Resistência audaciosa, 'Greta' tenta escapar da hipocrisia do país ao falar de desejo e solidão

Em tempos de fanatismo e fundamentalismo, um filme como “Greta”, de Armando Praça, soa como resistência audaciosa, uma bem-vinda provocação. E não era para ser assim. Porque o filme, em suma, fala de solidão e desejo, algo que toca, ou deveria tocar a todos.

O diretor cearense constrói o seu drama em cima da figura de Marco Nanini, ator excepcional que encarna Pedro, enfermeiro e admirador incondicional da atriz Greta Garbo.

O longa tem grandes similaridades com o cinema de Jacques Nolot, sobretudo no espetacular “Antes que Eu Me Esqueça” (2007), na ideia de corpo envelhecido e fora dos padrões de beleza, no desejo homossexual e na estética.

A companheira de Pedro, Daniela (Denise Weinberg), está com uma doença grave, terminal. Por isso, ele decide arrumar um lugar para ela no hospital onde trabalha, para ser bem tratada. Mas com o temor da solidão que virá, acaba levando um assassino ferido à sua casa.

A presença do assassino procurado pela polícia permite que ele libere ainda mais a sua intimidade. E com isso vem a aceitação do desejo por outro corpo masculino. Os pacientes que ele masturbava com culpa e constrangimento no hospital já não bastam. Agora ele finalmente podia amar outro homem.

Na adaptação da peça “Greta Garbo, Quem Diria, Foi Parar no Irajá”, escrita por Fernando Mello e encenada pela primeira vez em 1973, Armando Praça optou por adensar o drama, eliminando ou atenuando o escracho e a ironia da peça original.

Optou também pelo rigor na encenação e na direção, auxiliado pela adequada fotografia de Ivo Lopes Araujo, um dos maiores talentos do cinema contemporâneo, com seu pendor para o claro-escuro a Pedro Costa.

Há ainda uma curiosa coleção de detalhes. Por exemplo, em diversas cenas no hospital, principalmente no início, podemos ver homens se masturbando ao fundo. Os interiores são todos velhos, decadentes, como em uma cidade fantasma.

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Na Fortaleza incrivelmente escura do filme, salvo em poucas cenas ao ar livre durante o dia, o sexo é sempre homossexual e meio escondido, como se precisasse escapar da hipocrisia cada vez mais reinante neste país.

E temos ainda um dos momentos mais belos e inusitados do cinema brasileiro recente: Daniela cantando uma versão melancólica (o que parecia impossível) de “Bate Coração”, sucesso de Elba Ramalho.

“Greta” foi agraciado, no início de setembro, com o prêmio de melhor longa no Cine Ceará. Justíssimo. E de certo modo, é um prêmio também para esse estado que tem nos dado vários filmes acima da média nos últimos anos.

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