Se há um gênero generoso no cinema, ele é justamente o que nos faz rir. Isso porque não existe somente a comédia pura, crua. Ela vai se ramificando e alcançando quase todos os outros gêneros. Assim, existe a comédia romântica e também o terrir; a comédia dramática, a de sátira com suas críticas afiadas e a pastelão. Também há a comédia de situação (que extrai humor do dia-a-dia) e a de constrangimento. Há ainda as comédias de costumes, de personagem, vaudeville, a farsa e a clássica Commedia Dell’Arte. E existem mais… É tanta diversidade que construir uma lista curta com o intuito de atender a tudo acaba sendo totalmente impossível.

De todo modo, vale repetir o que tenho tentado deixar claro desde minha primeira lista: As expectativas raramente são benéficas quando se trata de cinema. Há, sempre, a necessidade se deixar levar por uma obra para que ela tenha a oportunidade de provar o seu valor. Preconceber julgamentos antes de ter contato real com o objeto pode ser um gesto que venha a desmerecer ou enaltecer o que, a partir de uma visão neutra, não passaria de merecedor de opiniões medianas, mornas.

É verdade que, para um julgamento crítico, é interessante que se faça o possível para que gostos pessoais não maculem o todo, mas jamais se pode deixar de lado o que se é. Se nos abrirmos para uma completa neutralidade, podemos nos tornar um tanto quanto robóticos e, no final das contas, acabamos criando a noção errada de que cinema – como arte que é – pode ser algo exato, quando, na verdade, é bem subjetivo.

Pensando nisso, criei uma lista que, sem a menor pretensão de ser exata, definitiva ou qualquer coisa do tipo, serve como indicação para quem não assistiu aos filmes ou para quem gostaria de reassisti-los. Para mim, é óbvio que, dentro do catálogo da Netflix, podem ser encontrados outros tão bons quanto ou até objetivamente e particularmente melhores. A comédia deve ser o gênero mais bem disseminado pela provedora de streaming.

Dentro dessa abordagem sem verdades absolutas, vamos à lista dos 5 melhores filmes de drama disponíveis na Netflix (e mais um bocado de menções honrosas) – a pedidos do leitor Rubens (que infelizmente não tenho o sobrenome), os títulos originais dos filmes passam a fazer parte das minhas listas (entre parênteses, ao lado do nacional) quando forem diferentes dos adotados por aqui:

A comédia nonsense teve um auge entre a década de 1980 e o início dos anos 1990. Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu (1980), Corra que a Polícia Vem Aí! (1988), Top Gang! Ases Muito Loucos (1991)… são tantas e de tanta qualidade no fazer rir – para quem consegue embarcar no subgênero, claro – que é bem complicado comentar sobre indicações de comédias sem visitar esse período. Loucademia de Polícia é um representante dessa era. Mas não somente. O filme gerou seis sequências, com Loucademia de Polícia 7: Missão Moscou sendo o último. É inusitado, é sem noção, é escrachado e até tem toques de sátira… e deve fazer quem nunca assistiu querer acompanhar a história do grupo de desajustados de bom coração que entram para a academia de polícia para tentar a vida como policiais. Dá certo? Para eles (os personagens) só assistindo. Para o público, é só conseguir se entregar às maluquices.

Poderia nem estar na lista. É possível que, para muitos, nem nas menções honrosas estivesse presente, mas, de um modo muito ingênuo, é das comédias mais divertidas e prazerosas que já pude assistir. Para além de contar a história de uma cantora mundana que se esconde da máfia em um convento, a direção de Emile Ardolino, que tinha no currículo o clássico Dirty Dancing: Ritmo Quente (1987), é tão precisa em suas escolhas de planos que torna tudo mais rico. Com o ritmo em total controle, não é difícil comprar a história absurda, as tiradas das freiras (especialmente as situações da Irmã Mary Patrick – a sempre carismática Kathy Najimy) e as atuações tão acertadas de Maggie Smith, Harvey Keitel e, claro, Whoopi Goldberg.

Seria praticamente um crime não colocar Monty Phyton aqui na lista. […] Em Busca do Cálice Sagrado é daqueles filmes que, se você está com disposição para se entregar e comprar a ideia dos Cavaleiros que dizem Ni, pescando as referências do humor cru e ao mesmo tempo refinado da trupe, é uma obra-prima incontestável.

O cinema argentino tem produzido filmes relevantes ano após ano (desde muito tempo). E, felizmente, não está restrito a Ricardo Darín. O ator, que encabeçou aquele que, para muitos (entre os quais me incluo), é o melhor filme do seu país em muitos anos (O Segredo dos Seus Olhos, de 2009) e é sinônimo de talento e, acima de tudo, competência, parece ter “somente” aberto alas em um novo período para nossos hermanos. Se, em 1986, A História Oficial (1985) já havia recebido um Oscar, foi com a mais fácil difusão das produções (especialmente com o advento da internet e, mais recentemente, dos streamings) que houve uma merecida repercussão e grande reconhecimento público.

O Cidadão Ilustre trata de inspiração e criação como poucos filmes conseguem. De uma sutileza sem tamanho ao tratar o comportamento de um escritor com muito humor, o filme ainda consegue revelar os abismos culturais que cercam nossas vidas… ainda mais em um mundo globalizado. No fim, a maneira como discorre sobre as diferenças entre realidade e ficção é das mais originais do cinema e, se fosse somente esse encerramento, ainda assim mereceria ser visto.

Um dos maiores clássicos cults da comédia, Curtindo a Vida Adoidado fala de tantas dores adolescentes e de uma forma tão doce sobre a vida que, não por menos, é lembrado em praticamente qualquer lista, referenciado constantemente (até por Deadpool) e quebra a quarta parede como poucos. Eu, que já tentei fugir dele na lista de filmes cults disponíveis na Netflix, não consegui segurar aqui. É um filme que resiste e resistirá por gerações porque, acima de tudo, como disse Roger Ebert, tem o coração no lugar certo.

As menções a seguir também são em tom de indicação. Elas poderiam estar na lista principal e vice-versa. E outros poderiam compor tudo aqui como dito. Enfim. Lá vão:Minha Obra-Prima (Mi obra maestra): Arturo é um negociante de arte inescrupuloso e Renzo seu pintor socialmente desajeitado e amigo de longa data. Dispostos a arriscar tudo, desenvolvem um plano extremo e ridículo para se salvarem. A sinopse oficial já me conquista. E é do mesmo diretor (Gastón Duprat) de O Cidadão Ilustre, então…Monty Python – O Sentido da Vida (The Meaning of Life): Por motivos de Monty Python.Divertida Mente (Inside Out): Obra-prima? Para mim, sim. Para muita gente (público e crítica) também. É uma aula de linguagem e, ao mesmo tento, é dos trabalhos mais sensíveis da Disney/Pixar.Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers): Porque é das comédias de aventura mais incríveis do cinema.A Grande Aposta (The Big Short): Comédia ácida? Drama sobre corrupção? Ou ambos? A velocidade da linguagem do diretor Adam McKey fala alto aqui. E vale a pena.Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters): Porque a produção milionária não afundou a comédia ingênua e original. Já um clássico. “Ghostbusters!”Um Príncipe em Nova York (Coming to America): Porque é da época que Eddie Murphy era uma grande estrela e seus filmes, como esse aqui, eram sempre divertidos.O Máskara (The Mask): Porque “Isso é demais!”A Nova Onda do Imperador (The Emperor’s New Groove): Porque é das animações mais divertidas da Disney e é pouquíssimo comentada. E porque a dublagem do Selton Mello é fantástica!Abracadabra (Hocus Pocus): Bette Midler bruxa? Quero! Kathy Najimy novamente? Quero!Johnny English: Por motivos de Rowan Atkinson fazendo Mr. Bean e Mr. Bean fazendo um agente secreto.Toc Toc: Porque ver portadores do transtorno obsessivo-compulsivo sendo tratados com leveza e – por causa dessa leveza – com respeito rende as risadas mais empáticas da lista.As Travessuras de uma Sereia (Mei ren yu): Porque é um dos filmes mais bizarros do catálogo da Netflix. E as bizarrices podem ser muito engraçadas. Ah! E tem mensagem bem bacana também. Mas as bizarrices vencem… e pode valer a pena.Irmãos Gêmeos (Twins): Arnold Schwarzenegger e Danny DeVito como irmãos gêmeos. Ponto.Disney/Pixar: Praticamente qualquer animação produzida pelas duas empresas em conjunto vale a pena. Talvez uma das exceções seja Carros 2, que nem está na Netflix.

Repleto de diálogos realistas e, ao mesmo tempo, estranhos, Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe é de uma precisão cirúrgica na concepção da relação entre um pai e seus filhos. Muito bem alicerçado nas atuações de Dustin Hoffmann (Harold), Ben Stiller (Matthew) e Adam Sandler (Danny), o diretor e roteirista Noah Baumbach (indicado ao Oscar pelo roteiro de A Lula e a Baleia, em 2006) fundamenta um filme cheio de humanidade, capaz de causar confusão, felicidade, acessos de raiva… sempre de uma maneira muito genuína e por meio da criação de sintonia entre filme e espectador.

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe é, também, uma prova dupla: para os fãs e para os não-adeptos da carreira de Adam Sandler. Aqui, eles podem encontrar o ator em uma das suas atuações mais relevantes (ao lado de Reine Sobre Mim e Embriagado de Amor), tanto que o ator, merecidamente, foi ovacionado no Festival de Cannes. Apesar do humor meio amargo do personagem coincidir com muito do que Sandler já fez, há detalhes que o levam muito além, são camadas e mais camadas de um homem que jamais desistiu de ser feliz, mas, mesmo assim, sente-se fracassado.

Foi uma dor tirar filmes da lista – e até passei da minha meta de no máximo 10 menções –, mas tenho certeza que você vai conseguir complementar e enriquecer tudo o que está aí.

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