No meio dos anos 2000, as gravadoras viviam um colapso por causa do compartilhamento de arquivos via internet. O processo começou com o Napster e logo evoluiu para a pirataria em mídia física. Enquanto isso, o MySpace crescia como um dos mais populares canais para se ouvir música online sem pagar nada.

“Quando eu era um adolescente tentando fazer música no computador, era no MySpace que meus amigos publicavam suas faixas”, diz [Sandy] Alex G, produtor americano que se tornou referência da música alternativa lo-fi.

Alex, 26, começou “tentando fazer música como o [produtor de música eletrônica] Aphex Twin”, só que convivendo com a cena independente da Filadélfia, onde vive. A maior cidade do estado americano da Pensilvânia tem ficado conhecida nos últimos anos por abrigar diversos artistas indie, como Japanese Breakfast, Girlpool, The War on Drugs e Kurt Vile.

A atitude “faça-você-mesmo” já era comum na música alternativa americana, mas a internet —e os computadores, em geral— deram nova cara a ela. E Alex G, de muitas maneiras, fez música não só para a rede, mas a partir dela.

“Acho que a música eletrônica que eu fazia não era tão boa, mas acabei pegando um pouco daquela lógica”, diz. “Eu abria o computador, o [programa de gravação e edição de música] GarageBand, e ficava fazendo música com instrumentos Midi, juntando aquilo de várias maneiras.”

“Não sei rastrear muito bem as minhas influências —às vezes é um filme que vi, um livro que li ou algo que consumi. Mas as minhas referências são subconscientes”, diz. “Só que costumo trabalhar gravando minhas ideias do jeito que elas vêm. Depois, vou tentando editar de um jeito que faça aquilo soar coerente.”

Ao longo da última década, Alex G lançou oito discos, além de EPs e singles, a maioria postados no Bandcamp â€”plataforma que substituiu o MySpace e se tornou reduto para artistas alternativos, experimentais e de produção caseira—, e virou queridinho da crítica especializada.

Seus três álbuns mais recentes —“Beach Music”, de 2015, “Rocket”, de 2017, e “House of Sugar”, de 2019— já tiveram distribuição por uma gravadora de médio porte, a Domino.

Esse caminho, das gravações caseiras no ​Bandcamp até uma forte gravadora, foi o mesmo percorrido por outros nomes de destaque no indie atual. Will Toledo, líder do Car Seat Headrest, por exemplo, foi de postar suas produções lo-fi a ter banda completa, gravar em estúdio e chegar ao selo Matador —e de lá para os maiores festivais do mundo.

Alex G, sonoramente, reverbera a angústia do rock dos anos 1990 —de Elliott Smith e Dinosaur Jr.— em composições baseadas em violões folk, mas recheadas de elementos eletrônicos e arranjos dos mais variados. Ele pode soar familiar como uma balada triste e antiga de rádio ou experimental como uma demo mal produzida de uma banda iniciante.

Em todos os casos, praticamente tudo que se ouve em seus discos foi gravado em casa. “Na verdade, não mudou muita coisa”, diz, lembrando os processos de gravação de seus álbuns. “Acho que a principal diferença [de estar em uma gravadora] é a distribuição, conseguir chegar a mais gente. De resto, continuo gravando do mesmo jeito que sempre foi—na minha casa.”

As baterias Alex grava na casa de um amigo, Tom Kelly, que mora a algumas quadras de sua casa e é também seu baterista de turnês. Por influência do parceiro, o produtor também comprou um microfone de melhor qualidade.

Cuidando da criação, gravação, edição, publicação e distribuição, Alex G é cria de uma geração que, na falta dela, acabou personificando quase todos os processos da indústria fonográfica. Ele agora está aprendendo com o cantor Frank Ocean, com quem tocou em seu aclamado último disco, “Blonde”, de 2016.

“Amo como ele chama colaboradores e os usa de um jeito muito próprio. É como se tivesse uma biblioteca pessoal de samples —que não são trechos de outras músicas, mas sim gravações originais.”

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