Na Avenida Goioerê, a fachada vermelha com letreiro luminoso ostenta uma raridade que ainda não foi adquirida por nenhum grupo religioso nem se rendeu às tentações de baixar as portas e debandar para dentro de um shopping center. Em extinção nas cidades de pequeno e grande portes, o cinema de rua resiste, bravamente, na região central de Campo Mourão.

Entre 1º de janeiro e 31 de março de 2018, mais de 9 mil pessoas passaram pelo CinemaXs para conferir um dos 10 títulos que estiveram em cartaz, gerando uma renda de mais de R$ 90 mil, de acordo com dados mais recentes do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual.

Entre as décadas de 70 e 90, a maioria das salas de cinema de rua foi adquirida por igrejas, que reaproveitavam o espaço arquitetônico para celebração de cultos. Os poucos cinemas restantes, lutando contra a TV, os VHS e DVD’s, e afetados pela alta do aluguéis, migraram para dentro de centro de compras, modificando, radicalmente, a rotina de quem estava interessado apenas em assistir a um filme.

De acordo com dados de 2015, dos 282 cinemas na cidade de São Paulo apenas 19 não estavam localizados dentro de shoppings. “Cinema de rua é outra coisa, é outra experiência. É muito raro ter um cinema, ainda mais de rua, numa cidade com cerca de 90 mil habitantes“, comenta Hélio da Graça, 56, empresário à frente do CinemaXs.

Em 1993, o então técnico agrícola Hélio da Graça assumiu um cinema que era administrado por seu patrão, um agropecuarista de Cianorte. Sem qualquer tipo de experiência na área, foi arrebatado pela profissão. “Foi uma grande paixão”, comenta.

Uma recente reforma na fachada, no mês passado, assustou os cinéfilos. Alguns, temerosos, pensaram que poderia ser o fim do cinema de rua. Resistindo bravamente à crise econômica, o CinemaXs deve abrir uma filial em agosto deste ano. Desta vez, com uma sala inserida dentro de um centro comercial, no Shopping Paraná.

O último filme em película rodado no CinemaXs foi a franquia “Os Vingadores: The Avengers”, em 2012. O filme também marcou a estreia do formato digital, radicalizando os bastidores da empresa. Em vez dos rolos de filme armazenados em latas, um portátil HD cinza. Em vez do barulho da máquina, o silêncio sepulcral do computador. Em vez do trabalho minucioso de inserir o rolo no projetor, trocando-o quando necessário, de repente, bastava apenas clicar um botão.

Toda a aura romântica de rodar um filme foi soterrada pelo avanço das tecnologias. E o cinema, para seguir, teve de se adaptar, ainda que nem todos reagissem bem à mudança. “O funcionário responsável pela projeção, que trabalhava há 11 anos com a gente, entrou em depressão”, lembra.

Em 2016, apenas 26% dos 350 municípios brasileiros, contendo de 50 a 100 mil moradores – faixa em que Campo Mourão está inserida – , tinham cinemas. O número representa uma queda de 9% com relação a 2007, quando 35% das cidades contavam com cinemas. Mesmo assim, o empresário é otimista e afirma que a internet e o Netflix não vão acabar com o seu cinema nostálgico cinema de rua.

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