O Olhar de Cinema tem uma vocação para apresentar filmes pouco convencionais e mais arriscados, e ainda manter uma pluralidade de estilos e estéticas. Mesmo assim é possível aproximar alguns desses filmes cuja proposição e feitura de um nos faz pensar no outro. Dois desses corpos estranhos, vistos aqui em sequencia, podem se aplicar a essa ideia. São eles o drama “Nossa Casa”, primeiro filme da realizadora japonesa Yui Kiyohara, e “DRVO – A Árvore”, do cineasta português André Gil Mata, mas filmado na Bósnia.

Ambos os filmes guardam sua parcela de mistério e convocam o engajamento do espectador na medida em que suas tramas não têm a intenção de ficarem tão claras em um primeiro momento – e talvez nunca se revelem integralmente até o fim do filme. Mas nesse jogo de imagens turvas, um desses filmes consegue resultados mais satisfatórios, como se respondesse ao outro de algum modo.

O longa japonês é repartido em dois tempos: acompanhamos a relação de uma garota com sua mãe, cada vez mais distante enquanto ela mesma começa a crescer, e, em outro polo, uma mulher perde a memória e é acolhida por outra mais jovem em sua casa. Esse espaço da casa parece ser o elo que une as duas narrativas.

A diretora lança um olhar muito carinhoso e singelo sobre seus personagens, filma com leveza, mas essa aparente doçura não esconde os conflitos e tormentos que perseguem os personagens. Muito menos deixa de lado um verdadeiro fascínio que tem pelos segredos e mistérios de cada um, sempre a deixar no ar muito do que se passa na tela, sempre a partir de insinuações e nunca como revelação.

O filme tenta com muito esforço estar sempre nesse lugar de suspensão das verdades na medida em que não apresenta pudor nenhum em interrompe a narrativa quando se imagina que algo de revelador possa acontecer – e será assim até o exato minuto final. É uma proposição que não deixa de ser curiosa, mas coloca o espectador sempre atrás do filme, sempre em posição de retração uma vez que o filme parece limar qualquer tipo de aproximação mais afetiva com aquelas imagens.

Movimento similar de pouca transparência – e muito mais de sensorialidade – acontece também em “DRVO – A Árvore”, mas com resultados mais palpáveis. É importante dizer que o realizador português fez esse filme a partir de uma experiência de aproximação com o cineasta húngaro Béla Tarr e isso é evidente quando se assiste ao filme.

A mise-en-scène rígida do cinema de Tarr é uma onipresença aqui. O filme é todo construído a partir de longuíssimos planos-sequência, um tempo muito lento e pausado, quase nenhum diálogo; o ritmo de uma vida cotidiana, mesmo que estejamos aqui presenciando uma situação incomum. Numa região inóspita de Sarajevo, em meio a uma floresta coberta de neve, na calada da noite, um velho e um garoto parecem buscar refúgio enquanto um prenúncio de guerra é ouvido ao fundo.

É possível mesmo colocar em questão até que ponto o filme não acaba sendo um puro exercício de estilo que quer, antes de mais nada, emular uma estética muito pessoal que pertence a outro cineasta, visto que o diretor português parece deixar muito claro essa filiação. Por outro lado, existe uma concentração genuína naquele fio de trama que se densenrola na tela, como algo que o realizador quer contar, angariando a atenção do espectador fisgado tanto pela beleza plástica das imagens e também pelo mistério que elas encerram.

Há também uma espécie de recompensa que, de certa forma, dimensiona o filme: a trama ganha mais sustentação quando os dois personagens se encontram e mantêm um diálogo, mesmo que isso aconteça já perto do final do filme. As coisas não vão ficar totalmente claras a partir disso. No entanto, o filme joga luz sobre aquela situação e sobre um possível jogo de duplicidades, oferecendo ao espectador pistas com as quais é possível trabalhar, em especial uma série de signos ali presentes – a árvore como símbolo de resistência e abrigo sendo o mais forte.

Nesse sentido, o filme continua apostando no mistério das situações e no que realmente motiva os personagens em sua peregrinação, mas não abandona o espectador nem lhe afasta como acontece em “Nossa Casa”. É quando esse tipo de filme se torna um convite para adentrar um universo muito particular, formado a partir da subjetividade do realizador a partir de determinadas circunstâncias, com a finalidade de ser também um mergulho aprazível por entre imagens que guardam muito de sensitivo.

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