Foi um pesadelo a história que cercou a realização do 27.º Anima Mundi. A maior maratona de desenhos e filmes em stop-motion da América Latina chega nesta quarta, 24, a São Paulo, após cinco dias de sessões no Rio de Janeiro, consagrando o drama português Tio Tomás: A Contabilidade dos Dias, de Regina Pessoa, como melhor filme. A história de uma menina às voltas com a saudade por um velho matemático, com ares de Fernando Pessoa, chegou ao Brasil premiada do Festival de Annecy (a Cannes da animação, também na França) diretamente para as telas cariocas, num momento em que o evento nacional corria o risco de não acontecer.

O motivo: a perda do patrocínio da Petrobrás, que investiu R$ 700 mil na edição do ano passado, e, neste ano, decidiu diminuir seu aporte à cultura. Sem a verba necessária e com dívidas acumuladas, os quatro diretores do evento (Léa Zagury, Aída Queiroz, Marcos Magalhães e César Coelho) resolveram passar o pires nas redes sociais, numa operação de financiamento coletivo que mobilizou os cinemas brasileiro e estrangeiro.

No esforço, o quarteto ganhou o apoio de cineastas de todo o país, sensibilizou emissoras (Gloob, Cartoon Network e o Canal Brasil) e arrecadou o valor mínimo para restabelecer as operações (R$ 400 mil) em cerca de um mês e meio. Animadores fizeram festas para conseguir recursos, leiloaram originais de desenhos de prestígio, convenceram amigos e parentes a fazerem doações. Graças ao esquema do crowdfunding, filmes como Buñuel en el Laberinto de las Tortugas, do espanhol Salvador Simó (longa sobre a juventude do diretor de A Bela da Tarde) chega agora às telas paulistas. Até domingo, 28, a cidade receberá 300 produções de 40 países, em projeções no Itaú Cultural, Unibes, Petra Belas Artes, IMS Paulista e Auditório Ibirapuera. O longa de Simó, sobre Luis Buñuel, será exibido nesta quinta, às 22h. “Lá pelo dia 17 de junho, a cerca de um mês de o evento começar, não tínhamos nem metade do que a gente precisava, o financiamento estagnou e a tensão tomou conta da gente. Isso até que o cenário virou e a mobilização da classe nos salvou”, lembra Aída. “Agora, graças ao empenho dos fãs, vamos ter um festival muito especial em São Paulo, ocupando espaços novos, com mais oficinas para crianças, agora na Unibes. Este ano, o Anima Fórum, nosso setor de debates, vai ser na capital paulista e lá também vamos ter uma competição de realidade virtual.”

É o Itaú Cultural quem vai acolher o Espaço VR Anima Mundi, com a projeção de experiências como Age of Sail, realizado por John Kahrs, para o projeto Google Spotlight Stories. Ao lado dele, vem Henfil, de Angela Zoé Meirelles Sachetto, que leva Graúna e Zeferino a uma dimensão que desafia a percepção do real. Em outros espaços, produções brasileiras como A Cidade dos Piratas, que o gaúcho Otto Guerra desenvolveu a partir dos quadrinhos da Laerte, vão ter vitrine nobre. O longa, premiado no Festival de Gramado de 2018, vai ter sessão nesta quarta-feira, às 20h, no Petra Belas Artes, misturando linguagem documental em forma de desenho animado, num debate sobre sexualidade.

“É no cinema de animação que, hoje, o mundo consegue seu espaço de encantamento mais criativo, com dimensão crítica mais aguda, graças à resistência de artistas como Otto, que dá voz, nesse filme, a pessoas que estão tomando as rédeas da liberdade sexual para si”, diz o ator Matheus Nachtergaele, que empresta sua voz a Ivan, um dos personagens centrais de A Cidade dos Piratas: um homem que entra numa busca por sua identidade trans. “Otto é o nosso grande representante na animação para adultos. Que bom esse filme poder ser visto.”

Outro título nacional que chega rodeado de expectativa é Apneia, de Carol Sakura e Walkir Fernandes, do Paraná, que vai concorrer aos Kikitos de Gramado, em agosto, recebeu o Prêmio Anual da Associação de Críticos do Rio de Janeiro, a ACCRJ, no domingo, 21. Tem sessão dele nesta quinta, às 21h30, no IMS. Com uma sutileza singular, esse mergulho nos traumas de infância gera metáforas ligadas a substâncias líquidas, numa relação mãe e filha. Os diálogos transbordam poesia, como se vê em falas do tipo: “Nem sempre quem vai à água te socorrer aprendeu a nadar” ou “Havia um mar dentro da minha mãe; quando eu saí, ela secou”.

Um dos principais chamarizes do festival, o Papo Animado, que promove o encontro da plateia com talentos do Brasil e do exterior, neste ano vai se reduzir a uma só palestra: uma conversa com Fernando Miller, diretor do aclamado Furico & Fiofó (2011), no dia 26, às 19h30, no Itaú Cultural. “Este ano, mesmo com um tamanho mais econômico, estamos realizando a edição mais importante de toda a história do Anima Mundi, depois de termos sido alijados de fontes de patrocínio com quem tínhamos uma relação histórica, sem direito a um debate público”, diz César Coelho, um dos diretores do evento, destacando a exibição de um pacote de desenhos da Turma da Mônica neste sábado, às 13h, na Unibes, e a pré-estreia mundial de Playmobil, o Filme, de Lino Di Salvo, no domingo, às 16h, no Petra Belas Artes. “A mobilização que o Brasil fez para nos ajudar ressignificou nossos 27 anos de história ao longo de 45 dias de amor.”

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