Santuário de Dulce dos Pobres na Bahia já foi templo do rock de Raul Seixas

Quando começar a
cerimônia de santificação
de
Dulce dos Pobres
, neste domingo, o prédio que abriga o santuário dedicado à
primeira santa
comprovadamente nascida no Brasil se reconectará à parte do seu passado. No edifício, localizado na região da Cidade Baixa, em
Salvador
, projetor e telão voltarão a concentrar as atenções, como nos tempos áureos do Cine Roma, estabelecimento para o qual a construção foi inicialmente projetada.

Um telão de 15 m² foi instalado para que os devotos de Santa Dulce assistam a transmissão ao vivo da celebração no Vaticano no mesmo espaço que, nos anos 1950e 1960, filmes de Mazzaropi e Bruce Lee dividiam a agenda com a cena do rock soteropolitana. O palco do cineteatro é considerado, curiosamente, um marco na trajetória do então vocalista da banda Raulzito e Os Panteras, Raul Seixas. Para ele, o local era “o templo do Rock” da Salvador da época.

O Cine Roma, que em novembro completaria 71 anos, surgiu por iniciativa do frei Hildebrando Kruthaup e da própria Irmã Dulce. Construído com doações, era um dos pilares do sustento financeiro do Círculo Operário da Bahia, que, com outros dois cinemas, revertia as bilheterias em caridade, segurança alimentar e atendimento médico para os trabalhadores da região.

Fechado por completo em 1983, o prédio passou a abrigar de modo ininterrupto atividades religiosas em 2011, com a fundação do Santuário da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, que era, até hoje, a santa de devoção do templo. Não mais. Na prática, baianos que nunca duvidaram da santidade do “anjo bom da Bahia” já se referiam ao local como Santuário de Irmã Dulce. Por volta das 7h30 deste domingo, um decreto será lido anunciando as mudanças.

Leia também  Presidente da Gramadotur se diz tranquilo com organização do Festival de Cinema

— Com a canonização, o bispo achou por bem, por motivos pastorais, trocar a padroeira titular do santuário. Passa a se chamar Santuário Arquidiocesano Santa Dulce dos Pobres, se tornando o primeiro do Brasil e do mundo dedicado à Irmã Dulce e a celebração de maior proporção da casa se torna dia 13 de agosto (em referência ao dia de ingresso de Irmã Dulce no convento)— explica o frei Giovanni Messias, reitor do santuário.

Na quinta-feira, a comunidade ainda tirava a poeira da obra que fechou o templo nos últimos dois meses para uma requalificação iniciada às pressas, assim que foi confirmada a canonização —a expectativa da coordenação das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) era para 2020 ou 2021.

— Este santuário está repleto de uma rica história. Aqui está o trabalho e o suor de Irmã Dulce, que, à frente do seu tempo, queria um espaço lúdico para o povo simples que não tinha acesso aos grandes cinemas. O lugar foi ressignificado, mas guarda a sensibilidade dela. Toda a estrutura é de cinema, o mezanino permanece, o altar teve pequenas modificações, mas ainda é facilmente identificado como cinema ou de teatro de rua antigo — conta o Frei.

A reforma serviu para resolver problemas acústicos e instalação de uma estrutura que comporta a climatização do ambiente, embora o reitor do santuário diz também esperar a “Providência Divina mandar um ar-condicionado”.

As Osid não sabem estimar quanto custou o reparo, pois o funcionamento da instituição ainda é movido pelo modelo iniciado por Santa Dulce: doações de materiais ou de mão de obra, principalmente por empresários do setor da construção, além de parceria com o poder público.

A prefeitura de Salvador também investiu: quer fomentar o turismo religioso com a criação do Caminho da Fé, um roteiro de peregrinação do memorial de Irmã Dulce até a tradicional Igreja do Senhor do Bonfim, a pouco mais de um quilômetro.

Leia também  Cinema: Casa Guilherme de Almeida realiza exibições gratuitas em junho

Foi justamente a restauração dos padrões arquitetônicos, influenciados pelo estilo art déco, que fez o sociólogo e professor universitário Juarez Bomfim, 60 anos, se reconectar com suas memórias da adolescência. De família humilde, ele recorda a ida ao vizinho Cine Roma para aprender novos golpes com filmes de Kung Fu, das sessões especiais anuais dedicadas à exibição de filmes sobre a Paixão de Cristo e da época já de declínio da sala, quando o Cine Roma se rendeu aos sucessos da pornochanchada.

— É uma grata surpresa ver o cinema da minha infância, com uma restauração muito bem feita, transformado no primeiro santuário de Santa Dulce, que frequentava a casa de meus pais. A primeira vez que o revisitei, já como aquele templo bonito, uma alegria me tocou.

Pesquisador do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (Cecult/UFRB), Armando Castro aponta que além da praia que margeia os bairros da península de Itapagipe — como também é conhecida a região — e das festas populares, era o Cine Roma que reduzia a carência de equipamentos culturais, servindo como ponto de encontro dos operários e da classe média da região.

Além da oficialização do Santuário, hoje a Arquidiocese de Salvador cria a primeira paróquia dedicada a Santa Dulce, no bairro do Saboeiro. Diferente dos santuários, que são independentes, a formação de uma paróquia depende de uma rede e segue regras.

A canonização abre caminho para que Irmã Dulce possa ser cultuada como titular de um templo. As Obras Sociais Irmã Dulce já registram mais de 60 igrejas espalhadas pelo Brasil que homenageiam a, até então, beata. Duas capelas ficam no Rio de Janeiro: uma em Madureira, na capital, e outra em Angra dos Reis.

Leia também  'Avatar': 4 sequências do filme de James Cameron têm títulos revelados

Em Salvador, a futura Paróquia de Santa Dulce dos Pobres, antes Capela Santíssima Trindade, foi resultado de um desmembramento de outra paróquia. Ela vai contar com sete comunidades, e ainda não tem um pároco definido.

Os comentários são de responsabilidade excluisiva de seus autores e não
representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de
uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é
impróprio ou ilegal

© 1996 – 2019. Todos direitos reservados a Editora Globo S/A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.