RIO — As reações ao fechamento do Ponto Cine, anunciado terça-feira passada, têm surpreendido Adailton Medeiros, o administrador do cinema que há 12 anos exibe filmes brasileiros em Guadalupe, além de trazer debates com cineastas e artistas consagrados. Algumas mensagens de solidariedade que inundaram as redes sociais até o fizeram chorar. São histórias que relembram como o espaço ajudou a formar o gosto pela sétima arte num público que, de outra forma, dificilmente teria acesso à filmografia nacional — ou de qualquer país.

— Estou tendo altos e baixos, é uma reação muito emocional. O Ponto Cine era meu projeto de vida — emociona-se Medeiros no hall de entrada do cinema, agora fechado ao público, entre cartazes de filmes brasileiros que já passaram por ali.

Mas há esperança no horizonte. Um projeto de lei protocolado semana passada na Assembleia Legislativa quer transformar o Ponto Cine em Patrimônio Cultural e Histórico do Estado, conforme noticiado ontem na coluna de Marina Caruso. Além disso, a repercussão sensibilizou possíveis patrocinadores, que, segundo Medeiros, já iniciaram conversas para ressuscitar o empreendimento. A Secretaria de Cultura de Niterói fez até um convite para Medeiros abrir uma filial do cinema na cidade, e a proposta está sendo analisada.

— A questão é que é preciso manter a proposta do Ponto Cine, que é formar público num local que não seja um polo cultural, com ingressos a preços populares. Você já viu uma criança vendo um filme no cinema pela primeira vez? É sempre a mesma coisa, ela faz assim, ó… — descreve Medeiros, inclinando-se na cadeira com os olhos arregalados e ficando segundos em silêncio.

A dificuldade de manter os patrocínios foi o que levou o Ponto Cine à derrocada. O valor dos ingressos não era suficiente para compensar os custos do cinema, que ainda conseguia se manter com pernas bambas por meio de projetos paralelos, como oficinas para jovens. Mas a crise chegou num ponto crítico demais.

A violência em Guadalupe, claro, não contribuiu para o panorama. Nos últimos tempos, Medeiros testemunhou moradores desenvolverem síndrome de pânico. Há um ano, uma bala perdida entrou pela janela de seu escritório, localizado no segundo andar do cinema. Atravessou a porta e perfurou a parede do corredor. Por pouco ninguém se feriu: o coordenador de produção do cinema, Thiago Sales, tinha estado no ambiente minutos antes. Até hoje há uma “sensação esquisita” ao apontar as marcas deixadas pela bala.

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