Recentemente, estreou na Amazon Prime Video a mais nova série original do serviço, Hunters, estrelada por Al Pacino, Logan Lerman, Jerrika Hinton, Josh Radnor, Kate Mulvany, Tiffany Boone, Louis Ozawa Changchien, Carol Kane, Saul Rubinek, Dylan Baker e Lena Olin, e produzida por Jordan Peele. Na trama, o judeu Meyer Offerman recruta o jovem Jonas para um grupo secreto cujo propósito maior é assassinar judeus escondidos nos Estados Unidos.

Apenas lendo este primeiro parágrafo, vários fatores já podem chamar atenção para que possamos ter um compreendimento sobre a razão pelas quais a série chamou tanta atenção, antes mesmo de seu lançamento. A presença do lendário Al Pacino; a temática ao estilo de Bastardos Inglórios; a produção de um dos maiores nomes atuais do cinema quando se fala de thrillers sociais… a lista é longa.

No entanto, é preciso considerar também que o peso da temática também traz uma necessária delicadeza na tratativa. O Holocausto não é um assunto qualquer e merece ser tratado com todos os cuidados possíveis, não apenas em respeito às suas milhões de vítimas, como também para que a narrativa não acabe se transformando em uma espécie de incentivo a pensamentos potencialmente perigosos.

No meio disso, surgiu a maior polêmica até então a respeito da produção da Amazon: o quanto a liberdade artística pode ser usada como justificativa para alterar fatos históricos tão importantes? E dentro disso tudo, quais são as verdades e quais são as invenções realizadas em prol de um caráter ficcional? Vamos tentar responder esta pergunta.

Embora Hunters use e abuse de certas liberdades para conseguir obter os resultados necessários, muitos elementos usados ao longo da série partem de premissas reais aplicadas dentro de uma realidade conspiracionista. Na década de 70, por exemplo, realmente comprovou-se a existência de grupos isolados com o intuito de desmantelar nazistas e fazer justiça com as próprias mãos, principalmente mediante a uma “vista grossa” que não foi inventada pela série. 

Alguns “caçadores de nazistas” realmente foram revelados apenas décadas depois disso. O escritor Simon Wiesenthal, por exemplo, passou anos reunindo provas contra criminosos que nunca sofreram o peso das leis. Foi por causa dele que alguns dos oficiais mais famosos e temidos dos campos de concentração foram finalmente incriminados. Outro exemplo prático é o do casal Beate e Serge Klarsfeld, que provavelmente inspirou os simpáticos e letais Murray. O par foi preso várias vezes por agressão e também ajudou a encarcerar diversos nazistas. Estes são apenas alguns dos conhecidos pela história, mas caso os caçadores tenham sido bem sucedidos, isso significa que eles nunca foram presos, não é mesmo?

Como você provavelmente sabe, não se tem notícias de que grandes grupos nazistas tentaram envenenar toda a população mundial na década de 70. No entanto, tentativas similares não são irreais, visto que em 1945 os soldados britânicos encontraram nos bunkers da Alemanha algumas toneladas de Tabun, uma substância tóxica capaz de matar em minutos. Descobriu-se depois que haviam planos de liberar o composto no solo, e ele foi classificado como uma arma de destruição em massa. 

Já a Operação Paperclip também foi real e acobertou a vinda de mais de 1.600 nazistas aos Estados Unidos apenas para impedir que a União Soviética tivesse acesso a algumas das “mentes brilhantes” por trás de áreas como medicina, propaganda e ciência espacial. Quando a operação veio à tona, alguns nomes começaram a surgir, dando ainda mais evidências de seu absurdo. 

Arthur Rudolph, responsável por liderar o lançamento do Saturno V ao espaço, matou mais de 20 mil judeus; Hubertus Strughold, conhecido como “o pai da medicina espacial” fazia experimentos constantes com prisioneiros em Auschwitz, causando a morte de centenas deles; Wernher von Braun, que aparece em Hunters, realmente foi um dos pioneiros no pouso à Lua em 1969, mas para isso causou a morte de 60 mil pessoas com mão de obra escrava. A lista, infelizmente, não é curta.

Este é um dos pontos mais complicados e sensíveis até agora. Obras que alteram a história em prol da liberdade poética, como Bastardos Inglórios, receberam opiniões contundentes de organizações relacionadas ao Holocausto, e com Hunters não foi diferente. Experiências médicas macabras feitas em crianças, ou envolvendo mudanças de temperatura, resistência a água do mar e dissecação gêmeos univetelinos são apenas alguns dos exemplos reais conduzidas por doutores que infelizmente ficaram marcados na história. Mas nem tudo é por aí. 

Cenas como as do xadrez humano, por exemplo, foram reprovadas pelo Museu de Auschwitz, que até emitiu uma nota: “Inventar um jogo falso de xadrez humano não é apenas uma tolice perigosa e uma caricatura. Também acolhe futuros negacionistas. Nós honramos as vítimas preservando a precisão factual”. Então, por mais estranho que pareça, as maiores imprecisões da série da Amazon ocorrem justamente quando são mostradas as coisas que aconteceram nos campos de concentração. 

Oficialmente, Adolf Hitler morreu em 30 de abril de 1945, na Alemanha, Berlim. Mas a teoria de que ele na verdade forjou sua própria morte e fugiu para a Argentina com sua família é bastante difundida até hoje, por mais que não tenham sido apresentadas muitas provas concretas. Jornalistas renomados e até alguns documentos recebidos pelo FBI apontam para este indício, que já chegou a ser investigado, mas sem muito resultado. 

As maiores teorias apontam que ele teria ido em um submarino alemão para a América do Sul e construído refúgio por aqui. Entre familiares e militares do Terceiro Reich, cerca de 50 pessoas acompanharam Adolf e, dentro da linha narrativa da série, foi a partir daí que começou a tentativa de instaurar um Quarto Reich, fazendo-nos chegar ao ponto atual do fim da primeira temporada. Agora é esperar pela segunda!

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