinês “Shennong: O Gosto da Ilusão”, releitura de uma lenda —spoiler: em determinado momento, o protagonista parece virar um super saiyajin.

A Mostra é uma das poucas oportunidades de assistir a esse tipo de conteúdo. “Aqui no Brasil, os festivais de cinema já estão abrindo uma programação especial para VR, só que ele fica restrito a um evento”, diz Rodrigo Terra, do estúdio Árvore, que desenvolveu “A Linha”.

“Depois de um grande festival, é muito difícil distribuir esse conteúdo porque a gente não tem espaços suficientes de realidade virtual. Aqui no Brasil tem menos ainda”, diz Terra, que também é membro do conselho consultivo da XRBR, entidade brasileira que reúne profissionais dessa área.

O mercado e a linguagem são novos, ao ponto de que não há nem sequer um nome bem definido para os espaços de exibição de realidade virtual. Terra menciona designações como “arcade”, “arena” e até “parque de diversões”. Esses espaços acabam se aproximando da indústria de videogames e afastando um público mais interessado em filmes “de arte”.

E por se tratar de uma seara nova, a realidade virtual ainda tenta encontrar uma identidade própria, de forma que a imersão e a interatividade sejam protagonistas da narrativa. A questão é evitar que só se transponha uma obra —que possivelmente funciona melhor em tela plana— para o VR.

Outro desafio é a língua. Na Mostra, só dois dos 19 filmes são em português. Em alguns, fala-se mais de um idioma estrangeiro. Se o estranhamento pelo idioma não for um objetivo consciente da narrativa, como oferecer esse conteúdo em VR para espectadores que não falam a língua da obra?

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Para Terra, “ainda não se encontrou o melhor formato para trabalhar uma tradução” e que, em VR, “a legenda mais piora do que melhora o entendimento”. Além disso, se o objetivo é a imersão, ter uma porção de letrinhas em Helvetica Bold 12 voando na sua frente pode comprometer a sensação de “realidade”.

Mas se o cursinho online de inglês não está dando resultado, não há motivo para desespero. Na Mostra, há filmes em que a linguagem falada não é central para o entendimento.

Em “11.11.18”, são vários os idiomas, o que pode deixar o espectador confuso —mas provavelmente era como um soldado se sentia numa trincheira repleta de tropas de nacionalidades diferentes. Em “Shennong”, o que importa é a linguagem verbal dos personagens.

Por outro lado, “Um Outro Sonho” tem depoimentos de duas egípcias falando inglês com um sotaque carregado, o que pode dificultar o entendimento mesmo de quem conhece o idioma. Quem não está acostumado com o sotaque ugandês pode encontrar o mesmo desafio em “Crianças não Brincam de Guerra”.

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