Uma cena que não estava no roteiro despertou reações ao videoclipe “Chora Boy”, de Clara Tannure. Aos 59 segundos, dois homens aparecem se beijando. “O pessoal alega que foi para afrontar, mas nunca tivemos essa intenção”, garante Clara. Ela conta que os rapazes são seus amigos, assim como as demais pessoas que contribuíram para a produção. 

De acordo com Clara, Fred e Daniel namoram e, durante a filmagem, espontaneamente se beijaram. “O diretor achou o gesto bonito e decidiu manter a cena. Namorados se beijam, não vejo nada de mais nisso, eles estão demonstrando carinho um pelo outro, quem se incomoda com o afeto é porque é preconceituoso”, aponta. 

Esta é apenas uma das polêmicas que passaram a cercar a vida da belo-horizontina nos últimos meses. Desde que decidiu trocar a música de louvor à eternidade pelo efêmero mundo pop, a revista de fofocas “Buxixo Gospel” a elegeu como alvo preferencial.

Clara aproveitou para dar o troco com sua música. Recheado de referências a Britney Spears, Lady Gaga e até ao filme “Garotas Malvadas”, o videoclipe de “Chora Boy” mostra a protagonista descartando a edição do tabloide que traz a sua foto na capa.

Noutro trecho, surge uma bota de píton. O caro modelito foi usado, em 2010, pela cantora e pastora Ana Paula Valadão, que chegou a justificar a aquisição do calçado como “um desejo de Deus”. A alfinetada gerou controvérsias. A exemplo de “Proibido o Carnaval”, com Daniela Mercury e Caetano Veloso, “Chora Boy” recebeu mais avaliações negativas do que positivas no YouTube.

“Fico chateada, mas me propus a dar a cara a tapa. Serviu para aumentar a visibilidade e trazer pessoas que apoiam a causa para o nosso lado. É bom para todo mundo ficar ciente que essa onda de conservadorismo e ódio que está rolando precisa ser combatida. Isso não tem nada a ver com o amor de Jesus Cristo e seus ensinamentos”, destaca. 

Clara e Ana Paula Valadão nem sempre estiveram em posições opostas. Num vídeo no YouTube, as duas podem ser vistas cantando juntas, quando Clara ainda era uma criança. Filha de pastores, a garota-prodígio virou estrela mirim ao participar do grupo Diante do Trono, um dos maiores no segmento gospel do Brasil, ligado à Igreja Batista da Lagoinha, sediada em BH.

“A galera pensa que foi uma transição do nada, mas, na verdade, ela foi bem lenta. Gravei o último DVD com o Diante do Trono aos 16 anos e fiquei um tempo tentando me encontrar”, salienta. Nesse período, Clara cursou as faculdades de publicidade e propaganda e design gráfico e trabalhou como atendente de telemarketing, caixa de bar e diagramadora. 

“Quando entrei na adolescência, essa exposição midiática que eu tinha desde cedo ficou incômoda, porque passei a ter posicionamentos fora do padrão da igreja e comecei a ser criticada. As pessoas são cruéis. Faço acompanhamento psicológico porque tive problemas de depressão e ansiedade, que são o grande mal do século”, observa. 

A mãe de Clara é a cantora e também pastora Helena Tannure. A brusca mudança de direção no caminho traçado pela família acabou afetando os dois lados. Nas redes, seguidores de Helena se dividiram entre ataques e pedidos para Clara retornar à igreja. Numa pizzaria, Clara e a mãe tiveram “uma conversa franca”, com lágrimas e declarações de amor.

“Ninguém quer decepcionar pai e mãe, não foi fácil para mim, e sei que também não foi para ela. A intenção não é causar mágoa, mas ser sincera em relação a quem eu sou”, diz Clara. “Tenho muito orgulho e admiração pela minha mãe, o que temos em comum é maior do que aquilo que nos afasta. Os valores que ela me transmitiu, como respeito, tolerância e amor ao próximo, são inegociáveis. Não preciso estar na igreja para fazer o bem”, completa. 

O caminho que Clara entendeu que deveria seguir foi o de “expor verdades”. Ela assumiu a bissexualidade, se declara “superfeminista” e defende a campanha “Free The Nipple” – em tradução literal, “Liberte o Mamilo” –, que promove a igualdade de gênero e se opõe à objetificação sexual. 

“É bizarro, porque a mulher ou é hipersexualizada, ou, se ela fala abertamente sobre sexualidade, é uma vagabunda. As pessoas não sabem lidar com uma mulher livre, temos que ser discretas e recatadas. Eu amo meu corpo e me sinto confortável com ele, isso não deveria ser ofensivo”, dispara. 

O poder de identificação responde por parte do sucesso da intérprete. “Quero ajudar as pessoas que são vistas como ‘ovelhas negras’ da família. Muita gente é expulsa de casa pelos pais porque conta que é gay”, denuncia ela, que, nesse contexto, não poupa críticas ao presidente Jair Bolsonaro. “Ele é um grande oportunista, que usou Deus como manobra política, não acredito que ele seja religioso”, opina. 

Agora aos 24 anos, Clara assumiu a vocação artística e se valeu de uma decepção amorosa para criar seu primeiro “hit chiclete”, como ela define “Chora Boy”. “Eu vinha de uma relação cheia de idas e vindas, que não me fazia bem, o menino era ‘uó’. Escrevi primeiro o refrão, dando um basta nessa situação, e depois o Dedé Santaklaus me ajudou a estruturar a música”, informa a compositora, ao citar o produtor que atua no videoclipe, justamente, como o “boy” arrependido.

Com duas novas músicas adiantadas, a artista promete voltar a agitar as estruturas de 2019 em breve e admite a vontade de gravar um EP. As temáticas terão o universo feminino como centro. “De um jeito leve, quero falar sobre machismo e a liberdade da mulher”, entrega.