Itaú Cultural disponibiliza obras pouco badaladas de Eduardo Coutinho

Reflita sobre a história do cinema documental brasileiro. Pronto? Bom, em algum momento você irá se deparar – não é possível – com o nome de Eduardo Coutinho (1933-2014). Também pudera, não é mesmo? Ele dirigiu clássicos do calibre de “Cabra Marcado Para Morrer”, longa-metragem que teve suas filmagens interrompidas após o golpe de 1964 e lançado apenas na década de 1980. É uma das obras mais importantes do audiovisual brasileiro.

Nascido em 1933 na cidade de São Paulo, Coutinho começou a carreira como revisor da revista Visão e integrou o Seminário de Cinema do Museu de Arte Moderna de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp/SP). Anos depois, no início da década de 1960, conseguiu bolsa de estudos e foi para a França aprender mais sobre a sétima arte no Hautes Étuds Cinématographiques (Idhec), um dos mais importantes do mundo.

Claro que um cara desses era – no mínimo – apaixonado por audiovisual. E, como estamos careca de saber, nunca escondeu seu amor pelo cinema em vida. “Gostaria de poder dizer que o cinema é a minha vida e sem filmar não consigo viver, mas o certo talvez seja que filmo a vida dos outros porque a minha não tem a melhor graça”, dizia o documentarista, em tom de humor.

Para termos uma ideia, a importância de Coutinho para o cinema documental brasileiro levou o Itaú Cultural a organizar uma exposição sobre a originalidade de sua obra. Em meio a anotações, escritos de diversos tipos e roteiros de autoria dele, a instituição teve um estalo: por que não disponibilizar para o público os filmes menos badalados da carreira do diretor? E não é que foi isso mesmo que aconteceu?

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Até o dia 20 de outubro, o site do Itaú Cultural liberou acesso a três obras que não possuem tanta badalações entre os filmes realizados por Coutinho. As obras que podem ser vistas pelo público são “Porrada”, de 2000, que fala sobre os 50 anos da televisão no Brasil. Além disso, estará disponível “O Jogo da Dívida: Quem Deve a Quem?”, lançado em 1989, sobre a dívida externa da América Latina. E, por fim, “Os Romeiros do Padre Cícero, de 1994, que retrata o patriarca de Juazeiro do Norte (CE).

Sempre bastante próximo do entrevistado, o critério de escolha de Coutinho passa pela questão da distância – ou da alteridade: todos seus entrevistados lhe parecem diferentes, seja pela classe, sexo, idade. Era uma estratégia para se colocar no lugar do outro em pensamento, mas sem menosprezar as discrepâncias entre os que estão nos dois lados da câmera.

Com “Jogo de Cena”, de 2007, o cineasta dá o pontapé a uma fase reflexiva, filmada toda em espaços cênicos, tais como teatro e galpões de ensaio. As entrevistas são feitas com mulheres que respondem a um anúncio publicado em jornais, e são montadas ao lado da fala das atrizes Fernanda Torres, Marília Pêra (1943-2015) e Andréa Beltrão, que podem contar histórias próprias ou interpretar cenicamente outras histórias.

Último longa de Coutinho, “Últimas Conversas” radicaliza esse processo: “O filme pode simplesmente não dar certo, os dispositivos postos em prática podem falhar, os personagens podem falar mal. O cinema de Coutinho é infinitamente maleável e está sob o risco constante de se desmanchar”, analisa o cineasta João Moreira Salles, que foi o responsável ao lado de Jordana Berg por finalizar o longa, em 2015.

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